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Sousa Ribeiro

Baeza, poética no meio de um mar de oliveiras

Fortemente influenciada pelo Renascimento, Baeza, provinciana e aborrecida aos olhos do poeta Antonio Machado, viveu o seu tempo de esplendor no século XVI, quando o imperador Carlos I acolheu as ideias vindas de Itália para a transformar numa das mais belas cidades de Espanha, uma espécie de Salamanca da Andaluzia.

Desde mi ventana
(campo de Baeza,
a la luna clara!

Antonio Machado mudara-se para Baeza no Outono de 1912. “As minhas paixões são passear e ler”, admitia o poeta, assumidamente mais resignado do que rebelde, cinco anos depois, em 1917. A melancolia vivia alojada na sua alma.

i Montes de Cazorla
Aznaitín y Mágina!
i De Luna y de piedra
también los cachorros
de Sierra Morena!

A mulher, Leonor, morrera pouco tempo antes, em Sória. Antonio Machado, marcado pela dor e sem outra alternativa (sempre desejou viver em Madrid), chega a Baeza para ser docente de francês no Instituto General y Técnico, actualmente a IES Santísima Trinidad. 

Sobre el olivar
se vio a la lechusa
volar y volar
Campo, campo, campo.
Entre los olivos,
los cortijos blancos.
(…)

Antonio Machado, natural de Sevilha, não aprecia, no início, estas paisagens andaluzas, desde logo porque a estação ferroviária, ao contrário do que supunha, se encontrava a uns 17 quilómetros do centro urbano de Baeza. Conta-se que no dia em que chegou, perguntando por Leopoldo de Urquia, recebeu como resposta que o director do instituto se encontrava na agonia. O poeta sobressaltou-se, não sabia como reagir, mas logo o seu espírito se aquietou quando na recepção o trataram de esclarecer que a Agonia era uma tasca onde, de quando em quando, os professores se reuniam para debater assuntos relativos ao instituto.

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Antonio Machado escreve aos amigos, manifesta a sua desilusão, como se percebe das palavras que enviou, por carta, a Miguel de Unamuno (1864-1936), ensaísta, dramaturgo, romancista e filósofo espanhol . “Esta Baeza, que chamam Salamanca andaluza, tem um instituto, um seminário, uma escola de artes, vários colégios de ensino secundário, mas apenas 30 por cento da população sabe ler. Não há mais do que uma livraria onde se vendem postais, jornais clericais e pornográficos. É a comarca mais rica de Jaén e a cidade está cheia de mendigos e de senhores arruinados na roleta. A profissão de jogador considera-se muito honrosa”.

Baeza, aborrecida e provinciana aos olhos críticos do poeta, desperta-lhe aos poucos, à medida que vai afastando a melancolia imposta pela morte da mulher, outros sentimentos; sai das trevas para a luz em tertúlias com amigos mas prefere sempre entregar-se à solidão. Antonio Machado vivia uma existência triste mas Baeza recorda com alegria o poeta e nele penso mais uma vez quando avisto, ao fundo da calle Conde Romanones, o campanário da antiga universidade, já banhado pelos últimos raios da tarde, à hora em que os sinos das igrejas parecem embalar a cidade ainda adormecida.

Lá para dentro, quase na penumbra, está a sala onde Antonio Machado deu aulas, transformada em museu em 1980, mais o claustro; cá fora, sob um manto de sombra tranquila, duas crianças jogam à bola e um casal ameaça eternizar a sua felicidade consumada em beijos perpétuos na fonte de Santa María, que evoca um arco do triunfo romano na praça homónima de Baeza, manchada a esta hora por uma luz dourada – há quem jure que a fonte foi construída no tempo de Carlos V para celebrar o momento em que os palácios da nobreza tiveram acesso a água potável.

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A imponente catedral
Por un ventaval,
entró la lechuza
en la catedral.

