Crítica

Da melancolia luxuriante de Lento e Largo à luxúria vertiginosa de Dos Suicidados

Duas duplas portuguesas estrearam as suas novas peças no GUIdance: Jonas & Lander e Joana Von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão.

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Lento e Largo, a nova criação da dupla Jonas & Lander, volta ao corpo robótico PAULO PACHECO
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Dos Suicidados, a nova criação de Joana Von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão, parte de escritos de Raul Leal, Genet e Artaud, entre outros PAULO PACHECO

No passado fim-de-semana, a nona edição do GUIdance – Festival Internacional de Dança de Guimarães assistiu à estreia absoluta de Lento e Largo, de Jonas & Lander, e Dos Suicidados — O Vício de Humilhar a Imortalidade, de Joana Von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão, duas criações que, muito embora distintas — a primeira entre a ficcão e o humor, através de animálias e robôs; a segunda uma travessia inflamada de dois corpos entre a vertigem do vício e da dor, no paradoxo que une a morte à sofreguidão da vida—, partilham um enorme rigor coreográfico atravessado por uma intrigante atmosfera de melancolia, na primeira mais subtil, na segunda levando-nos para regiões austeras da existência humana.

Lento e Largo é um andamento musical da Sinfonia nº. 3 de Gorécki, já usada em Adorabilis (2017), a criação anterior de Jonas & Lander. Ouvida à entrada da Black Box da Fábrica ASA, confere uma paisagem sonora harmónica e de referências quase religiosas a um cenário composto por uma plataforma vermelha e uma pequena piscina de água leitosa, com luzes quentes suspensas de uma teia metálica. No exterior desta plataforma, dois performers, criaturas estranhas entre o cyborg e o humano, activam dois robôs e três drones. E é um dos pequenos robôs que se dirige ao centro do palco, abrindo o espectáculo com um jocoso “hello, bitches”, desfalecendo após uma breve conversa com o público, enquanto corpos quase nus saltam para cima da plataforma vermelha, animálias viscosas entre o humano e o robótico que, numa gestualidade anfíbia, vão deslizando e saltitando, até mergulharem no pequeno lago leitoso, sobrevoados por drones

O público rapidamente entra num universo ficcional que combina, por um lado, a melancolia evocativa de estranhos futuros entre a inteligência artificial e o humano e, por outro, a bizarria de corpos e gestos tão insólitos quanto virtuosos, que exploram os limites e as especificidades de cada organismo, e suas relações. Estas entidades combinam-se entre si socializando, criando formas e situações estranhas que convocam uma constelação diversificada de referências: do surrealismo quimérico aos episódios grotescos da obra de Hieronymous Bosch, do universo da taxidermia medieval aos corpos compósitos de Enrique Gomez de Molina, dos requiens evocativos da morte aos ritmos transformistas do kuduro, do carácter ritualístico da água à qualidade iniciática deste meio, de onde todos provimos, e que introduz uma atmosfera muito orgânica a esta partitura coreográfica.

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Entre os pequenos robôs, os performers e o público, as interpelações pautam-se por um humor que não esconde um gesto político. Questionam-se a monogamia, o vegetarianismo, a animalidade humana, fala-se de gestos instintivos e contagiantes como o bocejar ou o respirar. Os diversos seres ordenam, obedecem, dançam, beijam-se e, curiosamente, os seres robotizados surgem estranhamente humanizados, enquanto os performers humanos se evidenciam pela artificialidade.

Se em Adorabilis a tecnologia era já um elemento presente (traduzida por um olho virtual entre o voyeur e o vigilante), em Lento e Largo os robôs e os drones assumem um papel tanto de condutores como de disruptores do ensemble. Ainda à semelhança de Adorabilis, os performers dão seguimento a uma ideia de intérprete-polvo com diversos cérebros em várias partes do corpo que, agindo independentemente, contribuem para a complexidade e o virtuosismo coreográfico. Trata-se de um laboratório de criação ficcional que opera no desconcerto, desde o seu próprio título, entre um andamento musical melancólico e a tensão sexual, ao voo dos drones que ampliam tridimensionalmente a peça, muito embora introduzindo risco; e aos animais mitológicos e criaturas futuristas que fazem de Lento e Largo uma entrada utópica para outras visões e potencialidades, entre o real e a ficção.

