Homens e mulheres uniram-se para fazer barulho contra a violência doméstica

O dia de São Valentim foi marcado por protestos em cinco cidades. Mais um estudo mostra que 58% dos jovens que namoram ou já namoraram relatam ter sofrido alguma forma de violência na relação.

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No dia dos namorados homens e mulheres juntaram-se no Porto contra a violência doméstica INÊS FERNANDES
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ADRIANO MIRANDA
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“Parem de nos matar"! Foi com este mote que mulheres e homens do Porto se uniram nesta quinta-feira na rua de Santa Catarina numa manifestação contra os casos de violência doméstica. Apitos, megafones, tambores e demais instrumentos marcaram presença num protesto que pretende “parar com esta onda de silêncio e de silenciamento da mulher na sociedade portuguesa”, explicou Mariana Delgado, membro do núcleo do Porto da Rede 8 de Março.

Esta rede, que integra diferentes associações, tem sido responsável por protestos espalhados pelo país em defesa das mulheres e das vítimas de violência. O grupo é ainda responsável por convocar a Greve Feminista Internacional no dia 8 de Março, que acontecerá em Portugal pela primeira vez.

Referências à Greve Feminista não faltaram, sobretudo nos cartazes que adornaram o chão no epicentro da manifestação, os mesmos que foram utilizados no ano passado, em protestos contra aquele que ficou conhecido como o acórdão da “sedução mútua” (o Tribunal da Relação do Porto manteve na altura a condenação a uma pena suspensa de dois homens acusados de violarem uma mulher de 26 anos, tendo considerado que houve "sedução mútua").

Apesar da “escolha estratégica” da rua de Santa Catarina, que beneficia do fluxo constante de pessoas de várias nacionalidades, como afirmou Mariana, a manifestação não ficou por aqui. Sob gritos de “Femicídio” e “Justiça Assassina”, a multidão percorreu as ruas do Porto sem dar tréguas aos tambores e apitos até alcançar o Tribunal da Relação do Porto.

Pelas 16h30, à porta do tribunal, ouviam-se cânticos dedicados especificamente aos "juízes machistas", mais uma vez numa alusão ao caso da “sedução mútua” e ainda ao juiz Neto de Moura, que foi recentemente punido com uma advertência após ter desvalorizado um caso de agressão grave porque a vítima era uma “mulher adúltera”. “Não queremos voltar para o século XIX”, cantou o grupo em uníssono.

Jorge Moreira, artesão portuense, permanecia de apito na boca, sem mostrar intenções de parar. Ao ver referências ao evento nas redes sociais, o homem de 60 anos pegou no apito e juntou-se à multidão no Porto para chamar a atenção para um “flagelo [que afecta] todo o mundo”. “Sou filho, sou pai, sou marido, e também quero ter os meus netos e que eles vivam numa sociedade diferente.”

Várias vezes se ouviu gritos de “Viva as mulheres”, mas sem esquecer “os homens que estão aqui connosco” a apoiar a causa.

Os protestos neste dia de São Valentim espalharam-se por cinco cidades portuguesas: Porto, Lisboa, Braga, Coimbra e Aveiro. Todos partilharam o objectivo de chamar a atenção para os casos de violência doméstica e promover a Greve Internacional do dia 8 de Março.

A “manifestação ruidosa” coincidiu com a publicação do estudo Violência no Namoro 2019, apresentado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) nesta quinta-feira. Números: 58% dos jovens que namoram ou já namoraram afirmam ter sofrido alguma forma de violência durante o namoro e 67% acham isso natural.

Das diferentes formas de violência, salienta-se a violência psicológica (34%), que registou um aumento relativamente ao ano anterior. Foram inquiridos quase cinco mil adolescentes com uma idade média de 15 anos.

Para combater a violência no namoro, a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, anunciou uma campanha designada por #NamorarMemeASério. Tem o propósito de identificar comportamentos violentos numa relação íntima. Segundo Rosa Monteiro, a campanha, que vai contar com o "rosto" e a "voz" de "figuras públicas" e "influenciadores", conta com a parceria de 14 associações e federações académicas de todo o país. Trata-se de uma "campanha digital utilizando as redes sociais", que são os "meios mais eficazes para passar a mensagem".

Desde o início deste ano já foram mortas nove mulheres e uma criança em crimes de violência doméstica.

Texto editado por Andreia Sanches