Opinião

Os hidratos de carbono já passaram a ser bons outra vez?

Onde está a verdade afinal? Por norma costuma estar sempre a meio de opiniões extremadas e neste caso não foge à regra. Quem tem noções básicas de fisiologia e metabolismo e percebe o papel que os hidratos de carbono têm no nosso organismo.
Foto
Eaters Collective/Unsplash

A polémica nutricional que estalou nas férias de Verão foi um novo estudo que refere que afinal os hidratos de carbono já deixaram de ser maus outra vez! Também houve uma outra notícia viral sobre o óleo de coco ter sido considerado um veneno por uma professora de Harvard, algo que sendo totalmente errado e exagerado não é mais do que a confirmação do que vimos dizendo desde 2014, sobre a falta de propriedades mágicas desta gordura saturada.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Voltando ao pingue-pongue dos hidratos de carbono, este último estudo observou que o “ponto óptimo” de consumo que está associado a uma menor mortalidade até anda à volta dos 50% do valor calórico da dieta, um valor que não é propriamente baixo! Dirão os mais leigos que o ano passado por esta altura, ouviram falar noutro estudo que dizia rigorosamente o contrário, que os hidratos de carbono “são piores para a saúde do que a gordura”, algo que já mereceu o devido artigo e interpretação nesta rubrica.

Este novo estudo que seguiu cerca de 15.500 adultos norte-americanos entre os 45-64 durante 25 anos observou que existia uma relação de curva em “U” entre a ingestão de hidratos de carbono e a mortalidade. Ou seja, morreram mais indivíduos que se situavam nos extremos de consumo de hidratos de carbono (o ponto “óptimo” situou-se nos 50% das calorias da dieta). As reacções a este estudo traduzem muito daquilo que são as crenças individuais que cada um tem relativamente à alimentação, servindo o mesmo como arma de arremesso entre as diferentes “facções”.

A facção mais “paleo/low carb” apontou as falhas metodológicas do estudo cumprindo a célebre máxima “só há dois tipos de estudo: os que vão de encontro às minhas opiniões, e os que têm falhas metodológicas”. É engraçado o fenómeno que existe hoje em dia nas redes sociais que consiste em pessoas que nunca “deram uma para a caixa” a nível de produção científica, tecerem grandes dissertações sobre as limitações do estudo e os seus potenciais pontos fracos metodológicos. Se é certo que o facto de não se ter um vasto currículo académico não deve automaticamente inibir ninguém de dar a sua opinião, também é certo que existe algo que se chama “noção”. E é essa mesma falta de noção e de conhecimento de todos os morosos processos que fazem parte de um estudo desde a sua análise e tratamento de dados até à publicação final do artigo, que leva certamente a que existam muitas opiniões e comentários cheios de soberba por parte de pessoas inexistentes no mundo da investigação.

Por outro lado, a facção mais “tradicional/conservadora/antipaleo” regozijou-se porque “já andávamos a dizer isto há muito tempo”!

Onde está a verdade afinal? Por norma costuma estar sempre a meio de opiniões extremadas e neste caso não foge à regra. Quem tem noções básicas de fisiologia e metabolismo e percebe o papel que os hidratos de carbono têm no nosso organismo, sabe perfeitamente que este é o macronutriente cuja abordagem nutricional deverá ser mais variável. E porquê? Porque o seu papel é fundamentalmente energético e como tal é totalmente diferente falar de 50% da dieta com hidratos de carbono para o secretário obeso e sedentário ou para o profissional do exercício que dá três a quatro aulas por dia e no meio ainda consegue fazer o seu próprio treino. O principal problema que a interpretação dos resultados deste estudo pode causar é a ideia de que “a quantidade óptima de hidratos de carbono é 50% e ponto final”. E a este nível é importante referir um detalhe relevante nestes dados que passa pela maior ingestão de gordura e proteína animal e menor ingestão de fibra nos grupos com menor ingestão de hidratos de carbono, além de também terem uma maior percentagem de fumadores. Tudo isto é fundamental ter em conta para não se voltarem aos não muito saudosos tempos da dieta padrão da “bolacha Maria” e dos “50-30-20” (% de calorias de hidratos de carbono, gordura e proteína respectivamente).

Quem acompanha esta rubrica leva com a conversa do papel fundamental da proteína para a nossa saúde em quase todos os artigos. Fazendo um exemplo prático, se num qualquer plano alimentar for colocada uma quantidade moderada de proteína de 2g/kg, para alguém com 80kg, estamos a falar de 160g de proteína que equivalem a 640 kcal. Se num plano de 1800kcal (assumindo que a pessoa emagrecerá com este aporte calórico) acrescentarmos 50% de hidratos de carbono (900 kcal), ficamos com 260 kcal restantes, que equivalem a 29 gramas de gordura, algo que tornará o plano pouco “comestível”. Por isso, se estes famosos 50% de hidratos de carbono forem sempre assumidos como ponto de partida para um plano alimentar, existem dois potenciais problemas: ou a pessoa corre o risco de perder massa muscular porque não há espaço para a proteína necessária, ou não consegue cumprir o plano porque sem o mínimo de gordura na confecção de alimentos a sua palatibilidade fica severamente comprometida. De igual modo, se tivermos à nossa frente um atleta na véspera de um jogo ou prova longa, 50% de hidratos é um valor bastante baixo, daí que respeitar sempre o princípio da individualidade é algo fundamental.

Assim, sempre que saem estes artigos, percebe-se que a falta de literacia científica dos media os faça embarcar em alguma histeria na divulgação e extrapolação dos seus resultados. Aos profissionais de saúde já não é permitido isso. É necessário ler de facto os artigos antes de os partilhar nas redes sociais e saber colocar os resultados de cada estudo ao serviço da sua prática clínica. E já agora, deixar o seu ego e as suas crenças individuais à porta do consultório e do Facebook/Instagram também ajuda…