Como educar uma criança homossexual na antiga União Soviética: as dúvidas e lições de uma mãe

Olena Globa demorou oito anos a aceitar a sexualidade do filho e a batalha para ultrapassar os próprios preconceitos deu-lhe um novo objectivo: ajudar outras famílias ucranianas a aceitar os filhos homossexuais.

Foram os poemas que o denunciaram. Os textos profundos sobre o amor de um homem por outro homem e o amor de uma mulher por outra mulher, encontrados no computador de família, provocaram em Olena Globa uma raiva tremenda quando confrontou o filho, adolescente na altura, sobre a sua sexualidade.

“Sentei-me no sofá ao seu lado. Lembro-me de olhar fixamente para a porta e eu – muito bruscamente, muito furiosamente – perguntei-lhe 'És maricas?'”, disse Globa, sentada no seu apartamento nos subúrbios de Kiev, capital da Ucrânia. “A minha família perfeita tornou-se um pesadelo”, disse à Reuters a professora de inglês de 54 anos.

Globa demorou oito anos a aceitar a sexualidade do filho e a batalha para ultrapassar os seus próprios preconceitos deu-lhe um novo objectivo: ajudar outras famílias ucranianas a aceitar os filhos homossexuais.

A homossexualidade é legal na Ucrânia desde 1991, com as autoridades a dar cada vez mais apoio aos direitos dos homossexuais desde que um governo pró-ocidental tomou posse em 2014. Em 2015, foi aprovada uma lei que bane a discriminação contra a comunidade LGBT+ no local de trabalho.

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Mas grupos dos direitos humanos dizem que muitas pessoas da antiga União Soviética ainda têm dificuldade em aceitar que alguém seja lésbica, gay, bissexual ou transgénero (LGBT+) e que a homofobia é generalizada.

Globa começou também a fazer campanha pelos direitos LGBT+ — e não foi apenas por pensar que era a atitude correcta a tomar. A vida do seu único filho também dependia disso. Bogdan, um activista gay, fugiu para os Estados Unidos em 2016, com receio pela própria vida. Se o seu filho alguma vez quiser regressar a casa, a mãe sabe que primeiro os seus direitos têm de estar assegurados.

As pessoas LGBT+ são frequentemente perseguidas por estranhos e pelos próprios familiares. Além disso, são também vítimas de estigma, discriminação e, por vezes, de ataques violentos, dizem associações. O país obteve 21 pontos, em 100, numa análise feita em 2018 pela Rainbow Europe, fundada pela União Europeia, e que avalia os direitos das pessoas LGBT+ na Europa. De entre 49 países, a Ucrânia ficou em 36.º lugar.

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Olena Globa, fundadora da associação TERGO Shanshan Chen/Reuters

“Aqui podemos falar livremente e abertamente de tudo, excepto deste grupo de pessoas”, disse Janthomas Hiemstra, presidente do gabinete do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento na Ucrânia, e que defende os direitos LGBT+. “Temos verificado que existem ideias subliminares, mas também concretas, de que 'estilos de vida como esses' não deviam ser tolerados no país”, disse numa entrevista por telefone.

Ainda assim, Globa espera poder propagar a tolerância e, por isso, fundou a associação TERGO em 2013, para ensinar às famílias ucranianas sobre as pessoas LGBT+. “Nós sabemos que a sociedade é homofóbica e é difícil mudar isso de uma só vez. É mais fácil mudar uma mãe ou um pai que criou um filho. É mais fácil mudar a sua atitude primeiro e depois a da sociedade”, disse.

Além de providenciar apoio social, a TERGO tem psicólogos que coordenam sessões de formação para ajudar os pais a perceber aquilo que as crianças LGBT+ estão a passar.

Porém, o que começou por ser um segredo, ainda é, nos dias de hoje, controverso em algumas partes da Ucrânia, com manifestantes a interromper muitas vezes os encontros da TERGO, a vandalizar cartazes de campanhas LBGT+ ou a entupir as redes sociais com comentários odiosos.

Apesar de tudo, famílias de toda a Ucrânia – e mais além – procuram a organização para obter orientação. A TERGO tem cerca de mil membros. “Estas sessões de formação ajudam a reflectir sobre quem somos e quem são as nossas crianças”, disse Nina Mikhailova, uma mulher de 72 anos e mãe de uma mulher transgénero.

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Famílias de antigos países da União Soviética juntam-se em reuniões da TERGO, em Kiev. Shanshan Chen/Reuters

Mikhailova acabou por aceitar a filha, mas diz que o seu maior desafio foi convencer os outros filhos a aceitar a sua transgénero de 33 anos. “Eu estava entre a espada e a parede. Irei partir em breve, o que acontecerá com eles no futuro?”, disse numa entrevista, depois de uma sessão de formação em Kiev, com famílias de outras antigas nações soviéticas, incluindo a Geórgia e a Quirguízia.

A psicóloga Maryna Didenko, que trabalha para a TERGO, disse ter observado um pequeno aumento no número de pais que procuram ajuda, apesar de muitos ainda terem a esperança de que os filhos possam ser "curados". Preocupação sobre o que os vizinhos irão pensar, desinformação ou tristeza por não virem a ter netos dificultam a aceitação, disse a psicóloga.

“O tema da sexualidade e da orientação sexual é tabu há muito tempo”, disse Didenko. “Os pais admitem mesmo que, quando o filho diz que a sua orientação sexual é diferente, o mundo desaba." Mas quando as pessoas finalmente aceitam os familiares LGBT+, muitos acabam por se envolver na luta, acrescentou Didenko.

Globa não é excepção e faz campanha pelos direitos LGBT+ para tentar remediar os anos perdidos, depois de ter rejeitado o filho há uma década. “As pessoas LGBT+ têm tido vidas muito infelizes na Ucrânia. Têm de esconder a sua identidade, de esconder a sua vida, de fingir, têm de viver a vida de outra pessoa todos os dias”, disse.

“Mas estou muito confiante de que mais cedo ou mais tarde… As pessoas LGBT na Ucrânia terão os seus direitos. O casamento entre pessoas do mesmo sexo será legalizado. E acho que a Ucrânia será um sítio seguro para as pessoas LGBT viverem e se realizarem a si mesmas”, disse Globa.

Tradução de Ana Silva