Deixo-me ficar pela praça que no século XVI era sinónimo de poder: civil, eclesiástico e nobiliário. Mesmo em frente à fonte que a esta hora parece mais dos amores está o antigo seminário de San Felipe Neri, que nos dias de hoje acolhe a sede Antonio Machado da universidade internacional da Andaluzia. Rodeada por casas solarengas, a praça de Santa María mais parece aninhar-se aos pés da imponente catedral de la Natividad de Nuestra Señora, com o seu campanário erguendo-se contra um céu cada vez mais alaranjado, os sinos badalando para quebrar o silêncio sepulcral que nem os beijos do casal de namorados afecta.

No século XII foi, admitem os historiadores, uma mesquita mas desse tempo de antanho nada mais resta do que uma porta em ferro que contempla o noroeste. Um mar de escadas, de acesso à catedral, prende-me o olhar mas é bem provável que a sua construção se tenha ficado a dever, mais do que a encurtar distâncias, a definir uma fronteira entre o povo e as divindades.

San Cristobalón
la quiso espantar,
al ver que bebía
del velón de aceite
de Santa María.

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As escadas, projectadas pelo jesuíta Juan Bautista Villapando, tal como a fachada, conduzem à entrada principal. Mas foi Andrés de Vandelvira quem se encarregou, em 1567, da disposição e da ordem deste templo catedrático que me aprisiona o olhar durante largos minutos neste final de tarde mágico. No interior, onde o calor não penetra, as colunas erguem-se sumptuosas, são como um desafio para os céus que, não tarda, se vão escurecer, deixando ver apenas uma ou outra estrela. Mas estão ali, não para fitar a abóbada celeste, quase desde que o tempo é tempo, mas para exacerbar a vida da abóbada da catedral, decorada nas suas formas geométricas, tão sedutoras para quem as observa com o tempo de que carecem. 

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Mesmo ao lado, numa nave que manifesta o lado gótico da estrutura, encontro uma pequena capela que guarda a Custódia que apenas respira o ar puro na procissão do dia do Corpo de Cristo. Talhada em 1714 por Gaspar Núñez de Castro, trata-se de uma obra de ourivesaria com delicados símbolos em prata, imperdível para quem não se resume a olhar a catedral desde a praça que cada vez se torna mais silenciosa à medida que a tarde se espreguiça.

No final das aulas, tivesse ou não vontade de a fitar, a catedral preenchia o olhar do poeta, mal este se recortava na moldura da porta do instituto. Antonio Machado conhecia e admirava o quadro de San Cristóbal que se achava no interior, pintado por Pedro Gallo em 1736.

La Virgen habló:
Dejála que beba
San Cristobalón.

Nas costas da catedral, mais silentes ainda, as ruas são labirínticas, convidam a um passeio, quase imploram para que o turista se perca mas, no final, caminhando por aqui ou por ali, estas acabam por desaguar, como um rio dócil, numa praceta que logo conduz, sem dificuldade, ao Paseo de Antonio Machado.

Sobre el olivar
se vio a la lechuza
volar y volar.
A Santa María
un ramito verde
volando traía

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Caminho, agora que o dia se extingue, pelo Paseo de las Murallas, tão do agrado de Antonio Machado, descubro um busto do poeta, um monolito da autoria de Pablo Serrano datado de 1966, observo uma vez mais, já envolto nas sombras, esse extenso mar de oliveiras, até que me decido a regressar ao coração da cidade, à calle San Pablo, para me sentar num banco ao lado da estátua desse homem que a memória de Baeza nunca apagará; um homem cuja rotina raramente foi interrompida, à excepção, talvez, de um dia em que conheceu, integrado num grupo de estudantes proveniente de Granada, o jovem Federico García Lorca, de quem haveria de se tornar amigo.

