Daniel Rocha
Reportagem

A solidariedade moçambicana inundou o porto de Maputo e há um barco salva-vidas a caminho da Beira

Um navio com ajuda moçambicana parte esta sexta-feira de Maputo para a Beira. Vai carregado de roupa, alimentos e produtos de primeira necessidade para milhares de pessoas que ficaram sem casa, sem terras, sem utensílios para cozinhar.

Há gente a andar de um lado para o outro, carregando coisas ou dando instruções. Há guias de remessa que se assinam. Há pessoas que têm de ser mandadas para casa porque o corpo já começa a dar os primeiros sinais de malária. De repente, uma voz eleva-se, grita para se fazer ouvir e com uma só palavra consegue gerir uma pequena parte do caos: “Voluntários!”, “Voluntários!”

Formam-se rapidamente alas de gente que estende os braços para descarregar todos os camiões com doações para a Beira. Os produtos têm de entrar no armazém da triagem, antes de serem carregados nos contentores que seguirão de navio até ao porto da Beira. Está previsto que este navio que vai levar ajuda humanitária da sociedade civil à Beira chegue ao porto esta sexta-feira e rume a Norte no sábado.

Maputo mobilizou-se para ajudar os vizinhos do centro do país, onde pelo menos 242 pessoas morreram devido aos efeitos do ciclone Idai, que atingiu as províncias de Sofala, Manica, Zambézia e Tete, sendo as duas primeiras as mais afectadas.

A cidade da Beira, capital da província de Sofala, continua isolada por terra. Três mil pessoas já foram resgatadas da situação precária em que foram deixadas depois da passagem do mau tempo, 15 mil ainda precisam de salvamento, de acordo com os dados adiantados esta quinta-feira pelo Ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Celso Correia.

Em 30% dos centros de deslocados criados pelo Governo moçambicano, ainda não há comida, disse o ministro. A Cruz Vermelha Internacional indicou que pelo menos 400 mil pessoas estão desalojadas na Beira, considerando que se trata da “pior crise” do género em Moçambique.

Quem lançou a ideia e tentou dinamizar a sociedade civil moçambicana espera conseguir encher 40 contentores, num total de 1290 toneladas. O número está bem visível à entrada do armazém, meta ambiciosa, mas possível, dizem: ao princípio da tarde desta quinta-feira, quando o PÚBLICO passou por lá, 32 contentores estavam total ou parcialmente carregados.

Se olharmos para o número de voluntários, que começou com 60 no primeiro dia, passou para 250 e subiu para 300 na manhã desta quinta-feira, ou se medirmos pelo engarrafamento à entrada do porto de Maputo, de veículos particulares e de empresas com produtos para doar, os 40 contentores parecem mesmo possíveis.

Transporte não é problema, que capacidade há ­– e maior fosse a solidariedade e o navio (também voluntariado, de uma das empresas parceiras do porto), o porto abriria os seus porões a mais.

Os voluntários que trabalham num armazém transformado em forno de gente não se queixam – sabem como estão as populações afectadas no centro do país. Mas o ar é pesado, pelo calor húmido, a pouca ventilação, as muitas e muitas pessoas, o entrar e sair de camionetas de caixa aberta para carregar.

De um lado, está a roupa. Sacas e sacas que são abertas, despejadas e o seu conteúdo analisado para se saber do seu estado de conservação, se são adequadas e para serem agrupadas em kits para entregar às famílias. O caos parece, afinal, ser controlado. E o burburinho embala as tarefas mecânicas. Fala-se muito em kits, de utensílios de cozinha e recipientes para aprovisionamento de água, de produtos básicos que vão de farinha a arroz, passando por conservas e que serve para alimentar uma família por dois ou três dias.

Falta de Certeza

E fala-se muito do Certeza, o nome do desinfectante de água que toda a gente conhece de cor em Moçambique.

Sentada no chão de um espaço mais calmo no armazém no porto de Maputo, Joana Martins rejeita ser uma gestora de caos. É uma das coordenadoras da ajuda humanitária e tem pouco tempo para falar – enquanto conversa com o PÚBLICO, faz telefonemas, assina cheques, discute logística. A experiência – e a energia – permitem-lhe não perder o fio à meada. “Gosto de fazer as coisas funcionarem em momentos em que é um pouco difícil”, diz. 

Está há nove anos em Moçambique – antes passou quatro anos na Guiné-Bissau.
Nascida em Monchique, formada em Relações Internacionais, Ajuda Humanitária e Cooperação para o Desenvolvimento e Voluntariado, correu para Portugal​ em Agosto do ano passado, depois de ver as imagens do grande incêndio na serra algarvia, para ajudar no possível. 

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Criou a plataforma de solidariedade Ajuda Monchique e esperava que durante um mês pudesse dar a sua contribuição voluntária, antes de o Estado poder tomar conta das coisas a partir daí. Só que não foi assim.

