Gastronomia

Faz Figura: com um chef jornalista, o restaurante é uma reportagem

Pedro Dias, antigo jornalista, é a alma de um dos clássicos restaurantes de Lisboa, o Faz Figura, agora renovado e com a ambição de ser o princípio de uma viagem pelos melhores produtos nacionais.
Fotogaleria

“Talvez ainda não conheça o Faz Figura. Não admira… Está aberto há pouco tempo. Mas esperamos a sua visita. Ah! Convide alguém para vir consigo. Garantimos-lhe que será bem servido… e que faz figura!...”. Era assim, em 1974, ano da inauguração, a publicidade do então novo restaurante lisboeta Faz Figura, na Rua do Paraíso, junto ao Panteão Nacional e ao Campo de Santa Clara, onde todas as terças e sábados a Feira da Ladra monta arraiais.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Passaram mais de 40 anos e o Faz Figura continua no mesmo local, reinventando-se, mas mantendo aquele que foi sempre um dos seus grandes trunfos: a vista excepcional sobre Santa Apolónia e o rio Tejo. À frente da cozinha, e do novo conceito, está Pedro Dias, antigo jornalista da TSF e da SIC, que, com a família, comprou o espaço em 2005. Agora, iniciando uma nova fase, não é apenas Faz Figura mas Portugal Wine & Food by Faz Figura e não é exclusivamente um restaurante — propõe-se ser uma forma de descobrir o país.

A ideia é, claro, de Pedro Dias, que pode ter deixado de trabalhar na televisão mas, de certa forma, não deixou de ser jornalista. “Este projecto acaba por ser o corolário lógico do meu percurso de vida”, explica. “Uma coisa que o jornalismo me permitiu foi ganhar algum mundo e conhecer bem o país, também em termos gastronómicos. Sempre que andava em reportagem ia fazendo uma base de dados.” Foi ficando cada vez mais claro na sua cabeça que “Portugal é um caso único de riqueza gastronómica”. Porque não aproveitar o facto de ter um restaurante para o tornar uma montra do muito que o país tem de excepcional?

Daí nasce a ideia do Wine & Food. Para percebermos o trabalho que está por trás, encontramo-nos com Pedro não na Rua do Paraíso, em Lisboa, mas em Monchique, na loja-café de Idália e António Duarte, Sabores de Monchique. Sobre o balcão alinham-se muitas garrafas de licores, há de medronho e limão, de alfarroba, de mel, de medronho com poejo e de outros produtos da região. “Dizem que o meu licor de limão é melhor que o limoncello”, orgulha-se Idália.

Foto

A loja tem também bolos feitos por Idália, o bolo de mel, o bolo do tacho, tradicional de Monchique, muitas compotas caseiras, piripiri também de produção familiar e, claro, os enchidos que a família Duarte faz a partir da sua produção de porco preto, que iremos visitar mais tarde. Pedro está encantado, vai provando diferentes coisas e pede a Idália para embrulhar algumas que ele levará para o restaurante.

“Isto é um work in progress”, diz. Aproveita por vezes para fazer estas viagens pelo país sempre que tem uma oportunidade, mas confessa que é difícil conciliar o trabalho na cozinha com esta pesquisa de campo. “Não é a forma mais fácil de trabalhar, mas é a que eu quero. É muito mais fácil ir buscar um carré de borrego da Nova Zelândia, que é bom, mas é muito mais interessante descobrir, seja no Alentejo ou nas Beiras, um bom borrego nacional e trabalhar esse produto. Se temos um restaurante em Portugal, com uma raiz portuguesa, parece-me inevitável usar coisas portuguesas.”

Um dos produtos que mais o encantou foi a Aguardente da Lourinhã. “Só há três aguardentes vínicas de regiões demarcadas no mundo [Cognac, Armagnac e Lourinhã], mas a maioria dos portugueses não sabe disso. Se calhar o produto é mal divulgado, mas é um produto brutal. Há coisas para mostrar que são nossas, que são muito boas e, na minha forma de encarar a restauração, acho que temos a obrigação de as defender.”

Às vezes descobre, em pequenas feiras locais, produtos excepcionais, mas produzidos em quantidades tão pequenas que é quase impossível integrá-los na carta do Faz Figura. Lembra-se, por exemplo, de uma compota de limão que encontrou em Boticas. “Tropecei um bocadinho por acaso na senhora que a faz e que estava numa banquinha escondida numa feira gastronómica. Ela achou estranho ver ali uma pessoa de Lisboa que lhe pediu ‘arranje-me duas dúzias desses frascos’. Ficou a olhar para mim.”

Conta que há uns anos tentou fazer uma carta em que usava uma série de produtos certificados e teve que desistir. “Às vezes são os próprios produtores a levantar problemas porque nós queremos uma determinada peça e eles só vendem o animal inteiro ou não têm condições de vácuo ou rede de distribuição. Era muito bonito ter uma carta a dizer ‘tenho isto, isto e isto’, mas depois metade dos produtos não tinha porque não chegavam.”

Hoje, as coisas estão a mudar. A mentalidade dos produtores, sobretudo dos mais jovens, já é diferente e a abertura para ultrapassar estes problemas é maior, garante Pedro. Foi assim que se foi desenvolvendo a ideia de criar uma ligação mais forte entre o Faz Figura e alguns destes produtores. Para já, o restaurante tem uma pequena loja onde se podem comprar os produtos (por enquanto apenas os não perecíveis) de alguns destes parceiros.

“A minha ideia é ajudar os parceiros e dar-lhes mais visibilidade”, sublinha o chef. “Em breve iremos avançar para outra fase do projecto, que é levar as pessoas aos sítios. Por melhor que seja o produto, uma coisa é prová-lo em Lisboa, outra é vir ao local e perceber de onde vem, como é feito. As coisas têm uma ligação ao meio.”

No fundo, o que Pedro projecta é uma espécie de reportagem. “Estou a pensar fazer isto com roteiros organizados em que as pessoas dormem no sítio X, comem no Y, vão ver os bonecos de Estremoz ou outra coisa, enfim, criar um pacote de experiências com o enfoque gastronómico mas que não se esgote aí.”

A par destes roteiros organizados, há também a possibilidade de criar um cartão que identifique os parceiros do Faz Figura, que as pessoas poderão ir conhecer ao seu ritmo, na altura que lhes for mais conveniente. “Chegam, por exemplo, aqui à dona Idália de Monchique e trazem um cartão que os identifica como vindo da nossa parte e que tem um desconto associado.”

É verdade que dá mais trabalho. Mas para quem está apaixonado por um país em que “se anda 100 quilómetros e mudou o produto, mudou a receita, mudou a paisagem”, o esforço vale a pena. “Tenho que andar a ver se consigo dois diazitos para sair de Lisboa e ir ao terreno. Não posso comprar de ouvido a história que alguém me vende. Tenho que ir lá ver, quero saber o que estou a propor às pessoas.”

E é assim que nos despedimos de Idália e dos filhos, que nos fizeram a visita guiada à produção de porco preto e ao talho da família em Monchique, e, com o carro cheio de petiscos, regressamos a Lisboa.