Um livro suportado pela mão direita, a esquerda apoiando o queixo em parte, a bengala do mesmo lado, o chapéu à direita, as pernas cruzadas, um poeta em bronze perpetuado pelo trabalho de Antonio Pérez Almahano em 2009, mesmo ao lado do novo casino, onde a roleta provavelmente continua a produzir estragos entre senhores de um outro tempo - deste tempo.

Ao fundo, cintilam as luzes de Úbeda.

i Campo de Baeza
soñaré contigo
quando no te vea!

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Úbeda
A irmã escrita em prosa

“Caminante no hay camino, se hace camino al andar”.

Se Baeza é feita de poesia, Úbeda parece bordada a prosa.

Antonio Machado visitava esta última com frequência, não raras vezes caminhando, como parte da sua rotina diária, desde Baeza. Nesse percurso, por vezes tão solitário, regressava à sua veia poética.

Y la encina negra
a medio camino
de Úbeda a Baeza.

Já na cidade, recolhida a esta hora da tarde na sua quietude, imito o poeta e inicio a minha errância ao longo da calle Redonda de los Miradores. Desde aqui, sentado num muro de pedra, contemplo o mar de oliveiras que se estende à minha frente, até se perder de vista no horizonte longínquo, as serras de Mágina e de Cazorla, tão presentes na sua obra, e o vale do Guadalquivir, abraçado por uma serenidade apaziguadora.

Úbeda e Baeza nada parece terem em comum, uma em prosa, outra mais poética, ambas têm tão pouco de andaluzes e tanto de castelhanas, como imitações de Salamanca, por exemplo, e essa semelhança transparece mal assomo, sob um sol ainda escaldante, à majestosa praça Vásquez de Molina, dominada pela não menos magnificente Sagrada Capela Funerária de el Salvador.

Já no interior, qualquer viandante, mesmo o mais indiferente, sente exercer sobre ele todo o magnetismo que emana da cúpula e do retábulo do altar-mor. Neste último, exige-se toda a atenção ao visitante para não perder os mais ínfimos detalhes de uma obra que recria na perfeição o episódio da Transfiguração de Cristo, da autoria de Alonso Berruguete. A Sagrada Capela Funerária de el Salvador, um dos melhores exemplos do Renascimento religioso andaluz, começou a ser erguida em 1536 sob as ordens de  Diego de Siloé (o arquitecto da catedral de Granada) e, com a morte deste, de Andrés de Vandelvira, até ser consagrada, em 1559, já no reinado de Felipe II.

Andrés de Vandelvira, arquitecto também responsável pela catedral de Jaén, considerada a sua obra-prima, transfigurou Úbeda, revelou a sua lucidez quando foi levantada a fachada da Sagrada Capela Funerária de el Salvador, inteligência para a forma como geriu o espaço e a incidência de luz na única nave interior, sem ignorar a abóbada que transporta o turista para um céu natural, obras geniais de um génio que até se destaca pela genialidade de abrir um caminho para a sacristia.

Úbeda vivia essa época dourada - a do renascimento, acabado de chegar de Itália em pleno século XVI, o da revolução, das luzes e das ideias. Carlos I acolheu esse movimento com entusiasmo e imbuído do mesmo espírito perante as novas teorias literárias, geográficas e científicas. Ninguém imaginava, por essa altura, que Espanha acolhesse soberbas construções que perpetuavam a glória de mecenas e de soberanos, um admirável mundo, de uma beleza estética sem paralelo até então, com castelos, palácios e igrejas que alteravam, definitivamente, a paisagem do país

Olho uma vez mais para a capela, agora no exterior, parece-me desordenada e, em simultâneo, deslocada, assimétrica. Caminho até um jardim e, olhando uma vez mais, percebo que é essa obra que tudo domina à sua volta – e nela encontro semelhanças com muitas das igrejas renascentistas italianas. O que não se percebe e menos ainda quando contemplada de forma fugaz, nessa pressa desaconselhada em Úbeda, é que a igreja foi pensada para ser o mausoléu de um dos mais importantes nobres da época, Francisco de los Cobos, secretário de estado do imperador e assessor do seu filho, o rei Felipe II, e da sua mulher María de Mendoza. Francisco de los Cobos sabia que, ao construir, estaria a contribuir para avivar a memória desse passado esplendoroso de Úbeda. “Desejo levantar em Úbeda o que a Sua Majestade, o Imperador, mandou erguer em Granada”, admitiu um dia, talvez na mesma altura em que mandou escrever na cripta da capela: “A fé, a diligência e o trabalho dão estes e ainda melhores frutos.”

