Jaime Nogueira Pinto votaria Bolsonaro. Nobre Guedes também o admite

O politólogo votaria Bolsonaro, por entender que “se proclama nacionalista e religioso e defende os valores tradicionais contra a agressão das contra-culturas marginais que se querem impor como regra”. João César das Neves votaria Haddad.

Bolsonaro é o controverso candidato às presidenciais no Brasil
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Bolsonaro é o controverso candidato às presidenciais no Brasil Reuters/RICARDO MORAES

À pergunta “em quem votaria nestas eleições brasileiras e porquê?”, o politólogo Jaime Nogueira Pinto assume sem rodeios: “Em Jair Bolsonaro”. Não é o único no espectro da direita em Portugal a admitir o voto no controverso candidato de extrema-direita às eleições presidenciais brasileiras. O ex-dirigente democrata-cristão Luís Nobre Guedes também admite que escolheria abster-se ou votar Bolsonaro, sempre “contra o PT”.

Numa resposta enviada por escrito ao PÚBLICO, Jaime Nogueira Pinto explica as razões pelas quais votaria em Bolsonaro (pela negativa e pela positiva) e ainda as “reservas”. Que razões apresenta, então, para votar em Bolsonaro “pela positiva”? “Porque Bolsonaro se proclama nacionalista e religioso e defende os valores tradicionais contra a agressão das contra-culturas marginais que se querem impor como regra.”

Quanto às “reservas”, acrescenta: “Acho que por vezes Bolsonaro usa uma linguagem demasiadamente brutal e violenta na polémica. Mas não serão esses excessos retóricos – e um ‘processo de intenções’ que a esquerda quer levantar e sobrevalorizar – que devem impedir alguém de votar contra a continuação do poder petista.”

Já em relação aos motivos que o levariam a votar “pela negativa” em Bolsonaro,  Jaime Nogueira Pinto escreve que “a alternativa é Fernando Haddad, um subestabelecido de Inácio Lula da Silva e por isso um representante de um ‘mecanismo’ de corrupção organizada que governou o Brasil por mais de uma década”. E acrescenta ainda: “Devo dizer que as histórias do Mensalão, do Petrolão e do Lava-Jato me chocaram e entristeceram, pois, apesar das diferenças políticas, tinha uma certa simpatia por Lula, e nunca o teria imaginado cúmplice de tais esquemas. E também porque o grau de insegurança, com mais de 60.000 assassinatos só em 2016, chumba qualquer governo”.

Quanto a Nobre Guedes, que sublinha ter vivido cerca de cinco anos no Brasil e continuar a ter escritório de advogados em São Paulo e no Rio de Janeiro, escolheria um de dois caminhos: a abstenção ou o voto em Bolsonaro.

“Votaria convictamente contra o PT. Dizer que votaria a favor, é mais difícil. Acho o PT a maior tragédia que o Brasil conheceu. Aquela corrupção generalizada, a violência, a pobreza. Acho que era minha obrigação, como democrata, votar contra aquilo que põe em causa a democracia que é este reino do PT. É como vejo as coisas, se calhar mal, mas é assim”, diz, recordando as eleições em que o comunista Álvaro Cunhal apelou ao voto no socialista Mário Soares, porque o adversário era a direita representada por Freitas do Amaral. “Se for preciso tapem a cara [de Soares no boletim de voto] com uma mão e votem com a outra”, pediu Álvaro Cunhal.

Nobre Guedes dá uma reviravolta à história, para falar do presente e das razões que o levam a admitir um voto em Bolsonaro: “Tenho a certeza que dr. Álvaro Cunhal não concordaria com Mário Soares e votou”, diz, contrariando que seja o candidato Jair Bolsonaro quem poderá colocar em causa a democracia no Brasil. “O que eu acho que põe em causa a democracia do Brasil era uma eventual vitória do PT, que originaria uma profunda revolta social e popular”, afirma.

“Não concordo com Bolsonaro em inúmeras coisas, com aquilo que tem dito, estou mesmo nos antípodas, mas concordo muito e bastante na parte económica”, afirma Nobre Guedes, sem concretizar, no entanto, quais as propostas ou afirmações de Bolsonaro que merecem discordância. “Na parte política, quem me conhece sabe que não subscrevo muitas coisas que tem dito”, declara. Quais, em concreto? As que se referem aos homossexuais? Às mulheres? Aos negros? “Não ouvi, tem de se ver o contexto [em que foram ditas as afirmações de Bolsonaro], mas sim, são coisas unânimes em se discordar. Mas, para mim, a questão é ser condescendente ou não com o tempo que o PT esteve no poder”, afirma.

César das Neves votaria Haddad

Também há, porém, no espectro da direita, quem recuse o candidato Jair Bolsonaro. O professor universitário e economista, João César das Neves, por exemplo, diz ao PÚBLICO por email que votaria Fernand Haddad: “Porque temo pela democracia brasileira na alternativa.”

Nesta semana, a líder centrista, Assunção Cristas, disse em entrevista ao PÚBLICO e à Renascença que não votaria nestas eleições no Brasil. À pergunta “abstendo-se, não estaria a dar a vitória a Bolsonaro?”, respondeu: “Não sei. Dependeria de todos os que votassem do outro lado. Eu certamente não seria capaz de votar num partido que destruiu o sistema democrático brasileiro, que é responsável pelo outro extremismo que está a crescer. Como também, apesar de ser do espaço político de centro direita, não me revejo nos extremismos de Bolsonaro e não seria capaz de votar nele.”

Assunção Cristas perdeu-se entre a democracia e o autoritarismo

Até agora, porém, têm sido mais os intelectuais, políticos e artistas portugueses, da direita à esquerda, a posicionarem-se contra Bolsonaro. A 17 de Outubro, o PÚBLICO noticiava que nomes como o de Eduardo Lourenço, Freitas do Amaral, Francisco Louçã, Francisco Pinto Balsemão, Pepetela, Ricardo Araújo Pereira, José Pacheco Pereira, Boaventura Sousa Santos, Manuel Alegre, Sérgio Godinho, entre muitos outros, assinavam um texto, apelando à derrota do candidato Bolsonaro.

No texto, Solidariedade com a democracia e com os democratas do Brasil, pode ler-se que o candidato Jair Bolsonaro “promove o elogio da tortura e da ditadura, que propõe a discriminação das mulheres e o desprezo pelos pobres, representando uma cultura de ódio”.