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“Saiam do bairro, mas não o levem convosco”. Começou o realojamento do Bairro do Jamaica

Depois da longa espera, os primeiros moradores do Bairro do Jamaica, no Seixal, começaram a ser realojados. Se tudo correr como o previsto, todas pessoas terão saído do bairro em 2022. O desafio agora é aprender a viver fora do bairro.

Josivaldo, Olívio e os amigos querem ser jogadores de futebol, excepto um que quer ser hoquista. Andam no 7º ano numa escola próxima do Bairro do Jamaica onde nasceram e cresceram, já depois de os pais ali terem chegado nos anos 90 e nos anos 2000. O bairro inacabado acolheu-os a todos. Até agora. O realojamento começou esta segunda-feira.

A mãe e o pai de Josivaldo tinham vindo de São Tomé e Príncipe, assim como os de Olívio. “É fixe a convivência. É fixe a amizade. A gente está aqui desde criança”, diz Josivaldo, de 13 anos. Ainda assim, não deixam de ficar contentes por ter uma casa nova. “Já fazia parte do meu sonho sair do bairro”, atira Olívio, de 12 anos. 

Olívio já vai passar o Natal nessa casa porque vive com os pais no lote 10 do Bairro de Vale de Chícharos, conhecido por Bairro da Jamaica, no Seixal, o primeiro onde, desde segunda-feira, estão a decorrer as acções de realojamento. As 234 famílias que vivem nos vários lotes vão ter casas novas até 2022. As primeiras 64 vão deixar o bairro nestes três dias. 

É o primeiro dia do fim da vida do Jamaica, o bairro que chegou à tela grande do cinema no filme São Jorge, de Marco Martins, para mostrar uma realidade dura, na sua crueza, a 25 minutos da capital. 

Tudo começou na década de 80, quando a construção civil disparava e, no Seixal, se construíam umas torres num terreno com cinco hectares. Os prédios não foram concluídos. O proprietário abandonou os terrenos, o banco executou uma hipoteca, o terreno mudou de dono e, já nos anos 90, aquelas construções inacabadas atraíram quem vinha dos PALOP.

Muitas dessas comunidades chegaram ao país ao abrigo de um programa de tratamentos médicos, como Maria Nascimento, 65 anos, que chegou “há 20 e tal anos” de São Tomé e Príncipe doente dos joelhos. Foi ficando porque a “convivência era boa” e também não havia alternativa. 

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Ali, fez-se um bairro, onde os primeiros a chegar ergueram as paredes que faltavam. Quando os pais de Andrea Tati, de 26 anos, a trouxeram de Angola com dois anos, os prédios eram só pilares. As pessoas lá foram arranjando as casas como puderam. Pintaram-nas, mobilaram-nas e trataram de fazer puxadas ilegais de luz, de água e de gás, visíveis no exterior dos prédios. 

Andrea vai para a casa nova na quarta-feira com os três filhos de 8, 5 e 4 anos. Está feliz e ansiosa. “É uma casa pela qual esperamos e lutamos muito”, confessa. 

No Jamaica, está-se entre o querer ir para casa nova e as saudades antecipadas da vida no bairro. As coisas ali nunca foram fáceis, e foram-se degradando ao longo do tempo com a falta de segurança, de higiene, de esgotos e de iluminação pública. É por isso que Andrea diz que vai sentir saudades, menos “das pestes e das humidades”. 

Dirce Noronha, 41 anos, é — “felizmente”, diz — moradora do lote 10. Mudou-se na manhã de ontem do bairro aonde chegou vinda de São Tomé com uma bolsa de estudo, mas que não conseguiu concretizar. Não havia condições. Era preciso trabalhar. Carregou baldes de massa nas obras durante três anos. Hoje trabalha numa cozinha. 

Viveu ali durante uns meses, saiu, mas “as coisas não deram certo”. Voltou. E agora está de saída outra vez. Dirce ainda nem tinha visto a casa nova porque dirige a associação de moradores do bairro e era preciso estar ali para lhes dar apoio. Mas a filha ligou-lhe entusiasmada com a nova casa: “Mãe, amei, amei, amei!”. 

