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Cinco horas felizes na vida de um espectador de cinema

Quatro amigas, o seu percurso a solo ou em conjunto, em direcção à independência e à submissão aos homens. Ryusuke Hamaguchi é uma descoberta: um cinema pessoalíssimo, praticado com intenso rigor mas com uma imprevisibilidade igualmente intensa. Happy Hour: cinco horas felizes na vida de um espectador de cinema.

Happy Hour – A Hora Feliz assinala a entrada na distribuição portuguesa de Ryusuke Hamaguchi, cineasta japonês nascido em 1978. O filme já tem algum tempo, vem de 2015, mas depois dele Hamaguchi já realizou outro, Asako, apresentado no último Festival de Cannes e com exibição prevista para o próximo Leffest (seguindo-se, supõe-se, a estreia comercial). É verdadeiramente uma descoberta – um cinema pessoalíssimo, praticado com intenso rigor (na composição, no enquadramento, nos tempos internos de cada cena) mas com uma liberdade, ou imprevisibilidade, igualmente intensa: nunca sabemos, nem podemos dar por garantido, para onde seguiremos de uma cena para outra, nem podemos saber, à entrada em cada nova cena, se ela vai durar uns minutos ou umas dezenas de minutos.

A peculiar economia narrativa de Happy Hour é um dos seus factores distintivos. Totaliza cinco horas de duração em que nada parece a mais, e cinco horas que “sugam” o espectador para dentro das vidas das suas quatro protagonistas (e demais coadjuvantes) duma maneira misteriosa, magnética. Há ecos dos grandes filmes “femininos” que marcam alguns dos capítulos mais importantes do cinema japonês, por certo nada fortuitos num cineasta que – à conversa com o Ipsilon – se diz devoto da “santíssima trindade” (expressão nossa, não dele) da cinematografia nipónica, Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu e Mikio Naruse. Mas há outros ecos que vêm irresistivelmente à memória, como as crónicas do ennui burguês de Antonioni (este filme podia chamar-se As Amigas, como o do italiano), e até já vimos críticos mais do que respeitáveis gizarem uma aproximação – favorecida por essa singular ruminação narrativa que Hamaguchi pratica, e que por vezes se pode acercar de uma lógica de série televisiva – ao Sexo e a Cidade.

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Happy Hour — A Hora Feliz é a entrada na distribuição portuguesa de Ryusuke Hamaguchi, cineasta japonês nascido em 1978

E são, de facto, histórias de libertação feminina. Histórias, no plural, porque cada uma das quatro amigas protagonistas tem o seu percurso a fazer, a solo ou em conjunto, e um movimento a fazer em direcção à independência e à submissão aos homens, mesmo se o preço a pagar (o final é bastante desolado e desolador) é uma solidão um tanto enevoado. É fácil esquecer, no final, porque entretanto passaram cinco horas, que o filme começara em tom festivo, as quatro amigas num piquenique nos arredores de Kobe (a cidade portuária em que toda a acção se passa) a fazerem brindes optimistas ao futuro – que “hoje”, ao contrário de épocas passadas, “é promissor para as mulheres de trinta e tal anos”.

Impressionante é, ainda, o facto de todos os actores e actrizes (aparentemente sem excepção) serem amadores sem qualquer experiência prévia. O rigor da presença delas e deles quase torna incrível esta informação. Mas é um pormenor que entronca directamente na também singularíssima génese do filme, e é por aí que começamos a conversa com Hamaguchi. Sabemos, porque se lê isso na internet, que Happy Hour começou a germinar num workshop de “expressão corporal” (à falta de melhor termo) que o realizador orientou em Kobe. “Veio na sequência da catástrofe de 2011, o tsunami que afectou as regiões costeiras do Japão [o mesmo que provocou o desastre nuclear de Fukushima)]”. Hamaguchi foi então a Kobe fazer uma série de entrevistas com pessoas que tinham sido directamente afectadas pelo tsunami – “pessoas que tinham perdido parte importante das suas vidas”. Descobriu então que para essas pessoas havia algo de libertador, de catártico, no acto de relatarem as suas histórias pessoais. Partiu-se daí para o workshop – “eram cinquenta pessoas, sem qualquer experiência de actor, que se reuniam aos fins de semana”.

