Magda B/Unsplash
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Megafone

Ao fim-de-semana, somos todos surdos na praia

Ao fim-de-semana, os bares de praia já acham que somos todos surdos, propositadamente aumentando o volume da batida electrónica como se nós não soubéssemos que os bares estão lá.

É domingo, não nos deitámos na areia há cinco minutos e já os corpos, os nossos e os de todos os veraneantes ao redor, vibram das orelhas à ponta dos pés com o tecno pop que começou a dar no bar ao lado.

Não nos ouvimos a pensar e não tarda muito para que o areal se veja limpo de quem ainda há pouco procurava passar uma tarde normal, numa praia normal, num dia normal de Verão.

Ligámos para a PSP, mas o número não funciona. Ligámos para um segundo número e a voz do lado de lá responde “Não ouço!”. Pois não, nem nós, para depois acrescentar “Não se ouve nada!” e desligar em seguida.

Dirijo-me ao bar apinhado de gente onde ninguém se mostra incomodado com o ribombar das batidas ininterruptas da aparelhagem, antes pelo contrário, e se calhar eu sou o único totó ali no meio a tentar desfrutar da praia tal como ela é: de areia e mar.

Sob a informação de estarmos em contacto com a polícia, a empregada leva-me ao gerente, o qual, perante os meus protestos, informa ter o bar autorização para a realização de eventos, o de hoje incluído, o sunset anual, onde o som pode atingir o ruído de um festival. Já foram auditados e os papéis estão todos em ordem. 

De mãos a abanar e ouvidos a apitar, regresso à toalha. Ligámos novamente para a PSP. Desta vez fazemo-nos ouvir, mas o assunto não compete à PSP e sim à GNR. Ligamos para a GNR. A voz do lado de lá pergunta “É o Bar do Búzio?”, sim, é o Bar do Búzio, e pelos vistos já há quem tenha contactado a polícia com igual reclamação. E não, não podem fazer nada, o bar já foi auditado, tem autorização para a realização de eventos e a GNR não tem jurisdição sobre os bares da praia. E quem tem jurisdição? A Polícia Marítima, pois claro. Ligámos para a Polícia Marítima. “Será possível verificarem o volume de som do bar?”, perguntámos. “A polícia não tem aparelhos para medir o som. Para isso tem de ligar para a câmara”, câmara essa que está fechada ao domingo, pelo que vamos ficar mesmo assim, com a tarde estragada, a paciência estragada e os ouvidos a arder.

Por norma, ao fim-de-semana, os bares de praia já acham que somos todos surdos, propositadamente aumentando o volume da batida electrónica como se nós não soubéssemos que os bares estão lá, mas isto é ridículo e a praia já está deserta, excepção feita para quem está no sunset já com os copos e os corpos enrolados. 

Será errado almejar ir para a praia e apenas ouvir o mar enquanto o sangue aquece ao sol? Ou estamos nós feitos uns “cotas”, “caretas”, totós de primeira água incapazes de um pezinho de dança? Não me parece, e entre a natural desresponsabilização dos serviços e a inoperacionalidade geral, a nossa sorte foi o curto-circuito na aparelhagem de som e o regresso do mar mesmo a tempo do sunset, ou pôr-do-sol em bom português, sem presunções ou estrangeirismos, sem selfies nem Facebook, apenas areia e o vagar das ondas, a ir e voltar, a ir e voltar, no fim de mais um dia, o último de praia.