Os Animal Collective passaram-se da cabeça para a música

Mais de quinze anos, dez álbuns e muitas digressões depois, continuam a desejar divertir-se como se fosse a primeira vez. Em Painting With, o novo álbum, Brian Weitz diz que tudo o que lhes passou pela cabeça foi transformado com exactidão em música.

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Tom Andrew

E num instante atravessaram mais de quinze anos, com dez álbuns e inúmeras digressões à volta do mundo pelo meio. Os Animal Collective transformaram-se numa das bandas mais influentes do nosso tempo, metamorfoseando-se assiduamente desde que abandonaram a cidade natal de Baltimore, mudando para Nova Iorque, e daí à conquista do mundo, com passagem por Lisboa, onde vive Noah Lennox (Panda Bear).  

Quando Noah Lennox se junta a Dave Portner (Avey Tare) e Brian Weitz (Geologist), o que pode sair daí é denso, complexo, alienígena. Outras vezes é inteligível, afectuoso, divertido. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Em parte foi isso que aconteceu em Painting With, o seu novo álbum, misto de folia pop psicadélica e dança jubilatória, com melodias, ritmos e vozes encadeados pelo mesmo caos híper-colorido. É como se três amigos da infância se tivessem voltado a encontrar, depois de se terem dedicado nos últimos tempos aos seus afazeres a solo, libertando o tipo de energia jovial só possível em quem, como nos diz Brian Weitz, consegue transpor com grande exactidão para a música o que lhe está a passar pela cabeça.

Não são o tipo de grupo que goste de se repetir e realmente o novo álbum é hiper-colorido, com canções lúdicas, directas e concisas, numa direcção bastante diferente da densidade e complexidade do anterior Centipede Hz (2012). O que esteve por trás dessa preferência?
De alguma forma é uma reacção, porque não nos queremos repetir, precisamente. Todas as canções foram compostas e orquestradas antes de irmos para estúdio, o que não é vulgar. Por norma tocamos as canções ao vivo antes de irmos para estúdio. Desta vez não aconteceu. Desejámos criar um tipo de relação rejuvenescida com o acto de gravarmos. No Verão de 2014 começámos a falar sobre as ideias que queríamos pôr em prática, os discos que andávamos a ouvir ou os álbuns que havíamos criado no passado que já não nos diziam grande coisa. Essas conversas são uma forma de nos situarmos. Depois, em 2015, o Noah e eu trocámos uma serie de gravações por email e fomos falando os três sobre o que essas canções embrionárias necessitavam. Em Maio do ano passado voltámos a juntar-nos para sessões práticas na cave de um amigo e estivemos duas semanas a tocar as canções e a criar arranjos para elas. Quando chegámos ao estúdio já tínhamos uma ideia muito precisa do que queríamos. Era apenas uma questão de execução.
É talvez o nosso álbum mais planeado. Tudo o que nos foi passando pela cabeça foi transformado com grande exactidão em música, o que é uma ideia muito libertadora.

Nessa perspectiva aquilo que tinham pensado de início acabou por estar totalmente reflectido no resultado final, ou durante o processo de criação foram acontecendo imprevistos e desvios noutras direcções?
No início as coisas são sempre um pouco abstractas, mas diria que aquilo que projectámos desde sempre reflectiu-se no resultado final. Não queríamos ambientes, coisas etéreas, baladas. No início do processo, curiosamente, falámos muito de Ramones – apetecia-nos que as canções respirassem um pouco da estrutura em que eles se especializaram e ao mesmo tempo contivessem aquele tipo de adrenalina, com qualquer coisa de curto e enérgico. Os primeiros álbuns deles são incríveis porque mesmo que não gostemos das canções, existe uma condensação de energia, do início ao fim, em crescendo, que é fantástica. São discos difíceis de largar a partir do momento em que os começamos a ouvir. Parece fácil, mas é algo difícil de alcançar. Diria que a partir do momento em que foi claro que era isso que desejávamos as coisas se tornaram fáceis. Claro que a ideia não era fazer um disco de punk-rock ou usar distorção, mas retivemos que iria ser um disco com uma energia constante em canções concisas e directas.

