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Megafone

Menos idadismo e mais Neneh Cherry, por favor

Na indústria musical, esta é a norma: meros anos após celebrarmos as suas vozes, é-lhes dada uma data de expiração. O idadismo contra as mulheres é especialmente tóxico, reduzindo o mérito à aparência, a descrédito da obra.

Nem há um quarto de hora tinha Neneh Cherry lançado o videoclipe do seu novo single, Natural Skin Deep, e já levara um carimbo de reprovação. Parece que o fez melhor, diz um fã, em 1989.

Após ver e rever o magnético vídeo, a minha curiosidade levou-me aos comentários. Nem um centímetro deslizei para descobrir ouro: “Aprecio e respeito o esforço, mas isto  me vai fazer voltar a Kisses on the Wind.” O título referido reporta a 1989 e foi um dos êxitos de Raw Like Sushi, primeiro álbum de Cherry. Foi a estreia da sueca que uniu o funk e o jazz ao compasso do hip-hop, enquanto assumia pleno controlo da sua sexualidade.

Entretanto, o ritmo e a exposição de Cherry amornaram, mas a sua musicalidade está mais nítida que nunca e as letras tornaram-se mortíferas. O disco que editou em Novembro de 2018, Broken Politics, é brilhante, uma provocação subcutânea, de som granuloso. Mas será que importa o que Cherry faz? Embora suave, o comentário indicia a sentença aplicável às vozes que ousam, espante-se, envelhecer. O primeiro “esforço” prevalece sobre o novo, que se respeita, mas não é realmente válido ou apreciado. É este o fado do idadismo, um fenómeno que desumaniza a pessoa, seja artista ou qualquer outro cidadão.

Na indústria musical, esta é a norma: meros anos após celebrarmos as suas vozes, é-lhes dada uma data de expiração. O idadismo contra as mulheres é especialmente tóxico, reduzindo o mérito à aparência, a descrédito da obra. É mais uma manifestação velada de misoginia na esfera pública: um corpo mais envelhecido não dá tanto prazer a quem o vê e isso inutiliza toda a mestria que ainda tem para dar. Cherry, que se move no meio alternativo, sofre menos esta discriminação. Mas haverá sempre uma voz corrosiva a reclamar o peso da idade. 

Quem continua sob os holofotes sente-a na pele. O melhor exemplo é Madonna, cuja transgressão e sexualidade são marcas da sua arte desde sempre. Durante os períodos controversos de Like a Prayer ou Erotica, os maldizentes eram emudecidos pelo sucesso; a sua inventividade musical e visual preteria o escrutínio da imagem pública. Com 60 anos, Madonna preserva a sua determinação, mas é condenada por isso. Hoje, é um despudor mostrar-se provocativa num videoclipe, cantar sobre sexo ou política — a irreverência é um pequeno delito que só se paga com um corpo jovem, um bálsamo para os olhos. O simples acto de ser mulher e envelhecer já é um crime social; se plasmado publicamente, como Madonna o faz sem medo, resulta em flagelação.

A base lógica do idadismo encerra um paradoxo: quando o artista está mais experiente e maduro, é quando tem de sucumbir ao silêncio criativo. Incomoda menos que se torne num "melhores êxitos" de carne e osso, que se tape ao máximo, que se retire na penumbra. Reitero: é desumano.

Nunca a Neneh Cherry de 1989 poderia imaginar o que seria em 2019. Dificilmente de Kisses on the Wind adivinharíamos o triunfo de Natural Skin Deep, em que imagina rasgar a camada superficial da pele para estabelecer uma ligação mais profunda com quem a ouve. A mensagem ecoa: se não a víssemos, como conseguiríamos ouvir a sua idade?

Tal como Madonna, Mariah Carey ou Janet Jackson, Neneh Cherry já não passa na rádio. Mas todas são símbolos de força crua, sinónimas de salas esgotadas, com velhos e novos devotos, para ouvir os seus últimos e aclamados discos — no caso de Cherry, talvez o mais importante da sua carreira. Já se começa a ver-lhe as rugas: o idadismo está velho e decrépito.