#VanLife: mais do que a carrinha, um estilo de vida

A hashtag #VanLife é das mais cobiçadas no Instagram — são quase quatro milhões de publicações. Fomos atrás delas e encontrámos várias histórias, na vida real, de pessoas que transformaram carrinhas em casas sobre rodas onde sempre sonharam morar.

Sofia não podia estar mais satisfeita. Algures na praia do Amado, no concelho algarvio de Aljezur, encontrou o sítio “perfeito” para estacionar Framboesa, uma Volkswagen Transporter T3. As ondas quase lhe salpicam a janela. “Queres ver?” A pergunta é retórica. Ágil, a programadora de 28 anos levanta-se do chão, empoleira-se no sofá (que é metade da cama) e levanta a porta de trás da carrinha ligeira. Dá uma gargalhada: “Incrível. É como acordar todos os dias ainda dentro do meu sonho.”

Lá fora, o namorado, Filipe, conversa com “os vizinhos”. Naquela manhã, são dois alemães, jovens, que alugaram uma carrinha portuguesa para percorrer a Costa Vicentina. Está parada ao lado da Vw T3 que Sofia Rodrigues comprou há um mês. E a fotografia do grupo, sentado na falésia, está bem perto da imagem que a fez querer deixar de ter morada e passar a morar numa casa sobre rodas.

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Sofia comprou Framboesa há um mês. O passo seguinte é pintá-la Sofia Rodrigues

Imagine-se: pôr do Sol. Verão (ou um início de Outono assustadoramente quente, como este). Uma autocaravana empoleirada numa arriba alentejana, de portas abertas, as cortinas a esvoaçar. Um casal, em duas cadeirinhas dispostas lado a lado, cabelos brancos escondidos nos chapéus. Ele a ler um livro. Ela só a ver o mar a ser o mar. 

E Sofia, uns metros à frente, petrificada a olhar para “toda aquela serenidade”, enquanto os colegas de viagem se apressavam a entrar no carro. “Na altura não partilhei com ninguém. Mas desde aí que comecei à procura daquilo”, conta.

Foram três anos a fazer contas. E três passos gigantes a dar: mudar de área, aceitar um projecto longe de casa para ganhar a confiança dos superiores e comprar a carrinha. 

Deixou a engenharia civil (depois de ser bolseira da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e de trabalhar em Moçambique) e aprendeu a programar. “Todos os passinhos que eu dou é de forma a poder trabalhar remotamente.” Não queria estar presa à secretária de um escritório, das 9h às 17h. Pensou: “Até gosto de informática. Como software developer só preciso de um computador. E posso levá-lo para onde eu quiser.” 

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Sofia, 28 anos, engenheira civil e programadora quer trabalhar remotamente na carrinha DR

Agora, trabalha numa empresa holandesa, que tem uma sucursal no Fundão. Os incentivos eram difíceis de recusar (metade da renda é paga), podia finalmente pendurar as calças de fato, os chefes defendem horários flexíveis e ela mudou-se para a Beira Baixa. “Achava que ia morrer de tédio. Acuso-me, era a típica rapariga que ia beber um copo ao final da tarde, que gostava de passear em shoppings.” Mas um ano e meio depois, ainda não se aborreceu. 

Em Maio deste ano, voltou a mudar-se. Perguntaram-lhe se não estaria interessada em liderar um projecto na Irlanda e ela aceitou. Nos intervalos de almoço — “lá comem em frente ao computador” — continuava à procura de uma carrinha para viajar. Fazer scroll em sites de venda online era “o entretenimento diário”. O garfo numa mão, o rato do computador na outra. Até que teve de largar o garfo para se atirar com as duas mãos ao teclado. Estava ali, no monitor, a carrinha dela. 

“Esse foi o dia mais stressante da minha vida”, suspira. O anúncio da Volkswagen Transporter T3, o modelo que andava desesperadamente à procura, atraiu quatro mil visualizações nas duas primeiras horas de publicação no Custo Justo. O anunciante pedia 9500 euros, Sofia só podia pagar 9000. Ao mesmo tempo, Filipe Pereira, o namorado e futuro parceiro de viagens, não lhe atendia o telemóvel. “Eu precisava mesmo de lhe dizer ‘Olha, vou gastar muito dinheiro’. E preciso que vás buscar a carrinha.”

Marcou o número no anúncio e quando lhe atenderam atirou: “Quando vi os faróis, que parecem uns olhinhos a pedir carinho, nunca mais os esqueci. Cresci a ver os carros e as motas serem tratadas como família. E esta ia ser a minha casa.” Não parece um argumento tão aliciante quanto as propostas mais altas que não paravam de cair, mas do outro lado da chamada estava um homem que criou uma família naquela carrinha. Só a estava a vender para comprar uma maior, onde pudesse seguir viagem com o próximo bebé, a poucos meses de chegar. “A carrinha não está para leilão”, rematou, “se a tenho de vender, que seja a ti”.

E foi assim, “à filme”, que Sofia, Filipe e o gato Alfie (The Grey, por favor) chegaram ao volante de Framboesa — o nome foi escolhido “com muito bom gosto” pela filha do primeiro dono e adoptado sem reservas por eles. A primeira noite foi a 17 de Setembro, em Arraiolos, Évora, sozinhos, num lago que descobriram através da aplicação móvel Park 4 Night, uma espécie de TripAdvisor do caravanismo (na app estão marcados 2163 sítios para estacionar, de forma segura, só em Portugal). “Aí sim, sossegámos: era mesmo isto.” 