Não muito longe, à direita, quando viro as costas à capela, já depois de esta me dar a ver, nas suas torres laterais, cadáveres de cabeças de vacas e outras esculturas funerárias, como quem deseja comprovar a sua função original, encontro, não com menos espanto, o palácio Vásquez de Molina, para os mais íntimos o de las Cadenas, devido às correntes de ferro que bordejam a parte dianteira do edifício. Actual sede do ayuntamiento e guardado por dois leões de pedra, símbolo da cidade, o palácio, mandado levantar em 1562, também obedecendo às directrizes de Andrés de Vandelvira, seduz desde logo pela elegância da sua fachada principal, subjugando, em parte, a força que exala das numerosas esculturas com forma humana e das delicadas colunas que correspondem às três ordens arquitectónicas.

Mandado edificar para abrigar Juan Vásquez de Molina, sobrinho de Francisco de los Cobos e, tal como este, secretário de estado de Carlos V e secretário de câmara de Felipe II, nunca as paredes interiores deste magnificente exemplo da arquitectura abrigaram este político espanhol do século XVI. Por isso, órfãs da sua existência, não tardaram a acolher, já como mosteiro, uma vez remodelado e adptado, as freiras dominicanas.

Tanta imponência convida-me a entrar e à saída, agora que a tarde se espreguiça clamando pelas luzes crepusculares, não me arrependo dessa incursão que agarrou à minha memória, por mais efémera que seja, imagens de um pátio soberbo, com os seus arcos, mais as suas colunas de mármore e a sua fonte que se recorta do meio para dar ainda mais vida a um palácio que podia estar situado numa qualquer praça renascentista de Itália.

Mas é em Espanha que se encontra.

Antes ainda de me assomar ao exterior, para ter uma visão mais próxima dessa pedra de cantaria tão cromática que a decora, subi um piso, até ao arquivo histórico municipal, repleto de tesouros, como a Probada de Hidalguia, obra de 1597 tão profusamente ilustrada, e tão caracterizado pelos seus motivos árabes, com as suas janelas em forma de olho de boi, como molduras para a Colegiada de Santa Maria e para a Sagrada Capela Funerária de el Salvador.

É para a primeira, do outro lado da grandiosa praça, que os meus passos me conduzem. É mais conhecida como Colegiata de Santa María de los Reales Alcázares, com um passado rico, remetendo para a Idade do Bronze, mais tarde para o período romano, com a descoberta de um templo dedicado à deusa Diana, ainda mais para a frente uma mesquita, até se converter, finalmente, numa igreja, mal Úbeda foi conquistada, em 1233, aos muçulmanos pelo rei cristão Fernando III, o Santo.

Sinto que o tempo, como a tarde, se esgota. A noite vai tombar, não tarda. Ainda tenho tempo de sobra para me embrenhar, também a curta distância, no palácio do Deán Mazas, convertido, já nos anos 30 do século passado, em parador de turismo, mas ainda fiel, nas suas entranhas, ao claustro de tão finas colunas e à galeria por onde entra a luz com a mesma facilidade com que entravam os aristocratas sedentos dos favores de Francisco de los Cobos.

Doce é o rosto de Úbeda. Mas Antonio Machado, como um fantasma nestas terras habitadas há séculos por fantasmas, não tarda em devolver-me à realidade.

“Se hace camino al andar”.