“Em Portugal não temos formação nenhuma para a calamidade, não estamos habituados a ter calamidade, de modo que não estamos preparados”, diz.

Se Portugal não está habituado a calamidades, Moçambique conhece-as bem. Mas nunca o país viveu uma tão grave. “Ninguém está preparado para uma catástrofe desta dimensão.” “As coisas vão-se gerindo à medida que avançam”, explica, acrescentando que se sabe de antemão que se trata de uma guerra contra o relógio: “Temos noção que é uma questão de horas, quanto mais tempo demorarmos a chegar, mais desesperada será a situação.”

A operação que ajuda a coordenar, diz, é “uma iniciativa de pessoas amigas que “queriam fazer algo porque viam que a sociedade civil não estava a mexer”, apesar da vontade estar lá.​ As 500 toneladas já recolhidas por esta operação voluntária e as 1290 toneladas que querem juntar até à partida do barco de ajuda humanitária para a Beira, no sábado, são um resultado extraordinário. 

“Isto passa muito por capitalizar a necessidade que as pessoas têm de se envolver para ajudar e saberem que o que estão a fazer não vai ser desperdiçado ou não vai ser mal-usado”, diz, explicando como se monta uma operação desta dimensão criada e gerida pela sociedade civil. 

“Eu já tenho experiência em mobilização social, que é diferente da institucionalizada. Há muito profissionalismo quando se lida com a expectativa das pessoas e das empresas. Toda a logística que vamos usar na Beira é de privados e isso é fantástico, as Nações Unidas nunca contam com isso.”

Numa operação desta natureza, concluiu, é preciso que toda a gente esteja 100% empenhada, “focada em resolução de problemas pequeninos ou grandes”. “É por isso que tudo isto funciona.”

Muito referida é a grande contribuição da comunidade islâmica de Moçambique a esta ajuda para a Beira. Mobilizaram as suas mesquitas e madrassas e têm contentores só para eles, devidamente assinalados.

Também a presença da fundação budista Tzu-Chi em Moçambique se percebe pelo trabalho das “mãezinhas”, mulheres vindas dos bairros da periferia de Maputo, das zonas mais pobres. São generosas e os seus gestos mostram-no – e parece que praticam tai chi. Reconhecem-se pela indumentária, os seus coletes verde mostarda e os lenços brancos.

No armazém do porto de Maputo, o seu trabalho é de meticulosamente juntar a roupa doada em cada molho familiar.

Cá fora, sob a sombra improvisada de um toldo, outras voluntárias assentam em papéis o que chega nas camionetas, quantos sacos disto, quantas caixas daquilo; tudo é assente em papel que outras voluntárias informatizam. “Tudo é minimamente gerido. Regista-se o que entra e quem o recebe”, afirma Zita Costa, quase sem tempo para respirar; há pouco tempo para se falar ali, são tantas as solicitações. 

Os papéis acumulam-se, mas não se facilita. Quer-se garantir que a ajuda humanitária chega mesmo a quem precisa e não se perde em algum lugar, que ninguém a desvia em seu proveito, que os artigos de primeira necessidade não acabam vendidos a preços elevados.

Motim por comida

A Beira precisa urgentemente da ajuda. Na quarta-feira, houve confrontos na cidade entre a polícia e populares que entraram num armazém privado para conseguir alimentos. Diz Joana Martins que há notícias de tiros e detidos no meio da confusão que se gerou. Centenas de pessoas juntaram-se numa manifestação espontânea nas ruas da Beira a reclamar por comida, depois de esperarem pela distribuição de sacos de cereais por parte de um lojista local. 

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A solidariedade interna e externa está a mobilizar-se. Esta quinta-feira, chegaram a Maputo as equipas dos Médicos Sem Fronteiras, da Cruz Vermelha Internacional e das Nações Unidas (da Avaliação e Coordenação de Desastres e Calamidades, UNDAC). E também muitos órgãos de comunicação social, o que obrigou o Gabinete de Informação do Governo moçambicano a enviar uma delegação para resolver tantas acreditações para jornalistas.

As condições meteorológicas melhoraram no centro de Moçambique (ao contrário do Sul do país, onde havia alerta de tempestade para esta quinta-feira à noite). O que pode ajudar a tarefa de resgatar quem ainda está isolado pelas águas.

Joana Martins vai chegar à Beira antes do navio que se carrega em Maputo. Vai coordenar o descarregamento e a distribuição – uma operação que será toda privada. É preciso identificar os armazéns onde guardar os produtos, perceber como os distribuir, garantir que chegam ao seu destino e cumprem o objectivo.

Os Amigos da Beira, como se chama o movimento de voluntários que está a incentivar e a coordenar a ajuda, tem vários milhares de meticais que serão canalizados para a compra do que a entrega voluntária de produtos que chegaram ao porto de Moçambique não supriu. Baldes de plástico, tendas, bacias com tampa, enlatados e Certeza, as pequenas embalagens de plástico azul, salva-vidas para quem não tem acesso a água potável.