EUA

As “bruxas” do procurador Mueller já espreitam para dentro da Sala Oval

O antigo advogado de Trump e um ex-director da sua campanha enfrentam penas de prisão pesadas e podem vir a colaborar nas investigações sobre a Rússia. O Presidente continua a dizer que está a ser vítima de uma "caça às bruxas".
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Trump nega as acusações do seu antigo advogado Reuters/LEAH MILLIS

No mundo que existia antes das eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos, uma terça-feira como a desta semana seria um dia de alarme e gritaria na Casa Branca: quase à mesma hora, em dois casos distintos, o Presidente norte-americano foi acusado pelo seu antigo advogado de cometer crimes federais e viu um dos seus directores de campanha eleitoral ser considerado culpado de oito crimes de fraude bancária e evasão fiscal.

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"Num mundo normal, não são boas notícias. No actual ambiente, provavelmente só vai criar mais polarização e tribalismo político", disse ao New York Times Chris Wilson, um dos responsáveis pela campanha eleitoral de outro candidato do Partido Republicano em 2016, Ted Cruz. Por outras palavras, se a terça-feira desta semana fosse uma outra terça-feira qualquer, há mais de dois anos, muitos apoiantes do Presidente estariam a coçar a cabeça de preocupação.

Mas os tempos são outros. Na terça-feira, enquanto as televisões dos EUA abriam os noticiários com os espantosos desenvolvimentos, o Presidente era recebido num comício em Charleston, na Virgínia Ocidental, com os já famosos gritos de "Lock her up!" ("Prenda-na") contra Hillary Clinton. Lá em cima, no púlpito, o Presidente falava da investigação sobre a Rússia também de uma forma familiar: "Total witch hunt!" ("Uma completa caça às bruxas").

Ainda assim, a importância dos acontecimentos desta semana e as possíveis consequências para o Presidente são evidentes – pelo menos no tal "mundo normal" de que Chris Wilson fala.

Advogado cede

Num tribunal em Manhattan, na terça-feira, o antigo advogado de Trump deu-se como culpado de oito acusações. Cinco delas dizem respeito à sua vida de cidadão e advogado habituado a engendrar esquemas, como fugir aos impostos no seu negócio de táxis em Manhattan e mentir aos bancos para obter empréstimos pessoais.

Mas em duas dessas acusações, Michael Cohen arrastou Trump consigo. Em tribunal, sob juramento, disse que o então candidato às presidenciais o instruiu a comprar o silêncio de duas mulheres que dizem ter mantido relações íntimas com o actual Presidente no passado.

É nesta altura que muitas pessoas poderão perguntar o que é que as relações íntimas de Trump têm que ver com a campanha para a Casa Branca. E a resposta é que o problema não está nas relações, mas sim na acusação de que o candidato presidencial pagou para mantê-las em segredo: ao comprarem o silêncio sobre factos considerados negativos para a imagem de um candidato, Cohen e Trump estavam a influenciar o resultado da eleição, e isso é proibido segundo as leis norte-americanas.

O problema está também na forma escolhida por Cohen (que diz ter sido instruído por Trump) para fazer esses pagamentos. Num dos casos, o advogado pediu um empréstimo de 130 mil dólares e acabou por ser acusado de exceder em muito o limite das contribuições individuais; no outro, o pagamento envolveu o jornal National Enquirer, um tablóide que apoiou Trump na campanha – com esse pagamento, mediado por Cohen, houve também uma contribuição excessiva por parte de uma empresa.

Manafort pressionado

À mesma hora em que Cohen dizia que o Presidente em exercício dos EUA cometeu crimes federais quando era candidato à Casa Branca, um outro julgamento tinha também um desenvolvimento negativo para Trump. Paul Manafort, director de campanha do candidato do Partido Republicano no Verão de 2016, foi considerado culpado de oito crimes. Neste caso, as acusações dizem apenas respeito à vida pessoal de Manafort, numa fase anterior à campanha – à semelhança de Cohen, o antigo director de campanha também passou anos a enganar os bancos sobre as suas finanças quando pedia empréstimos milionários e a engendrar esquemas com paraísos fiscais para escapar aos impostos.

