Marcelo sugere que Cavaco não teve "sentido de Estado"

O presidente da República disse que não comentava as palavras de Cavaco Silva sobre a nomeação da nova procuradora-geral da República. Mas, ainda que indirectamente, comentou e de forma muito dura.

Foto
LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

Marcelo Rebelo de Sousa corrigiu nesta quinta-feira Cavaco Silva sobre a nomeação da nova procuradora-geral da República e sugeriu que o anterior Presidente da República não teve sentido de Estado.

Cavaco Silva tinha afirmado na quarta-feira que a não recondução da procuradora-geral da República era "algo muito estranho", algo "estranhíssimo", tendo em conta "a forma competente e o contributo decisivo" que Joana Marques Vidal deu para "a credibilidade do Ministério Público". E acrescentou que a não recondução de Joana Marques Vidal é “a decisão mais estranha do mandato da geringonça”.

Marcelo emendou-o sem papas na língua: “Quem nomeia a procuradora são os Presidentes, não são os governos. É uma decisão dos Presidentes. A nomeação da procuradora-geral da República foi uma decisão minha e de mais ninguém. Portanto, o que me está a dizer é que o Presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato.”

Afirmando que não comenta ex-Presidentes, acabou mesmo por comentar o comportamento de Cavaco Silva, sugerindo que ele não teve sentido de Estado. “Perante isso eu tenho sempre o mesmo comportamento. Entendo, que, desde que tenho estas funções, não devo comentar nem ex-Presidentes, nem amanhã quando deixar de o ser, futuros Presidentes. Por uma questão de cortesia e de sentido de Estado”, afirmou.

“Verborreia frenética”

Esta não foi a primeira vez que Cavaco Silva critica, mesmo que sem o nomear, o seu sucessor. No ano passado, o antigo Presidente da República foi à Universidade de Verão do PSD dar uma aula em que acabou por deixar alguns recados ao actual Presidente da República. Elogiando o estilo de Emmanuel Macron, Cavaco afirmou que “em França não passa pela cabeça de ninguém um Presidente telefonar a um jornalista para lhe passar uma notícia”, acrescentando que esta é uma “estratégia que contrasta com a verborreia frenética da maioria dos políticos dos nossos dias, embora não digam nada de relevante”.

Marcelo não quis responder e tal como agora, deu uma explicação sobre qual deve ser a atitude dos ex-Presidentes da República relativamente àqueles que estão no cargo: disse que é preciso ter “contenção”, mas também “ter muito cuidado com o relacionamento com quem foi Presidente da República ou está a ser Presidente da República”. “Por questão de cortesia, bom senso, de educação, mas sobretudo pelo respeito da função presidencial”, continuou, acrescentando que isto deve ser assim também pelo “prestígio da democracia”.

 “Se os sucessivos Presidentes da República não têm o respeito naquilo que dizem uns dos outros em termos de forma e de conteúdo acabam por não se fazerem respeitar pelo povo. É uma questão de equilíbrio e consideração pela função presidencial e pelo prestígio das instituições democráticas e ter todo o cuidado com aquilo que se diz”, afirmou então.