É um novo começo. Sobretudo para quem tem filhos pequenos, diz Dirce. E o telefone não para de tocar — “é uma festa”. Sobretudo para aqueles que já tinham começado a “perder as esperanças”. O arranque deste processo não deixa de ser também “uma esperança renovada para os outros moradores” que ainda lá ficam à espera da sua vez. 

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“Esta ainda é a nossa casa”

Há camiões de mudanças a entrar e a sair, pelos caminhos enlameados, cheios de buracos, carregados com os pertences acumulados ao longo de uma vida, para as casas novas que estão espalhadas pelo concelho. 

O realojamento das famílias só acontece depois de, há um ano, ter sido assinado um acordo entre a Câmara do Seixal, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) e a Santa Casa da Misericórdia do Seixal, homologado pela secretária de Estado da Habitação. 

O realojamento das 234 famílias implicará um investimento total de mais de 15 milhões de euros, sendo que 8,3 milhões serão suportados pelo município. Para já, vai realojar-se o lote 10, por ter mais moradores e por falta de segurança. No total, 187 pessoas irão para as 64 casas que a câmara e a Santa Casa — que ficará responsável pela sua gestão — compraram e reabilitaram, num investimento de 3,6 milhões, sendo que a autarquia entra com 2,7 milhões. 

Ontem, mudaram-se 21 famílias para habitações em vários locais do concelho. Hoje e amanhã continuará. Depois do prédio desocupado, toda a estrutura será demolida. 

“Estas famílias vivem há muitos anos nestas condições impróprias”, reconhece Manuela Calado, vereadora da Habitação e Desenvolvimento Social, no local dos trabalhos. 

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O bairro está assim há 30 anos. O Programa Especial de Realojamento (PER) arranjou casa a algumas famílias, mas elas voltaram a ser ocupadas. Desde então, a degradação foi aumentando, assim como a expectativa de conseguirem uma casa fora dali. Porquê tanta demora? “Nunca houve nenhum ministro, nenhum secretário de Estado que dissesse ‘sim senhor, vamo-nos sentar à mesa, este processo tem pernas para andar”. Com a criação de uma secretaria de Estado da Habitação, o projecto “teve essas pernas para andar”, nota a vereadora. 

Há muitas famílias monoparentais e famílias numerosas. A maior tem 11 pessoas. “Queremos que estas pessoas comecem agora uma nova etapa na vida delas. Há muitas famílias que precisam de ter um projecto de vida e só o facto de saírem para uma casa condigna já faz toda a diferença", reconhece a vereadora.

O que a autarquia não queria era "construir novos guetos": “Sempre entendemos que este processo não deveria ser pegar nas pessoas e colocá-las noutro sítio”. Mas sim que “as famílias fossem integradas”, assume a autarca. 

As rendas que agora os moradores terão de pagar foram definidas consoante o rendimento do agregado familiar. A mais alta anda à volta dos 300 euros, detalha Manuela Calado. 

Depois deste, começa-se a trabalhar no realojamento do próximo lote. Uma tarefa que se adivinha mais difícil e dispendiosa porque, diz a vereadora, “a especulação imobiliária também já chegou ao Seixal”.

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A partir de agora, estes moradores serão uma comunidade dispersa — se se pode chamar assim. “A gente não pode querer ter tudo”, diz a presidente da associação. O importante é conseguirem uma “casa condigna para os filhos”, para serem “mais independentes”: “sermos alguém na vida”, resume Dirce.

Para se matarem as saudades pensa-se já em fazer almoços e jantares uma vez por mês para contarem como estão a correr as coisas. “Enquanto o bairro não for todo, esta ainda é a nossa casa”, garante. A associação também vai manter-se para ajudar a reenquadrar os que nunca viveram fora dali. E esse, reconhece Dirce, será o maior desafio: “Eles podem sair do bairro, mas não levar o bairro com eles. Saiam do bairro, mas não o levem convosco”.