O rapper é o cérebro de um álbum de arranjos minuciosos e sublimes DR

Aprender a nadar com um falso disco de Verão

Depois de The Divine Femine, apaixonante e apaixonado disco de 2016, Mac Miller está a nadar com os tubarões. E se isso pode soar perigoso, o certo é que daí resultou um fabuloso, comovente e elegantíssimo disco de um miúdo que largou as bóias e compreendeu que a vida é mais ou menos como a água, ora cristalina, ora turva. Nade-se, que a maré se vai levantar.

No videoclip de Stay – decepcionante e nada imaginativo, assente que está numa montagem feita a partir de rígidas planos captados através de um drone –, uma das mais belas canções de um dos mais belos discos de 2016, The Divine Femine, o americano Mac Miller surgia, de pé, rodeado de água por todo o lado, em modo enérgico, vivaço, sorridente. Enfim, feliz. A água não incomodava, dava-lhe pelos pés.

Eram tempos cor-de-rosa, esses em que namorava a cantora Ariana Grande (pop star que, dona de um vozeirão clássico, não sabe, infelizmente, o que fazer com ele, perdendo-se em baladas chiclete) e lhe dedicava o disco, o tal em que a “divinizava” (ou em que divinizava, talvez, a ideia de amor em si). Nada ridícula carta de amor em que a própria Ariana ajudava à missa (“matrimonial”, então), ora integrando os coros, ora cantando mesmo em nome próprio em My Favourite Part, de uma cumplicidade irresistível: “You just don’t know how beautiful you are / And baby that’s my favourite part”, verso perfeitamente idealista, próprio de quem observa a(o) amada(o) de longe e só lhe conta as coisas pela metade, guardando o resto para si (amar alguém pode também significar amar as ideias e as imagens que se constroem sobre ela). Mas havia também o vídeo de uma actuação ao vivo, os dois perfeitamente enfeitiçados olhando-se em palco, a certa altura desfazendo-se mesmo numa gargalhada, o profissionalismo traído pelo coração.

Entretanto, Miller viu o nível das águas subir rapidamente, já não lhe dão pelos pés, e Ariana já não lhe dá a mão – não obstante ter afirmado que continua a gostar e a admirar Miller do fundo do coração, reconheceu publicamente que a relação era “tóxica”: “Não sou babysitter nem mãe, e nenhuma mulher tem de sentir que o deve ser. Tratei dele e tentei que se mantivesse sóbrio e equilibrado durante estes anos” (coisa que Miller desprendidamente confirmou em entrevista recente à Rolling Stone quando questionado se se encontrava numa nova relação: “Nem pensar! Estou a descansar. Eu mal consigo tomar conta do meu cão”). 

Ou, então, numa versão mais ancestral, Ariana como a Ariadne que, salvando Teseu do minotauro, é depois por ele decepcionada… Como se vê, a água agora é muita, Miller perdeu o pé, a certa altura viu-se mesmo submerso, teve de espernear, sobreviver, nadar. Swimming.

A água, aqui, já se intuiu, é metáfora infinita, banha todo o disco: ela é, desde logo, elemento fundamental sem o qual (nós, Miller) não sobrevivemos; há-a doce e salgada; no cinema americano, e para nos cingirmos àquele que é mais contemporâneo de Miller (ele que tem um álbum intitulado Watching Movies With The Sound Off), a água é tão lúdica como dada à solidão (a de pai e filha no Somewhere - Algures de Sofia Coppola) e à introspecção (o mergulho de Shailene Woodley n'Os Descendentes de Alexander Payne); o “amor líquido” de Bauman, conceito que assenta que nem uma luva à geração de Miller e Ariana...

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Mac Miller rodeou-se da nata da música negra norte-americana da actualidade para fazer o novo álbum DR

SWIMMING demonstra, por outro lado, como o amor pode funcionar em sentidos muito diversos no que à famigerada “inspiração” diz respeito: tanto para a criação de odes apaixonadas, encantatórias, como para sofridas elegias, sim. Mas ainda, como neste caso, para meditações que, se iniciadas sob o signo da ferida, a ultrapassam largamente, permitindo ao seu autor olhar para dentro, respirar, fazer uma avaliação que, antes de tudo, é sobre si e independente, por exemplo, de uma relação amorosa.

