Crítica

Uma implosiva geografia exílica

O que escreve Djaimilia Pereira de Almeida pode entender-se como poderosa ferramenta de transformação da visão da paisagem humana portuguesa.

Portugal caminha, inexoravelmente, para o reconhecimento  (e a aceitação) de uma diversidade étnico-racial da sua nação
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Portugal caminha, inexoravelmente, para o reconhecimento (e a aceitação) de uma diversidade étnico-racial da sua nação NUNO FERREIRA SANTOS

Li Esse Cabelo (2015), o primeiro romance de Djaimilia Pereira de Almeida  — essa “inusitada história de um cabelo crespo” — após uma colega brasileira, professora de literatura, me ter abordado indagando o que eu pensava do romance pois estaria a ponderar a possibilidade de fazer um pós-doutoramento sobre uma (possível) literatura portuguesa de autoria negra, em que, através de um viés comparatista (com a escrita negra brasileira), buscaria problematizar os processos de produção e circulação dessa literatura em ambos os países.

Li-o e disse-lhe, evitando referir a questão primordial da sua abordagem, que talvez estivéssemos perante uma escrita ensaística em que a veia do romance prevalece pelo modo como a autora narrativiza as suas reflexões e, no caso do livro em questão, a sua experiência de vida a braços com um cabelo “aspero e intratável” — estaríamos, porventura, perante um romance de projecção autobiográfica.

Pois em Luanda, Lisboa, Paraíso (2018) a autora regressa a — (sua?) mesmo que (re)inventada — uma história de vida: um pai (não já o “avó Castro”, mas Cartola de Sousa) viaja de Luanda a Lisboa em 1984 com o intuito de acompanhar o tratamento do calcanhar esquerdo malformado do filho mais novo, Aquiles, e hospedam-se — tal como o “avó Castro” e seu filho — na Pensão Covilhã, em Lisboa. 

Tornando-os paradigma da simultânea condição de exilados, imigrantes e minoritários, as personagens, pai e filho, encetam um percurso pelos meandros dessa tripla condição, rastreando os efeitos de uma realidade desigual e as consequências de uma visão monolítica e teleológica de identidade, sempre na contramão da teoria huntingtoniana do “choque de civilizações” e do que se considera serem “valores universais”.

Interessante, neste contexto, é a relação de Pepe, o galego, com Cartola, duas almas que, no limiar da perifericidade, seja ela cultural ou étnica, de âmbito nacionalizante (angolana, portuguesa ou galega/espanhola) — não faltando uma sugestão de homossexualidade por que Aquiles manifestaria uma vergonhosa tristeza ao perceber (ou pensando ter percebido) que os dois homens “[h]aviam cruzado uma fronteira”.

Interessante é também o facto de o ponto de viragem da vida de pai e filho em Lisboa (sobretudo do pai, o foco narrativo privilegiado) ser marcado por dois incêndios: o primeiro, “que asfixiou Mizé da Assunção e o seu filho de nove meses”, obrigou-os a mudarem-se da Pensão Covilhã para um casebre “num pátio no fim da estrada velha de Paraíso a caminho de Caneças”, onde Pepe entra em suas vidas e começariam a dura vida de imigrantes negros “protegidos pela bruma que era a sua existência sem documentos” e que, para sobreviverem, têm de trabalhar nas obras de construção, sejam quais forem as suas habilitações académicas ou a sua profissão no seu país de origem; o segundo, quando o casebre da Quinta do Paraíso se incendeia e pai e filho perdem tudo, mudando-se para o barracão de Pepe, nas traseiras da taberna — Pepe, o único ser com quem podiam contar na terra que se tornara um deserto de afectos, sobretudo entre os dois: “Apenas esse zé-ninguém sem qualidades redentoras, pisado e comido pelo veneno da guerra, pôde testemunhar o seu rosto alumiado pela amizade quando deles se aproximava e os acordava porque era dia”. 

Parece que é então que os dois se apresentam — são-nos apresentados — como exilados da sua própria existência: “[S]em entender[em] por que se tinham tornado incapazes de chorar, por que tinha a memória da sua terra desaparecido do seu coração, porque não se decidiam a regressar e por que não se queixavam”.

Porém, já antes, os dois tinham começado um processo de metamorfose exílica — dois momentos dessa transição notam-se em Cartola, Aquiles ainda numa cama do hospital: “O pai de Aquiles queria vomitar Luanda, mas ainda não conseguia; queria livrar-se da primeira vida, mas ela fazia-lhe frente; passar à próxima etapa, mas era ainda o mesmo homem”, enquanto “ainda no hospital, Aquiles [tinha] deixado de se sentir angolano”.

Nesse sentido, ocorre-me o termo exiliência, tradução do neologismo proposto por Alexis Nouss em La Condition de l’Exilé (2015) para designar “o núcleo existencial comum a todas as experiências de sujeitos migrantes”, e que refere processos de subjectividade e do trabalho da memória como elementos que interferem nas construções identitárias dos sujeitos, atravessando gerações e grupos socioculturais.

