Puro e sintético: Panda Bear no mundo moderno

Ao sexto álbum, Noah Lennox quer fazer música que os filhos entendam. Ganhamos todos: em Buoys, a beleza de Panda Bear renovou-se. Para nossa alegria.

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Fernanda Pereira

Noah Lennox habituou-se a ver a filha, de 13 anos, a ouvir gente como Travis Scott esculpir a voz, a manipulá-la com efeitos até se tornar um fluxo emocional sintético. Aquilo a que a filha e outros adolescentes chamam “música normal” fascinou-o. “Estou sempre curioso por aquilo que lhes soa estranho ou errado. Parece-me que a voz natural, o cantar simplesmente, lhes soa estranho. A manipulação vocal é tão comum na música pop que, quando ouves alguém que não o faz, soa-lhes estranho, não natural.”

Não, Panda Bear — o nome com que Lennox, membro dos Animal Collective, assina discos a solo — não fez um disco de trap influenciado por Travis Scott, mesmo que confesse ser fã do norte-americano, nem pelo reggaeton, Rae Sremmurd, Metro Boomin, Zaytoven ou Mike WiLL Made-It, tudo música que também aprecia. “Não queria pôr uma máscara e fazer algo falso — uma cópia disso ou a minha versão disso. Mas quis saber como soariam as coisas se usasse essa música — que não é má, é boa, excita-me — como modelo”, diz o norte-americano ao Ípsilon no bar Irreal, em Lisboa, onde vive desde 2004. Acredita ter conseguido: “Buoys é hipermoderno.”

Antes de começar a compor Buoys, o sexto álbum de Panda Bear (será editado a 8 de Fevereiro e apresentado a 24 de Abril, na Culturgest lisboeta), Lennox sabia o que não queria fazer: repetir a técnica de sobreposição de vozes que marcou o clássico moderno Person Pitch e os discos que se seguiram. Buoys é diferente do antecessor, Panda Bear Meets the Grim Reaper (explosão psicadélica), que é diferente de Tomboy (crueza emocional), que é diferente de Person Pitch (maravilha coral e de repetição, como se Brian Wilson se juntasse a J Dilla), que é diferente de Young Prayer (disco acústico, esparso), que é diferente de Panda Bear (onde ainda se procurava uma identidade).

“No Grim Reaper, a estética é mais cheia — a cada três segundos há um novo som a acontecer. Sinto que o efeito de álbuns como esse vem dessa técnica total”, analisa. Buoys pode ser “uma reacção” a isso. Lennox quis que “a voz tivesse uma qualidade diferente da que tem noutros discos” e não repetisse a técnica de camadas, como um coro de uma pessoa só. “Queria que as vozes estivessem à frente, num único take”, resume. Há coragem nisto: aquela técnica é a sua marca registada. “Estou um pouco dividido porque imagino que haja pessoas que queiram mais disso. Percebo-as, mas não é aquilo em que sou bom, encontrar algo e explorar apenas isso.”

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Fernanda Pereira

Pureza?

Sosseguem-se os corações. Em Buoys, a voz de Lennox permanece bela, ganhando até um renovado protagonismo. É pura e sintética ao mesmo tempo, vestindo-se de efeitos de estúdio como o Auto-Tune, presente em grande parte da actual produção pop, R&B e hip-hop. Dolphin, que abre o álbum, parece carta de intenções: entre uma guitarra em cascata e bloops aquáticos, põe a voz em primeiro plano, aqui e ali modulada pelo Auto-tune, aqui e ali duplicada, ora mais grave, profunda, transformada, ora mais “pura” (todo o álbum contestará essa ideia de “pureza”). Cranked acrescenta a estas características técnicas dub — há um mundo de sons a acontecer em segundo plano, a ricochetear elementos da voz e do ritmo alienígena. Buoys consegue equilibrar a beleza despudorada de Person Pitch com a austeridade de Tomboy, com resultados que nos remetem para as primeiras sensações provocadas por Panda Bear e pelos Animal Collective. Buoys, a canção, é euforia triunfante, cântico que explode num refrão imaculado, com ciência na duplicação da voz. Como no moderníssimo trap de Travis Scott ou Future, como no velho dub, há retalhos de voz que são transformados em segundo plano enquanto a melodia principal se desenrola — eficácia pop à frente, subtilezas sónicas atrás.

“Parece minimal à primeira audição, mas há muito a acontecer no arranjo das canções, não me parece é que seja superóbvio. Há poucos elementos, mas cada um deles faz várias coisas diferentes por canção”, explica Lennox. Ele e Rusty Santos, norte-americano com fortes ligações a Lisboa (co-produziu, por exemplo, Mundu Nôbu de Dino D’Santiago, “um verdadeiro cantor profissional” português que participa em Buoys), produtor de Person Pitch e de Sung Tongs, dos Animal Collective, seguiram a velha táctica dos minimalistas: “Quanto mais coisas púnhamos nos arranjos, menos poder essas coisas tinham. Por isso, estávamos sempre a remover coisas porque sempre que algo de grande e arrojado acontecia nas frequências profundas, se puséssemos outras coisas, não o sentirias da mesma forma. Por isso, demos por nós a remover coisas, frequentemente.” E continua: “Quando ouço o disco num sistema de som poderoso, os arranjos são quase nuvens, um nevoeiro — é um tipo de som de que gosto muito, não sei porquê”, afirma. “Com colunas de computador, só ouves metade da história, de certa forma.”

“As duas coisas em que gastámos mais tempo foi o som das vozes e os subgraves. Tinham que estar bem, o resto acomodar-se-ia à sua volta”, explica. No “resto” ouvimos guitarras filhas das cantilenas de Sung Tongs (os Animal Collective voltaram a esse disco de 2004 numa digressão que passou por Lisboa, em 2018, e Lennox deu por si a reensaiar as suas linhas de guitarra e a ter ideias para novas canções), mas numa roupagem que foge à folk psicadélica — a excepção mais óbvia é Inner monologue. Lennox e Santos queriam que “a voz fosse mais orgânica em termos de performance”, mas o produtor “insistia muito” que “a guitarra soasse mecânica”, “sintética”. Ouvimos também um disco sem batidas pronunciadas, em que “o ritmo é mais sugerido do que definido” — Lennox admite influência de álbuns como R.I.P., de Actress.

Em cerca de quatro meses, Buoys ficou pronto. Um disco através do qual Noah Lennox quer falar com os seus filhos e que canta elipticamente sobre a vida e o mundo. “Não me lembro de ter um alvo quando comecei a escrever estas canções, mas reparei que têm mensagens que pedem uma força contrária a muito do que se passa politicamente e culturalmente no mundo. Parece haver várias ondas que querem excluir pessoas específicas. Vem tudo de um lugar de medo: o medo do desconhecido, o medo de perder as coisas como as conheces”, reflecte. “A arma que uso é a humildade. Estou a falar para mim também, não quero parecer um anjo. A humildade é o maior antídoto para muitas destas coisas.”