Maré alta, maré baixa

Come back to earth: assim se inicia um dos mais esplendorosos discos da música norte-americana dos últimos anos, com lata, inclusivamente, para superar o quão refinado The Divine Feminine já era, trabalho que selou o definitivo descolar de Miller em relação ao hip-hop adolescente, convencional e sample-based dos seus trabalhos anteriores. “Há pessoas que acham que a minha música antiga era melhor, pessoas que acham que eu só devia rappar e não cantar e outras que acham que eu devia apenas cantar. É confuso”, confessou ele na mesma entrevista à Rolling Stone.

Talqualmente Congratulations, que iniciava o disco anterior, Come back to earth dispensa percussões e vai-se propagando graciosamente com a voz cantada de Miller em primeiro plano, aqui numa orquestração ainda mais complexa (ao wurlitzer e ao violino, juntam-se o baixo e os sintetizadores). Do divino, Miller volta, então, ao terreno, do céu para a terra. É preciso cravar os dois pés, é nela – terra, realidade, o que lhe quisermos chamar – que se encontra a saída (“I just need a way out of my head / I'll do anything for a way out”) para um tipo que, nascido em berço criativo (pai arquitecto e mãe fotógrafa) em Pittsburgh, Pensilvânia, passou por uma juventude problemática cujas “distracções” (drogas, problemas mentais, enfim, uma certa vida de low-life) nunca foram suficientes, felizmente, para abafar o seu virtuosismo.

Essa primeiríssima canção, de inaudita fineza, dá, outrossim, o mote para o restante disco, iluminando-lhe o título: “In my own way, this feel like living / Some alternate reality / And I was drowning, but now I'm swimming / Through stressful waters to relief”. É só a primeira das muitas referências à água, a qual, juntamente com outros elementos (vento, calor, frio, chuvas, sol), se não faz certamente do disco um objecto místico, confere-lhe, porém, uma inegável dimensão sensorial, com a luz, a cor e a temperatura a variarem ao longo das 13 canções.

Objecto chiaroscuro, então, ou, se quisermos, um falso disco de Verão, tão faux como o famoso “quadro de Verão” de David Hockney, A Bigger Splash, tão pop quanto perturbador. Harmonicamente colorido, luminoso, inclusivamente com referências a mares e piscinas supostamente distractivos, mas de letras e inflexões invernosas, que cantam a dor de um amor rompido, de corpos que não mais se tocam, olhares e sorrisos – como os da tal actuação ao vivo – que se deixam de cruzar (“Turn the ignition, I'm driven and sittin' pretty / Listenin' to Whitney and whippin' it through the city”, referência, em Hurt Feelings, a uma sempre-dilacerada Whitney Houston que não se podia ajustar melhor ao estado de espírito de Miller).

Mas não apenas isso: numa outra generosa dose, também a aprendizagem de como lidar com a depressão e a ansiedade (“I'm just tryna start believin' in God / Now when it gets hard I don't panic, I don't sound the alarm / Because I don't need to lie no more / Nowadays all I do is shine, take a breath and ease my mind”, em 2009), a solidão (“My regrets look just like texts I shouldn't send / And I got neighbors, they're more like strangers / We could be friends, voltando a Come back to earth), as dependências e o ruído mediático à sua volta (que o levou, aquando do rompimento com Grande, a eclipsar-se das plataformas online).

“Se um monte de gente acha que sou um junkie, que posso eu fazer? Ir falar com todas essas pessoas e dizer-lhes ‘Não, pá, as coisas não são assim tão simples’? Se consumi drogas? Sim. Se sou um junkie? Não”, afirmou à Rolling Stone. Embora Miller saiba sempre manter o humor, a coolness, enfim, um gracioso desprendimento nas letras das canções, como quando trauteia, em Perfecto, “I swear that if I drown I don't care / They callin' for me from the shore, I need more” (ou, numa negra linha de Small Worlds, “Don't wanna grow old / So I smoke just in case”).

“Eu posso encontrar qualquer teoria que quiser sobre mim na net. Antes, costumava olhar para o Twitter e para o Instagram e ficar com o meu ego destruído em 5 minutos todas as manhãs. Era demais. Se eu já tenho os meus próprios pensamentos e emoções sobre o que passei, por que raio haveria de guardar espaço para os dos outros?!”, disse, recentemente, a Zane Lowe no programa de rádio Beats 1.