Estas questões — desveladas pela exiliência, que se constrói sobre dois pilares, a condição concreta e a consciência — ajudam a explicar espacialidades e temporalidades singulares (individuais, pois o processo exílico de Cartola não é semelhante ao de Aquiles), ao mesmo tempo em que gera uma dinâmica de múltiplos pertencimentos — que não se enquadram nas grelhas de qualquer análise socio-económica a que normalmente são reduzidas as abordagens referentes a estrangeiros pobres negros em Portugal, ditos invariavelmente imigrantes (a contrastar com o termo expatriado atribuído a europeus, brancos, em Africa, onde se encontram igualmente por razões económicas).

São estas questões que constituem trilhos para que o Futuro seja sempre redimensionado e reescrito a partir de novas perspectivas: tanto do ponto de vista político-ideológico (como o binómio colonial/pós-colonial), quanto do sócio-psico-cultural, em que uma “identidade exílica” (Julie Lussier) se vai processando, como atrás se viu, “identidade exílica” que foi sendo cultivada no bojo de uma precária alteridade (negros indocumentados, trabalhadores braçais à jorna).

Com efeito, “Da aldeia de Quinzau a Lisboa, com residência clandestina em Paraíso, passando por Luanda”, poderia ser o resumo deste novo romance de Djaimilia Pereira de Almeida. Então, em 2015, como agora (2018), o que a autora nos apresenta é a corporificação das contradições históricas, a partir da encenação de um Passado constantemente a assombrar o Presente — no sentido literal do termo: a constituir-se como fantasma num jogo entre ausências e emergências memorialistas que se vão  interseccionando com/em os eventos e questionando as interpretações que deles se fazem.

E isso desde a infância de Cartola na aldeia do Quinzau, a relação com o pai, a viagem até Luanda há 50 anos, o casamento com Glória, o trabalho de enfermeiro como ajudante do Dr. Barbosa da Cunha em Moçâmedes, o nascimento dos filhos, a doença de Glória, a viagem a Lisboa: é um Passado dialéctico, que interfere nas perspectivas do Presente, tornando-se elemento fundamental no desenvolvimento da história — o que é reforçado pela estrutura dinâmica da narrativa, num vaivém temporal, em que se cruzam flash-backs e antecipações (como nesse início do Capítulo VI: “A primeira operação de Aquiles correu tão mal quanto as três que se seguiram”), e em que se desenvolvem sequências narrativas encadeadas.

E se pensarmos que a literatura — e sobretudo o romance, pela sua dimensão de “género do devir” e de reflexão sobre a condição social do homem (Georg Lukács) — ganha sentido estabelecendo-se, no processo de leitura, como possibilidade de interpretar e questionar o mundo, escrever sobre uma existência silenciosa — como são os negros em Portugal, sejam imigrantes ou portugueses negros (normalmente “creditados” como africanos de segunda geração) —, o que escreve Djaimilia Pereira de Almeida pode entender-se como poderosa ferramenta de transformação da visão da paisagem humana portuguesa, não se rasurando — antes reunindo-os um curativa convivência — os fragmentos dolorosos de uma história feita de frustrações e desilusões (como a que provoca o desafecto do Dr. Barbosa da Cunha), de fracturas e distanciamentos (como o afastamento entre pai e filho) e de ambíguos sentimentos (como o que Cartola nutria pela mulher doente).

E de total desesperança: “De Portugal, a cidadania dos mortos foi o seu [de Cartola] único visto de residência. Da cidade de onde tinha vindo, e que em tempos se chamara Luanda, pouco restava depois do grande incêndio e, além disso, continuava a ser muito longe”. A história de Cartola, de Aquiles, de Pepe, de Glória e de Iuri surge como veículo para a compreensão da experiência dos marginalizados (negros, pobres e imigrantes despossuídos) em toda sua extensão como vidas sem sentido, repletas de silenciamentos, que se apropriam do espaço que está historicamente construído por e para as vozes do centro).

São essas essas vozes resilientes (embora vencidas, como Iuri, Pepe e Cartola, que, em diferentes níveis, sucumbem) que a pena de Djaimilia Pereira de Almeida faz invadir o espaço privilegiado da literatura, fazendo dialogar política, ética e estética e compondo, desta forma, a sinfonia da resistência, para além da intensificação das diferenças, corolários da ideologia colonial e neoliberal.

Na resposta à colega brasileira, fait-divers com que abri esta recensão, porque a questão me foi posta dessa forma tão binária, respondi que podia tratar-se de literatura portuguesa, sim. Porém, porque não literatura africana, angolana no caso, da diáspora? Este seria, no entanto, tema para uma (outra) discussão. E ainda que estejamos muito, muito longe da “nação arco-íris” — ideia tão euforicamente celebrada, porventura mais pela autoria do que pela substância —, Portugal caminha, inexoravelmente, para o reconhecimento (e a aceitação) de uma diversidade étnico-racial da sua nação.

Neste contexto, este romance, que se lê bem (sem ser de um só fôlego) transita também nesses produtivos entrelugares nacionais e diaspóricos, sem a exclusão da lógica do esforço de integração numa sociedade muito complexa em que a lógica da exclusão pela diferença se naturalizou.