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Alfie e Filipe, na cama da carrinha Vw T3 Sofia Rodrigues

Em Outubro, Sofia regressa à Irlanda. Volta no final do ano, mas avizinha-se uma separação difícil. “Já disse ao Filipe que ele vai ter de me levar na carrinha até ao aeroporto de Lisboa. Demore o tempo que demorar.” Enquanto ela estiver fora, cabe-lhe a ele construir outra secretária amovível. Assim, um dos assentos vira-se para trás, a cama vira sofá e os dois podem “trabalhar a partir dali, no conforto de uma sala”. A empresa até dá o cartão para acederem à Internet.

O antes e o depois (e o agora que é “tudo o que importa”)

Rita Vasconcelos e Miguel Lisboa, 24 anos, ainda não tinham passado a fronteira portuguesa quando fizeram um pacto. Nove meses, 37 países europeus, 27 mil quilómetros e 20 mil euros depois, a autocaravana — responsável por metade do valor que tiveram de juntar, "sem qualquer ajuda financeira dos pais" — tinha de seguir viagem sozinha. “Sabíamos que íamos chegar sem dinheiro”, diz um. “Para os projectos futuros temos sempre de vender o nosso projecto passado. As coisas não duram para sempre. E nós não somos pessoas de ficarmos agarrados a elas”, completa outro. 

No Verão, passaram “cerca de 400 horas” a converter uma carrinha Iveco Daily 30.8D numa casa sobre rodas. Que já estão a planear vender. Próximo destino: partirem para a Ásia, quando tiverem o canudo na mão. Até lá, viajam para fora cá dentro, nos intervalos do trabalho de Rita e das aulas de Miguel. 

Durante a semana, é ele que leva a carrinha para Évora. Estaciona-a “mesmo ao lado da faculdade” onde estuda Engenharia das Energias Renováveis. Dorme, toma banho, janta e estuda lá — e é “bem mais confortável” do que alguns quartos para universitários.

Mas mais do que as viagens ou poder não pagar renda, o que eles procuravam mesmo era um “desafio”. “Nunca tínhamos feito nada a nível de carpintaria. Nem de electricidade.” E gostaram da ideia de aprender — horas de tutoriais no YouTube — e de poderem desenhar a planta “tal e qual a queriam”, com a experiência que traziam da autocaravana.

Voltaram a juntar dinheiro. E a carrinha, de 25 anos, chegou-lhes às mãos em Março. Escolherem-na porque conseguiam caber em pé no interior (um “requisito obrigatório”), a caixa tem quase quatro metros de comprimento e largura suficiente para uma cama de casal fixa, e porque estava à venda por menos de dois mil euros, no OLX. “Foi mais ou menos um achado, porque agora não se vê muitas carrinhas destas por este preço.”

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A planta que Rita e Miguel desenharam World On My Way

Fizeram uma revisão geral e o mecânico aconselhou-os a mudar o óleo, os filtros e os travões (500 euros). Depois, começaram a limpar. “Tinha feno por todo o lado, porque era usada para transporte de cavalos”, ri-se Miguel. 

Começaram por uma camada de tinta anti-ferrugem e uma barreira anti-vapor, depois construíram o chão, o isolamento, fizeram uma janela. Instalaram depósitos de água, um painel solar de 100 watts, uma segunda bateria e um aparelho (relé) que a carrega com o carro em movimento. 

Querem ter uma “auto vivenda auto-suficiente” e, para isso, construíram até uma casa de banho com chuveiro e sanita portátil, algo “que a maior parte das carrinhas não tem”. Compraram todos os materiais numa conhecida rede de lojas de materiais de construção, à excepção dos componentes eléctricos que encontraram em sites online. 

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A construção do chão, feita por Rita e Miguel World On My Way

Contas feitas, “gastaram tanto como com a autocaravana”: 8500 euros. “Podia ter sido mais barata, temos um forno e um frigorífico que foram caros, por exemplo. Mas queríamos uma carrinha que valha alguma coisa. E como estão na moda e há muita procura, elas valorizam muito.” 

Para legalizarem as transformações, decidiram ainda homologar a carrinha, o que também pesou no orçamento (1800 euros entre o que pagaram ao IMT e ao engenheiro que fez o projecto). A transformação “deu muito, muito trabalho”. Está toda detalhada, preços e materiais incluídos, e com fotografias, n’O Mundo No Meu Caminho, o blogue que criaram para “manterem a família, amigos e interessados” actualizados

“No final só queríamos despachar isto. Na tarde em que acabámos o essencial, entrámos na carrinha e fomos embora.” Durante duas semanas, no início de Setembro, percorreram as praias fluviais do interior do país e as aldeias de xisto. Gastaram 25 euros por dia. “Depois da nossa viagem de autocaravana ficamos mesmo a gostar deste estilo de vida. De poder parar, de poder ir onde quiser”, explica Rita. “Queremos que viajar seja uma parte importante da nossa vida. E não só umas férias rápidas de vez em quando.”