SWIMMING significa isso mesmo: nadar, ou melhor, “nadando”, forma gerundial que expressa a perseverança implícita nessa ideia de uma forçosa perpetuidade. O quinto LP do americano não é, por isso, como tantas vezes acontece, o típico disco de “superação”, de bonança depois da tempestade. Wings, com um lindíssimo refrão, é o que mais próximo disso estaremos: “I'd put some money on forever, but I / Don't like to gamble on the weather, so I just watch / Well, the sun is shinin', I can look at the horizon / The walls keep gettin' wider, I just hope I never find 'em”.

Por outro lado, não corresponde também ao não menos clássico disco de “dor de corno”, de quem está em pleno processo de dor e (eventual) cura. É, antes, e maduramente, uma reflexão descomprometida com metas, e, mais importante, a aceitação de que o corpo não está – nunca estará – completamente à tona (nadar é, por definição, ter a cabeça dentro e fora de água). Eppur si muove. Ainda assim, vamos nadando (temos que), acelerando quando é o caso, afundando-nos umas vezes, boiando relaxadamente noutras, esbracejando frequentemente. “Putting way too much on my shoulders, please hold me down / I keep my head above the water”, afirma em Hurt Feelings, por contraposição ao que lhe ouvimos, em modo cowboy triste, em Jet Fuel, “Now my head underwater / but I ain’t in the shower and I ain’t getting baptised".

Nadar, em qualquer caso, não contra a corrente, mas com a corrente, eventualmente encontrando outras pelo caminho, até porque a maré, por um conjunto de insondáveis factores que não dominamos, não vai estar sempre cheia. Sintomaticamente, no videoclip de Self Care (que explicitamente cita a famosíssima cena de Uma Thurman no Kill Bill de Tarantino), um dos singles pré-anunciados, Miller, conseguindo finalmente sair de um caixão sob sete palmos de terra (“I should've died already”, dizia ele, já em 2014, em Inside Outside, primeira faixa da mixtape Faces), não fica, enfim, “em paz”.

Pelo contrário. Quando ainda se está a sacudir da terra, momento em que se dá uma mudança de direcção na canção, uma violenta explosão (terá Christian Weber visto a última sequência de Antonioni em Zabriskie Point?), depois de o atirar em queda livre, mal o deixa em pé, rodeado de chamas. Isso: fogo e água, caminhar e nadar, continuar, pois que o tempo não estica. É para isso que aponta o memento mori (expressão latina para a consciência da morte, da nossa finitude) que Miller inscreve com a navalha na zona do caixão que, uma vez quebrada, lhe permitirá regressar ao mundo dos vivos (a solenidade da cena que a descrição pode insinuar é atenuada pela ironia suicida de, enfiado num caixão onde o oxigénio rareia, Miller ainda se dar ao luxo de acender um cigarro). Esse mundo a que pertencem os seus ouvintes, com quem, afirmou no Beats 1, mantém uma relação genuinamente bonita. “São pessoas que estão comigo desde que eu era apenas um miúdo ingénuo de 19 anos e passei a ser um junkie deprimido e auto-destrutivo, até chegar aqui, em que estou a fazer a música que estou a fazer”.

Discos negros, miúdo branco 

Se juntarmos The Divine Femine a SWIMMING teremos talvez dois dos mais “negros” discos dos últimos anos concebidos por um miúdo de 26 anos, branco, que nem nascido era quando George Clinton e Bootsy Collins partilhavam o mesmo palco, Prince editava Sign O' The Times (1987) ou Michael Jackson apontava ao trono com os seus três discos-charneira (Off The Wall, Thriller, Bad). Pressentimos o génio de Minneapolis e o menino-prodígio da Motown – assim como o património que os antecede (Kool & The Gang, Earth Wind & Fire) – em What’s the Use (que faz as vezes de irresistível malha disco-funk que Dang! já representava em The Divine Femine) ou Ladders (aquele riff de guitarra, muito Isley Brothers, que antecede o hook, ao que se segue a desbragada felicidade personalizada na tríade “soprante” composta por sax, trompete e trombone).

