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Os “monstros” do folclore mexicano invadiram o álbum de família de Diego

©Diego Moreno
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Quanto maiores e mais feios são os monstros panzudos que vagueiam por San Cristóbal de las Casas, no México, maiores os pecados de quem os encarna a 22 de Setembro de cada ano, durante a procissão de Nossa Senhora das Mercês, um ritual que funde a tradição pré-hispânica e a religião católica.

O fotógrafo mexicano Diego Moreno passou vários anos a gerar estas criaturas pançudas e a fotografá-las com o intuito de homenagear a sua falecida tia, que padecia de esclerodérmia, uma doença dermatológica que tem como consequência o enrijecimento da pele. “Devido à doença, ela foi rejeitada pela família; foi apagada devido à sua aparência física”, explicou o fotógrafo ao P3, em entrevista por e-mail. “Eu nunca me afastei dela e foi precisamente a rejeição familiar que nos uniu: os meus pais também me abandonaram ao cuidado da minha avó materna desde pequeno.” A morte da tia, em 2007, viria a marcá-lo “para toda a vida”. “Procurei fotografias dela e não encontrei nenhuma, não havia rastro da sua existência. Ela existia apenas na minha mente.” 

O projecto In My Mind There Is Never Silence nasce dessa necessidade de o fotógrafo homenagear e materializar a sua tia sob forma de imagem. “Senti necessidade de aprofundar a ideia do panzudo como portador de beleza e de choque psicológico”, discorreu. “Quis trazer de volta a minha tia através deles e, ao mesmo tempo, reflectir sobre o afecto, a rejeição, a enfermidade e a morte.”

Foram 41 as criaturas que Diego concebeu e retratou ao longo de quatro anos. “Eu construí todos os monstros que aparecem nas fotografias, com a ajuda das minhas tias”, explicou. Considera-se obsessivo na forma como se entrega a cada projecto. “Cosi o traje de cada criatura, produzi cada máscara que lhe deu vida e emocionou-me muito ver cada uma nascer.” 

Diego poderia ter fotografado os panzudos no seu habitat natural, a procissão de Nossa Senhora das Mercês, mas optou por retirá-los do contexto e colocá-los dentro de lares tipicamente mexicanos. “A casa é como a mente”, comparou, “e eu queria pensar na arquitectura doméstica como espaço psicológico de conflito”. Transportar os panzudos para dentro dos lares mexicanos foi como incluí-los num álbum de família — um álbum a que nem Diego nem a tia tiveram direito enquanto cresciam.

O trabalho de Diego Moreno, que foi recentemente distinguido pelo concurso Exposure da LensCulture, pode ser acompanhado através da sua conta de Instagram.

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