Marcelino da Mata: um esclarecimento

Conheci Marcelino da Mata na Guiné e conheci – directa e indirectamente – muitas das façanhas guerreiras que o tornaram célebre.

Constatei que o vosso articulista João Miguel Tavares se referiu a mim, num artigo publicado em 31 de Janeiro de 2019 ("Marcelino da Mata, o racismo e a memória").

Não vou comentar o artigo nem o essencial – segundo depreendi – da sua razão de ser, que assenta fundamentalmente na afirmação de que “o nosso país tem um negro como militar mais condecorado da sua História”.

Não tenho conhecimentos suficientes para saber se Marcelino da Mata é efectivamente o “militar mais condecorado” da nossa História. Isto será assunto para os serviços oficiais esclarecerem.

Conheci Marcelino da Mata na Guiné (1969/1971), conheci – directa e indirectamente – muitas das façanhas guerreiras que o tornaram célebre.

Compreendo que um regime que impôs a Guerra Colonial, como se verificou de 1961 a 1974, tivesse necessidade de condecorar e fabricar heróis – quem, de então, se não lembra que tudo começou com o herói alferes Robles, incensado nas primeiras paradas do 10 de Junho no Terreiro do Paço? – sem a preocupação de saber a natureza dessas valentes acções de guerra, ou das condições em que as mesmas aconteceram.

A propósito, como João Miguel Tavares foi nomeado responsável pela organização das próximas comemorações do 10 de Junho, confio que não tenha a tentação de promover qualquer farsa semelhante a essas jornadas de Salazar e Caetano!

Quanto a Marcelino da Mata, reafirmo o que escrevi no artigo "A Guerra Colonial ainda não acabou?" e que João Miguel Tavares referiu.

Mas, já agora, acrescento mais uns dados para conhecimento do vosso articulista: o nome de Marcelino da Mata, como um dos militares então vivos mais condecorados na Guerra Colonial, foi utilizado (certamente com a sua concordância) na assinatura do telegrama que, em nome de mais de quatrocentos oficiais (entre os quais me incluí), foi enviado contra a realização do Congresso dos Combatentes, organizado pelo poder no Porto, de 1 a 3 de Junho de 1973.

E, por fim, um pequeno-grande esclarecimento: o episódio que refere sobre a tortura de Marcelino da Mata no RALIS passou-se de facto em 1975 (penso que por alturas de Março, Abril). Só que, pela sua maneira de se expressar, parece ignorar como as coisas ocorreram: foram militares extremistas ligados ao MRPP (quantos deles estarão hoje na direita ou na extrema-direita...) a prender e a torturar o Marcelino da Mata e mais dois cidadãos portugueses (penso que um juiz e o seu filho...). E foi um militar que certamente João Miguel Tavares enquadra como de extrema-esquerda (e pretenderá ter atingido, em minha opinião, neste seu texto), o então capitão Diniz de Almeida, a, arriscando-se fisicamente, resgatar os prisioneiros das mãos dos torturadores, dali os arrancando, atirando mesmo a viatura Chaimite em que os transportava contra quem tentava impedir-lhe a saída do quartel e a levá-los para lugar seguro.

Quanto ao pedido com que termina o artigo, talvez João Miguel Tavares possa aproveitar o cargo para que foi nomeado pelo Presidente da República e promover a entrevista a Marcelino da Mata.