Em algumas entrevistas têm falado de movimentos artísticos, do cubismo ao dadaísmo, como tendo sido também uma das influências.
Em algumas das primeiras entrevistas falou-se muito de arte por causa do título do álbum. Mas, para nós, não existe novidade nenhuma. A ideia de colagem, por exemplo, esteve sempre presente na nossa abordagem à música. O dadaísmo, o cubismo, os surrealistas, ou noutra perspectiva a música concreta ou os conceitos de John Cage, são elementos de trabalho desde sempre. A diferença é que desta vez nos concentrámos mais no estilo visual, nessa relação entre música e imagem, porque nos pareceu que isso poderia coexistir com o querer criar qualquer coisa de enérgico, divertido e adoçado, como acabámos por fazer, ao estilo dos Ramones.

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Hisham Akira Bharoocha Abby Portner

A música passa realmente essa energia jovial e vibrante, mas as letras situam-se num plano oposto, reflectindo algumas das convulsões do presente. Foi propositada essa atracção de opostos?
Sim, as letras, desta feita, concentram-se mais no estado do mundo e na realidade que nos rodeia. Vivem-se tempos sombrios. Dito isto não quisemos adoptar uma postura pessimista, apontando apenas para as feridas, e carregando nelas, porque isso é o que toda a gente parece estar a fazer de momento ... [risos]. Quero pensar que existem outras opções, que a vida não tem apenas um sentido e que é possível melhorar, embora não seja fácil perspectivar o futuro nesta altura. Quisemos filtrar a realidade, expondo-a, mas fazendo-o com algum optimismo, daí talvez essas duas imagens diferenciadas que coexistem.

Decorrem neste momento as eleições primárias para o cargo de presidente nos EUA e os músicos têm estado activos, ou no apoio a Bernie Sanders, como Vampire Weekend, Cat Power, Patti Smith ou Neil Young, ou a Hillary Clinton, como Beyoncé e Kate Perry, ou recusando que as suas canções façam parte da campanha de Donald Trump, como R.E.M. ou Adele. Como tem encarado estas movimentações?
Com interesse. Situo-me à esquerda do espectro político, estou com Bernie Sanders em muitas ideias, mas os conservadores assustam-me tanto que estou mais preocupado com a forma de os derrotar nas eleições e aí coloca-se a questão se Hillary Clinton não poderá ser um antídoto mais eficaz. Veremos. Por mim qualquer um deles pode ganhar. O importante é que não ganhe nenhum conservador do partido republicano. Essa é a principal preocupação.

Os Animal Collective cresceram como grupo nos anos de Obama. Existe o sentimento geral que no início do seu mandado recaíram grandes expectativas sobre ele, depois adveio alguma desilusão e nos últimos tempos parece haver um reencontro. É assim que o avalia?
É um diagnóstico correcto. Gosto muito dele. Como é evidente não conseguiu cumprir todas as promessas, ou porque encontrou forte oposição no Congresso ou porque existiu talvez um desejo de mudança muito idealizada no início. No fim de contas, como em todos nós que não estamos na política, existe um lado de idealismo nele com a qual nos identificamos. Ele não é diferente de nós, nas suas fragilidades e potencialidades, e isso agrada-me. Com o tempo foi percebendo que colocou a fasquia alta de mais. Mudar é um processo. Leva tempo. Ele disse numa entrevista recente que a mudar as coisas era mais difícil do que ele imaginara, mas parece-me que deixou fortes raízes para algumas dessas mudanças nos próximos anos. Todos os passos que deu foram na direcção certa – mesmo se não conseguiu tudo o que ambicionava – e isso, só por si, já é uma mudança inacreditável em relação ao que os americanos estavam acostumados. A revolução no sistema de saúde, por exemplo, poderia ter ido mais longe, mas o que foi alcançado já é histórico. Talvez só tenhamos uma perspectiva total da sua acção com nos próximos anos, mas todos os passos que ele encetou foram na direcção correcta.