Ao fim de quatro meses, conta, começou a nascer a ideia de um filme, “ainda sem contornos definidos”. Seleccionou 17 dos participantes, para um filme que ainda não tinha, diz ele, “uma imagem definida”, mas tinha um título, chamar-se-ia Noivas (a explicação da mudança de título, para Happy Hour, Hora Feliz, está contida numas das cenas mais impressionantes e é quase auto-explicativa). Trabalhou mais oito meses, com actores e argumentistas, e foi ao longo desse período que o filme começou a tomar. Com contributo directo das protagonistas: “estas quatro actrizes destacaram-se, e centrar o filme nelas foi a opção natural”. Transportavam um optimismo e uma determinação – “de começarem uma coisa nova” – que se transmitiu à narrativa, como um testemunho em que Hamaguchi pegou para desenvolver o argumento, e “as personalidades das actrizes influenciaram decididamente cada uma das personagens”.

No filme ficou um resquício do workshop. Uma longa cena, ainda na parte inicial, onde as protagonistas e outras mulheres praticam uma série de exercícios físicos e mentais, guiadas por um “guru” (personagem masculina que voltará a aparecer mais tarde, aliás como várias outras que vão aparecendo e desaparecendo para aparecerem outra vez, agora com uma ambiguidade pouco consentânea com a figura de mestre da auto-ajuda que nesta cena desempenha). É uma meia-hora inteira em que ficamos ali, a ver a sucessão de exercícios praticados na aula – uma espécie de performance que reproduz muito do trabalho feito no workshop, e diz-nos Hamaguchi que tinha 8 horas filmadas com material, depois reduzidas na montagem aos cerca de trinta minutos que a cena tem. Por falar em tempo, a ideia inicial previa uma duração “clássica”, cerca de duas horas, “mas o trabalho com os actores, as indicações e as sugestões deles para o arco das suas personagens, obrigaram a sucessivas reescritas e ampliações do argumento”, até se fixar nas duas horas.

O carácter de performance estampado nessa cena é como que rimado por outras, igualmente muito longas, que também se situam entre uma espécie de teatro e um exercício de endurance – as cenas do tribunal, onde uma das mulheres tenta obter uma autorização de divórcio, ou outra, formidável, na sessão de leitura pública de um livro de poemas (que se chama Vapor e por alguma razão também nos parece que podia ser um bom título para o filme). A sequência do tribunal, especialmente, por focar a dificuldade de obtenção do divórcio por parte da mulher (sendo o marido bastante possessivo e orgulhoso), põe em cena de maneira muito explícita a questão da condição feminina no Japão contemporâneo, que é o tema que subjaz ao filme inteiro. Diz Hamaguchi: “À partida não tinha nenhuma intenção de fazer uma ilustração sociológica, nem pretendia que o filme fosse um retrato da sociedade japonesa, mas como tentámos ser tão realistas quanto possível esses temas começaram a entrar”. As histórias das actrizes, ou que as actrizes traziam para as personagens, começaram a fazê-lo pensar “nas coisas diferentes que o Japão dá aos homens e às mulheres”, e o filme tornou-se numa reflexão “sobre os lugares distintos que uns e outros ocupam na sociedade japonesa”.

Também esta impressão de justeza, afiada como um bisturi, contribui para o clima muito particular que se respira em Happy Hour. Que ninguém se assuste com as cinco horas – são “cinco horas felizes” na vida de um espectador de cinema, que quase sem perceber como dá por si a respirar os ares de Kobe, entre o mar e as montanhas.

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