Espanha

Casado ganha PP e promete uma ainda ambígua viragem à direita

A vontade de mudança da equipa dirigente determinou o resultado. O “regresso às origens” e à “família” vale o que vale. O partido quer voltar a ganhar eleições e a Espanha de hoje já não é a de 1990.
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Pablo Casado, já a festejar a vitória JAVIER BARBANCHO/Reuters

Pablo Casado foi eleito presidente do Partido Popular (PP), derrotando Soraya Sáenz de Santamaría no congresso que encerrou o processo das primárias. Sucede assim a Mariano Rajoy, líder desde 2004. Casado, 37 anos, obteve 1701 votos (57%) contra 1250 da antiga vice-presidente do Governo. “O PP voltou”, proclamou o vencedor, marcando uma viragem à direita e um regresso às origens do partido. Convidou Santamaría a fazer parte da nova direcção do PP.

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Casado apresentou-se como o “renovador” do partido, afastado do poder a 1 de Junho, após a aprovação de uma moção de censura proposta por Pedro Sánchez, líder do PSOE. Minutos antes de ser eleito, Casado anunciou que as suas primeiras medidas como líder do PP serão lançar as candidaturas municipais e autonómicas para as eleições de 2019 e organizar uma “convenção nacional” para debater ideias e princípios.

A viragem à direita é ainda difícil de avaliar. O PP precisa de recuperar votos ao centro e não apenas à direita. Na ausência de um verdadeiro debate, os delegados optaram pelo regresso a uma identidade de “partido liberal, católico e patriótico”, sem que tal se traduza ainda num programa.

A linha “centrista” de Rajoy e Santamaría, acusada de “ambiguidade ideológica e de tecnocracia, terá sido menos mobilizadora. Mas, a crer nas primeiras reacções, terá sido a vontade de mudança de equipa dirigente o que mais determinou o desfecho.

Ao fim de sete anos de poder, o PP vê-se ameaçado em várias frentes. Desgastado pelos escândalos de corrupção, não cessa de cair nas sondagens, tendo passado de partido dominante para o lugar de terceira força, atrás do PSOE e do Cidadãos.

Ganhar o congresso, onde vota o “aparelho”, não é o mesmo que ganhar eleições e a sobrevivência do PP depende de recuperar os blocos de eleitores perdidos, em especial, para o Cidadãos, de Albert Rivera, e para a abstenção. É também um partido envelhecido que perdeu os jovens.

Ainda a propósito da “viragem à direita” convém lembrar que se Casado foi um vencedor categórico, as sondagens indicavam que Santamaría era a preferida por 60% dos eleitores do PP.

O factor Aznar

Os “populares” estavam habituados a uma direcção vertical, em que o líder designava o sucessor. Rajoy recusou fazê-lo. Mas o partido apostava na emergência de uma “candidatura única” que disfarçasse as divisões. A “primeira volta”, do voto directo de militantes, foi dominada pela rivalidade entre as duas principais colaboradoras de Rajoy, Santamaría e Dolores Cospedal, secretária-geral do partido. A primeira venceu tangencialmente Casado e eliminou Cospedal. A “luta fratricida” acabou por beneficiar o outsider Casado, “vencedor acidental”.

Na segunda fase, a do congresso, houve um esboço de polarização em torno de José Maria Aznar e de Mariano Rajoy — “aznaristas” e “marianistas”. Resta saber o seu alcance.

A primeira jornada do congresso, na sexta-feira, foi a apoteose de Rajoy, qualificado como “o melhor presidente de sempre do PP”, enquanto as figuras cimeiras do partido ignoravam a herança de Aznar.

No segundo dia, Casado reivindicou a herança dos dois antecessores, com ênfase para Aznar.

Também nesta querela há uma forte dimensão pessoal. Rajoy foi nomeado herdeiro por Aznar e, depois, teve de batalhar para se livrar das suas intromissões. “Rajoy quer preservar o seu legado político e evitar que Aznar retome, nem que seja indirectamente, o controlo do partido”, resume Enric Juliana no La Vanguardia. O escritor Teodoro León Gross falou, no El País, do “último duelo do passado”.

A questão que se põe é a do grau de autonomia que Casado terá em relação a Aznar. Se Rajoy passou a ser passado, Aznar é o passado do passado.

A clarificação será feita nos próximos meses. Na véspera do congresso, o politólogo Pablo Simón apontou os desafios imediatos do novo líder. “Ter a habilidade suficiente para sarar as feridas deixadas por este processo; definir uma estratégia que lhe faça recuperar espaço político, especialmente em relação ao Cidadãos, onde estão as principais fugas; por último, oferecer um projecto político autónomo, num contexto em que o bipartidismo desapareceu e, pelo menos a médio prazo, não voltará.”

Isto equivale a dizer que a velha máxima do PP — “são nossos todos os eleitores que estão à direita do PSOE”, deixou de funcionar. Vimos o congresso, falta assistir às próximas campanhas eleitorais.