Já a mais recente criação de Joana Von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão, Dos Suicidados – O Vício de Humilhar a Imortalidade, inspirada em Raul Leal, Jean Genet, Artaud, Sade, Aleister Crowley, entre outros, convoca a vertigem funambulista da natureza humana, entre o vício da luxúria (que, nas palavras de Raul Leal, é “redentora da vida e da natureza”) e a razão (“que de tanto determinar, limita”), num jogo de polaridades entre o sagrado e o profano, as pulsões da vida tão próximas da superação pela morte.

Expondo os limites negros da Black Box do Centro Internacional das Artes José de Guimarães, com um traçado que convoca geometrias sagradas de leitura críptica e um elemento escultórico composto por tubos em vidro e suspenso do tecto (da autoria do artista visual Jérémy Pajeanc), evocativo de um elemento cruciforme, um corpo ou ícone sagrado, a peça desenvolve-se em dois momentos, com dois performers masculinos vestidos somente com uns calções negros, numa paisagem sonora limitada ao som dos seus movimentos e e da sua respiração.

Num primeiro momento, de olhos fechados (o que transmite ao público uma perturbadora tensão, induzida pelo desequilíbrio), os performers iniciam um dueto que evoca um encontro amoroso e sexual, onde o desejo se conjuga com expressões de violência, com uma gestualidade abstracta, quase geométrica, em que a força convoca tanto o prazer como a dor, com formas corporais entre a indeterminação e bestialidade.

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No segundo momento, após o desenlace dos corpos, cada performer segue duas linhagens de movimento. Uma é mais visceral e orgânica, derivando pelo palco em travessias de delírio com movimentos convulsivos, mais próximos do desespero, do desejo vertiginoso, e de uma procura insaciável. Não se trata de um corpo lascivo, nem orgiástico, mas de um corpo auto-exploratório, ilimitado e anti-racional, em permanente queda no espaço e em si mesmo. O outro intérprete expressa-se por uma partitura coreográfica mais definida, com o desenho de um corpo auto-controlado que oscila, paradoxalmente, entre a abstracção de linhas geométricas no espaço, a gestualidade meticulosa de elementos repetitivos que culminam em explosões extáticas, ou ainda, e ironicamente, composições de ballet clássico que deslizam por entre o corpo visceral, e em exaustão, do outro intérprete.

A peça termina num reencontro de dois corpos que, embora próximos, não se encontram. Conjugam-se gestos abstractos de luta, e de uma luxúria entre a vida e o domínio sobre o outro. E, já com os corpos imóveis, a luz movimenta-se e atravessa o objecto escultórico em vidro suspenso do tecto, o gesto artístico como profanação.

Trata-se de uma peça que violenta os espectadores do mesmo modo que se auto-violentam os corpos dos performers. Uma obra em que o(s) sentido(s) dos corpos se move(m) em paralelo com o(s) sentido(s) das palavras de Sade, de Raul Leal, ou de Artaud, para quem a crueldade era rigor e apetite de vida, e para quem o teatro deveria ser um duplo não mimético do real, mas de uma outra realidade perigosa, sem restrições, onde a vertigem da vida abala a sua estrutura, e os suicidados existem por um desejo insaciável de ser.

Duas criações muito diversas, uma com um desenho coreográfico muito virtuoso pelo seu rigor e diversidade, a outra com uma dramaturgia muito complexa e simbólica, física e emocionalmente intensa, numa ode à vida e à morte que não deixa o público indiferente.