Gente contemporânea como os Gorillaz ou os Daft Punk, Toro y Moi e Ariel Pink  ecoam igualmente em SWIMMING, sofisticadíssima peça tão melancólica quanto dançante de soul, funk, R&B, pop ou hip-hop – mas, note-se, também de algum indie rock e psicadelismo (Mac DeMarco ou até Beck vêm à memória), como as cordas e as baterias de Wings ou So It Goes o sugerem. Tudo isso vai ressoando por aqui e acolá, mas Miller bem pode puxar à vontade dos seus próprios galões: multi-instrumentista (baterias, teclas, guitarra), rapper, cantor, compositor e produtor, é ele o cérebro, o maestro de um álbum de minuciosos, sublimes, arranjos (para o que muito contribui, claro, Jon Brion, colaborador habitual de Fiona Apple ou Rufus Wainwright, mas também, no cinema, de Paul Thomas Anderson), e de uma não menos majestosa orquestração.

Repare-se no modo como Small Worlds termina apenas ao piano, da mesma forma que o violino fecha, sozinho, Dunno (instrumental onde, por mais estranho que isto soe, conseguimos imaginar a voz de B Fachada com à-vontade); em 2009, atente-se na melodia primordial do vibrafone entrecruzada, de fininho, pelo fogacho de órgão e o hi-hat, em cima dos quais Miller parece, sem nunca soar piegas, estar prestes a soçobrar. Ou, enfim, deixemo-nos estarrecer com os sintetizadores que acompanham os versos muito sonhadores, favorecidos pelo uso do vocoder, no final de Jet Fluel (“Fate in your hands / While you're waitin' for me / I'm already there / Already, dear / Now is only now / Head back to the ground, dear”).

Como já se percebeu, trata-se de um álbum para cuja escuta umas colunas de som dignas e o ouvido atento são condição absoluta, e onde à ausência de convidados se contrapõe uma riquíssima equipa de colaboradores nos bastidores: Dâm-Funk, Syd e Steve Lacy (ambos dos The Internet), Thundercat (“Sinto que ele tem sempre uma visão própria, é um monstro na sua arte”, disse o baixista sobre Miller, com quem vai entrar em digressão em Outubro, à Rolling Stone), Snoop Dogg, Flying Lotus, J. Cole, Pharrell Williams. A nata da música negra americana actual.

Quem ouvir o trecho introdutório de 2009 poderá até questionar-se se se trata de música clássica. Obviamente que não é música clássica, mas a alusão deixa transparecer a delicadeza, a filigrana da composição, assim como as emoções que o disco produz no ouvinte do primeiro ao último minuto. O último minuto, portanto, de So It Goes, na qual, após a voz de Miller se arrastar meigamente pela atmosfera lo-fi, caseira, da canção (“Everybody gather round / I'm still standing, sit down”, convida-nos ele, já depois de termos ouvido os latidos do fiel companheiro lá de casa), fechamos os olhos para aquele maravilhoso final de sintetizadores oníricos a ecoarem no êxtase total.

Sonicamente coerentíssimo, coesíssimo, SWIMMING revela-se no momento em que encontramos a caneta de Miller no seu pico de inspiração, sem que a melancolia e a poesia despretensiosa de grande parte do texto obliterem por completo as tiradas mais corriqueiras que lhe são características, próprias da idade, e que tão bem lhe ficam pelo que de honesto respiram. Uma equação que joga com a própria indumentária que Miller apresenta na capa do disco: de gravata e fato rosa de excelente corte, mas sentado no chão, cabisbaixo, de pés descalços, wasted (mas, lá está, sentado, já não deitado, derrotado). Atrás de si, uma porta. Será a porta a que se refere em 2009 (“It ain't 2009 no more / Yeah, I know what's behind that door”)? E, se for, o azul que entrevemos na minúscula janela será água ou céu?

Há essa tendência (já quase uma convenção), quando se escreve sobre música, para sublinhar a excelência dos discos “imperfeitos”, como se os seus cantos menos polidos, as suas fragilidades, sublinhassem uma superlativa beleza (o "erro” como característica artística superior), por contraposição à ideia de perfeição como algo "excessivo" (excessivamente certo, arrumado, calculado). Pois bem, SWIMMING não é arrumado e de calculado nada tem, mas é perfeito. Não sabemos se é “o melhor disco do ano” (é o que menos importa, na verdade), mas apenas que, enquanto falso disco de Verão para ouvir em qualquer estação do ano, ele é isso mesmo: um disco perfeito.