Na noite de terça-feira, pouco depois de terem sido conhecidos os desenvolvimentos dos dois julgamentos, o Presidente Trump manteve-se mais calado do que é habitual – elogiou Manafort ao mesmo tempo que se distanciou do julgamento dele, e sobre Cohen não disse uma palavra no comício que fez em Charleston. Na manhã de quarta-feira, reagiu no Twitter.

"Se alguém estiver à procura de um bom advogado, sugiro que não contratem os serviços de Michael Cohen!", disse Trump. Sobre Manafort, a mensagem foi mais séria: "Sinto-me muito mal pelo Paul Manafort e pela sua maravilhosa família. A 'Justiça' pegou num caso de impostos com 12 anos, entre outras coisas, pressionou-o muito e, ao contrário do Michael Cohen, ele recusou-se a ceder – a inventar histórias para garantir um acordo. Tenho muito respeito pela sua coragem!"

Como tem sido habitual, a defesa pública de Trump assenta em chamar "caça às bruxas" à investigação do procurador Mueller sobre o papel da Rússia na campanha eleitoral e dizer que Cohen está a mentir. E salientar que os crimes de Manafort nada têm que ver com as suspeitas de conluio com a Rússia.

Processos ligados

Mas os julgamentos de Cohen e de Manafort estão ligados às investigações de Mueller. Apesar de não estarem directamente relacionados com as suspeitas de conluio com a Rússia ou de obstrução da Justiça, as suspeitas sobre os dois dificilmente teriam chegado a tribunal se a investigação sobre a Rússia não existisse.

Ao escrutinar o passado das pessoas envolvidas na campanha de Trump, o procurador Mueller foi usando crimes não relacionados para levar algumas dessas pessoas a colaborarem com a investigação sobre a Rússia – levando-as a aceitarem um acordo que lhes permite ver a sentença reduzida, como é o caso de Cohen; ou fazendo delas colaboradoras activas em troca de esperadas reduções de penas, como é o caso de Rick Gates, o antigo braço-direito de Manafort que é agora o seu principal acusador.

O presidente Trump pode continuar a dizer que os acontecimentos de terça-feira não mudam nada e que resultam de uma “caça às bruxas”, mas a partir de agora será mais difícil convencer os eleitores de que se trata de “caça às bruxas”, já que envolve cada vez mais pessoas — agora também procuradores, juízes e jurados em mais do que um estado, e não apenas os media e apoiantes de Barack Obama e Hillary Clinton.

Mais do que as decisões de terça-feira nos tribunais, a Casa Branca deve preocupar-se com os próximos passos do procurador especial. Foi por causa da sua investigação que Cohen e Manafort chegaram aos tribunais e arriscam pesadas penas de prisão. Para que isso não aconteça, tanto um como outro têm apenas uma saída: colaborar com Mueller em troca de reduções de pena, dando ao procurador especial informações muito prejudiciais para Donald Trump.

À partida, nada que resulte dos julgamentos de Cohen e Manafort poderá levar Trump, como Presidente em exercício, a responder em tribunal – apesar de a Constituição não excluir esse cenário, há décadas que o Departamento de Justiça tem como política não acusar Presidentes em exercício.

Mas há um outro cenário – um processo de impeachment – que é político e que não depende de acusações em tribunais, sendo tratado na Câmara dos Representantes e no Senado. É também um cenário ainda distante, mas que pode tornar-se real se o Partido Democrata reconquistar a maioria na Câmara dos Representantes nas eleições de Novembro – e se, até lá, Michael Cohen e Paul Manafort contarem a Robert Mueller coisas muito mais graves do que pagamentos a antigas amantes de Donald Trump.