Opinião

López Obrador e as feridas do México

Quase 90 milhões de mexicanos votam amanhã nas mais apaixonantes eleições de que têm memória. Andrés Manuel López Obrador (na foto), conhecido por AMLO, um político que perdeu as duas anteriores presidenciais, é considerado o vencedor antecipado. Surge como um “redentor” que desencadeou um irresistível sentimento de esperança numa sociedade saturada de violência, corrupção e impunidade. As sondagens dão-lhe mais de vinte pontos de vantagem sobre os concorrentes — a apresentação das eleições será feita amanhã noutros textos.

O dia 1 de Julho marca também o final da mais sangrenta campanha eleitoral da História do México: 46 candidatos assassinados — entre milhares de concorrentes às eleições, das federais às municipais. O México tem um longo historial de violência. “O México cheira a sangue” desde a guerra da independência (200 mil mortos), escreveu o historiador Enrique Krauze. Veio depois a Revolução (de 1909 ao fim dos anos 1920), com um milhão de mortos, na maioria de fome e doença. Seguiu-se a era do narcotráfico.

A “militarização” do combate ao tráfico imposta pelo Presidente Felipe Calderón (2006-2012) foi um erro histórico. Afirma Krauze: “Hoje é uma complexa guerra civil, com fogos cruzados e instáveis entre os grupos do crime organizado e do narcotráfico e entre estes e as forças do Governo federal e dos estados.” Enfim: “O que mais surpreende é a omnipresença [da violência] e a crueldade (...). Execuções, decapitações, mutilações, sequestros, extorsões, massacres.” A violência dos sicários e da polícia não poupa a população civil. O Estado foi infiltrado e contaminado.

País de contrastes

Outra ferida é a corrupção. “A corrupção democratizou-se.” Atravessa a sociedade de alto a baixo. A impunidade é a regra mas a percepção da corrupção política é hoje muito forte graças à maior liberdade de imprensa. Por isso foi um tema dominante na campanha eleitoral. A corrupção afecta a reputação internacional do México.

O segundo maior país da América Latina — e membro do G20 — enfrenta inúmeros desafios, desde a sua geografia e a crónica divergência entre Norte e Sul, à pobreza, que atinge 40% da população. O antigo modelo económico da substituição das importações, salários baixos e investimento público esgotou-se no fim do século passado. As reformas liberais, que vêm de há três décadas, trouxeram crescimento económico mas reforçaram a contenção salarial para manter a competitividade da indústria assente na montagem. Dispararam as desigualdades sociais. Como fortalecer o mercado interno? Como corrigir as desigualdades? O México tem um ineficaz sistema fiscal que não corrige a desigualdade. E os pequenos empresários têm boas razões para permanecer na economia informal, que gera empregos de baixa produtividade, mas que lhes evita a “extorsão” por parte dos gangs e das autoridades. Falta o “pormenor” da renegociação do Tratado de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA) Donald Trump. Sobre tudo isto, os candidatos presidenciais disseram generalidades. O México é um país de “contrastes e grandes oportunidades”, com uma sociedade cronicamente frustrada pela distância entre o “possível” e o “real”.

Longe de Chávez e perto do PRI

Os rivais de AMLO são Ricardo Anaya, candidato do Partido de Renovação Nacional (PAN, conservador) e do Partido da Revolução Democrática (PRD, esquerda), e José António Meade, candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI, que governou o México até 2000). López Obrador rompeu com o PRD, de que foi presidente, para formar o Movimento Regeneração Nacional (Morena). Apresenta-se como de esquerda e “radical” mas entre os seus aliados está um partido evangelista, Encontro Social, marcadamente reaccionário.

Para entender o presente, é necessário voltar ao passado. O PRI, fundado em 1929, dominou a vida política mexicana durante sete décadas. Encerrou o ciclo revolucionário. Marcadamente nacionalista, nacionalizou o petróleo, fez a reforma agrária, fomentou uma economia proteccionista e criou o primeiro sistema de segurança social.

Criou uma cultura política. A chave do poder está no Presidente e o partido é o instrumento eleitoral do Governo. Há uma clara recusa do caudilhismo. Os presidentes só podem exercer um mandato de seis anos, mas cada um designa o sucessor, garantindo a estabilidade do sistema.

 Em 1990, quando o PRI discutia uma abertura política, Mario Vargas Llosa qualificou o sistema político mexicano como a “ditadura perfeita” porque “camuflada” e “inamovível”. Respondeu-lhe o poeta e diplomata Octavio Paz: “O México não é uma ditadura, é um sistema hegemónico de domínio de um partido”, que fez “muitas coisas boas”. O PRI perdeu as presidenciais de 2000 para o conservador Vicente Fox.

AMLO apresenta-se como político de esquerda e marcadamente nacionalista. De início, os adversários compararam-no a Hugo Chávez. Era um equívoco. AMLO tem um grande trunfo, a gestão modelar e austera do Distrito Federal (Cidade do México) em 2000-2006. O segredo da sua campanha é a ligação com as classes populares e parte da elite, sobretudo entre os jovens. Foi o único a preocupar-se com a pobreza e a desigualdade, a defender a austeridade no Estado e um combate drástico à corrupção. Maneja bem o estilo populista. E não esconde o pragmatismo. Declarou ao The New Yorker: “Penso sempre da mesma maneira, mas actuo de acordo com as circunstâncias.”

A crítica mais pertinente parece outra: a de um regresso às origens e uma restauração do “priísmo” sem PRI. “A cultura política mexicana tem as suas origens no PRI e no nacionalismo revolucionário”, diz o antropólogo Roger Bartra, uma figura histórica da esquerda. “Mais do que uma ideologia é um conjunto de hábitos e poderes que se cristalizam em torno de um líder que assume a representação de todo o povo.” De acordo com o politólogo Luis Rubio, esta cultura “poderá permanecer impressa no código genético dos mexicanos”.

AMLO, que se formou politicamente dentro do PRI, tem defendido um programa económico com analogias com o do “antigo regime”, proteccionista e de reforço da intervenção do Estado. O que Bartra teme é que busque “uma regeneração do velho autoritarismo nacionalista. Está escrito no próprio nome do seu partido”. La Morena é o nome popular da Virgem de Guadalupe.

Há poucas dúvidas sobre quem vencerá as presidenciais. O que interessa saber é se AMLO conquistará também a maioria nas duas câmaras do Parlamento. É a incógnita que pode vir a ser determinante.