Nestes anos o que mudou muito foi Nova Iorque. Pelo menos algumas zonas como Brooklyn, para onde se transferiram quando chegaram à cidade vindos de Baltimore há quinze anos. Por exemplo, uma zona como Williamsburg, reconhece-a nos dias de hoje?
Até 2007 tivemos uma pequena sala de ensaios em Williamsburg. Acabámos por sair de lá por uma razão simples: a gentrificação tornou as coisas demasiado caras. Assistimos à transformação de toda essa zona, com o que isso tem de bom e de mau. É quase sempre assim. Quando chegámos era só edifícios industriais, casas semiabandonadas, prostitutas nas esquinas. Hoje é tão caro como Manatthan. É estranho, porque foram anos intensos. É um pouco de nós que está também ali.

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Tom Andrew

Hoje todos têm famílias, vivem em sítios diferentes, lançaram dez álbuns e fizeram muitas digressões. Como avalia o passar do tempo?
As coisas têm acontecido a um ritmo incrível. Tocamos juntos desde a adolescência e sempre acreditámos que a melhor forma de estarmos juntos era à volta da música. Por outro lado acho que nunca projectámos que anos depois teríamos lançado tantos discos e feitas tantas digressões. A música tornou-se no nosso trabalho. É a nossa vida. É difícil pensar em nós como banda estabelecida mas é isso que somos. Quando tínhamos vinte anos e estávamos nos bastidores de grandes festivais olhávamos para as outras bandas da idade que agora temos e íamos apertar-lhes a mão, nervosos, falando como fãs. No fim de contas ainda não perdemos isso – aconteceu há pouco tempo com John Cale – mas o que é estranho é agora chegarem até nós miúdos de vinte anos para falarem connosco todos nervosos.

John Cale é um dos convidados do disco. O outro é o saxofonista Colin Stetson. Como é que se desencadearam essas colaborações?
John Cale participa apenas numa canção. Tínhamos um sample de uma parte orquestral que, a partir de determinada altura, percebemos que não funcionava com os restantes instrumentos. Precisávamos que um músico para a tocar e foi assim que a coisa aconteceu. Estávamos em Los Angeles, onde não conhecíamos nenhum músico que nos pudesse auxiliar, mas felizmente a irmã mais nova de Dave trabalha com John Cale, e foi assim que o conhecemos. No início foi intimidante, por todo o seu passado nos Velvet Underground e a solo, mas depois correu bem. O caso de Colin Stetson foi diferente. Foi um desafio. São raros os casos que conhecemos de saxofones que funcionem no rock e quisemos provar a nós próprios que era possível. Por vezes obrigamo-nos a esses estímulos. Todos gostávamos de Colin. Foi uma escolha óbvia.

Um outro desafio parece ter acontecido com as vozes. A forma como as duas vozes estão concertadas é quase simbiótica. Não se diferenciam muito. O que pretenderam com essa forma de cantar?
O processo vocal está muito ligado ao Noah. Ele tem uma técnica muito própria. No passado, ele e Dave harmonizavam-se muito bem em termos melódicos, mas aqui a ideia foi fazer qualquer coisa de diferente. Queríamos que as vozes se interconectassem como se fossem apenas uma só, com uma componente melódica, mas também rítmica. Eles estão um pouco preocupados como é que a coisa irá acontecer agora ao vivo. Não irá ser fácil. Mas vou fazer figas.. [risos].

Quando Noah Lennox está na vossa companhia, longe de Lisboa, que tipo de imagem é que ele vai transmitindo da sua relação com a cidade?
Se estivermos num local com mau tempo é certo que vai passar horas a dizer que deve estar sol em Lisboa… [risos] Está sempre a dizer que é a Califórnia da Europa. Tem uma relação pacificada com o facto de viver em Portugal. Vamos a Lisboa muitas vezes. É como se fosse a segunda casa da banda. No início das digressões ensaiamos muitas vezes num espaço no Bairro Alto. Despendemos muito tempo a trabalhar nesse local. É a forma mais prática de ele poder estar com a família. Outras vezes desloca-se ele para podermos estar com as nossas famílias. Conhecemos a cidade. Ou talvez seja mais correcto dizer que conhecemos bem a zona do Bairro Alto.

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