Teatro

Onze estreias nacionais na rentrée do Teatro Municipal do Porto

O francês Noé Soulier, a belga Anne Teresa De Keersmaeker ou a ruandesa Dorothée Munyaneza são alguns dos artistas cujas novas criações passarão a partir de Setembro pelos palcos dos teatros Rivoli e Campo Alegre.
Fotogaleria

The Waves, um espectáculo de dança para seis bailarinos e dois percussionistas do coreógrafo francês Noé Soulier, é o primeiro de onze espectáculos internacionais que terão estreia portuguesa na nova temporada do Teatro Municipal do Porto (TMP), cuja programação, anunciada esta quinta-feira pelo seu director, Tiago Guedes, e pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, arrancará a 21 de Setembro, no Rivoli, com a Companhia Nacional de Bailado a mostrar a sua faceta mais contemporânea num programa que reúne três coreografias de Tânia Carvalho, incluindo a sua mais recente criação, S.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

A primeira apresentação em Portugal da companhia de teatro ateniense Blitz Theatre Group, com uma peça talvez não excessivamente futurista sobre a desintegração da Europa, os regressos, com novas criações, de Anne Teresa De Keersmaeker e da coreógrafa ruandesa Dorothée Munyaneza, a estreia de Bisonte, o aguardado novo trabalho de Marco da Silva Ferreira após o sucesso de Brother, ou ainda a interpretação, pelo Ballet da Ópera de Lyon, de duas peças seminais da dança americana pós-moderna, Dance (1979), de Lucinda Childs, e Set and Reset / Reset – revisitação da peça Set and Reset (1983), de Trisha Brown –, são outros destaques da programação do TMP para o semestre que vai de Setembro deste ano a Fevereiro de 2019.

Sem contar ainda com muitos espectáculos que só serão anunciados no âmbito dos vários festivais que mantêm parcerias com o TMP, a programação agora anunciada inclui 63 espectáculos, num total de 120 apresentações – nos teatros Rivoli e Campo Alegre, mas também noutros locais, como o Palácio da Bolsa – e deverá custar, segundo adiantou Rui Moreira, cerca de 575 mil euros.

É a primeira vez que o TMP anuncia a programação para um semestre inteiro, opção que se prende com uma nova estratégia de comunicação, explicou Tiago Guedes, que passará também pela edição de uma agenda gráfica e editorialmente reformulada, em formato livro, que será distribuída durante a festa de lançamento da rentrée, no dia 6 de Setembro. Outra novidade é a mudança de horário dos espectáculos nos dias de semana, que são antecipados das 21h30 para as 21h00 (aos sábados, mantêm-se às 19h00).

Depois do espectáculo inaugural pela Companhia Nacional de Bailado, o programa prossegue, ainda nesses últimos dias de Setembro, com Estava em Casa à Espera que a Chuva Viesse, uma encenação de Renata Portas e da companhia Público Reservado de uma das últimas criações do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce (1957-1995), com o já referido Waves, de Noé Soulier, um coreógrafo que já estivera no Porto em 2017 para mostrar Faits et Gestes no Festival DDD – Dias da Dança, e com Jângal, do Teatro Praga, actualmente em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, uma peça onde humanos e objectos comunicam ao mesmo nível numa selva digital.  

O programa de Outubro abre com uma proposta do programa paralelo Ver em Família, Do Bosque para o Mundo, de Miguel Fragata e Inês Barahona, que conta a história de um rapaz afegão de 12 anos, Farid, cuja mãe o envia para a Europa, tentando colocá-lo em segurança. Uma peça que se apresentará já em Julho no prestigiado Festival de Avignon e que parte de uma pergunta: “Será possível explicar a crise dos refugiados às crianças?”. A estreia nacional dos gregos Blitz Theatre Group, com a farsa apocalíptica Late Night, apresentada como “uma valsa surreal sobre as ruínas da Europa”, e Romances Inciertos – Un Autre Orlando, uma produção franco-espanhola de François Chaignaud e Nino Laisné, que cruza a dança e a música barroca espanhola – e que será apresentada no Palácio da Bolsa –, são outros momentos a reter no programa de Outubro, que é também o mês do Festival Internacional de Marionetas do Porto, que decorrerá no Rivoli e no Campo Alegre na semana de 13 a 20.

A estreia nacional de A Love Supreme, incursão de Anne Teresa de Keersmaeker no universo da improvisação jazzística e da sua possível tradução na dança (o espectáculo toma o nome do célebre álbum lançado pelo saxofonista John Coltrane em 1965) abre o programa de Novembro, que inclui ainda as estreias de Boudoir, de Martim Pedroso, e de Revoluções, uma nova criação de Né Barros no momento em que se comemoram os 50 anos do Maio de 68. É também em Novembro que o Rivoli acolherá mais uma edição do festival de pensamento Fórum do Futuro, cujo tema é este ano Ágora Club e que, adiantou Rui Moreira, se propõe pensar “a inscrição da ética, da estética e da filosofia da antiguidade no panorama contemporâneo”.  

Grande, de Tsirihaka Harrivel e Vimala Pons, traz ao Rivoli, em Dezembro, um delirante espectáculo de novo circo, de temática conjugal, e a programação de 2018 termina com Finir en Beauté e C’est la Vie, um díptico sobre a morte e a perda do encenador e escritor francês Mohamed El-Khatib, e uma nova edição do ciclo Foco Famílias, com apresentações especialmente pensadas para serem fruídas em conjunto por pais e filhos.

A estreia de Bisonte (a 11 de Janeiro no Teatro do Campo Alegre), um trabalho em que Marco da Silva Ferreira, descreve Tiago Guedes, “cruza o universo híper-masculino das danças urbanas com o universo queer e feminista”, é o primeiro grande destaque da programação de 2019, a preceder os festejos, nos dias 18 e 19, do 87.º aniversário do Teatro Rivoli.

Ainda em Janeiro, o poeta e dramaturgo espanhol Pablo Fidalgo Lareo apresenta Anarquismos, centrado nas experiências de vida comunitária que ainda subsistem em Madrid, e o último mês desta temporada semestral abre logo a 1 de Fevereiro com a apresentação no Teatro do Campo Alegre de Unwanted, um espectáculo de teatro e música que procura mostrar as consequências da violação enquanto arma de guerra e que levou a coreógrafa, compositora e cantora ruandesa Dorothée Munyaneza a procurar e entrevistar várias compatriotas suas violadas durante o genocídio dos tutsi em 1994.

E a fechar esta programação, a possibilidade de ver ao vivo (a 15 e 16 de Fevereiro no Rivoli) duas célebres peças fundadoras da dança pós-moderna, numa interpretação do Ballet da Ópera de Lyon: Dance, de Lucinda Childs, co-fundadora do mítico Judson Dance Theatre, e Set and Reset / Reset, uma versão retrabalhada da coreografia original que Trisha Brown criou em 1983 com cenografia de Robert Rauschenberg e música original de Laurie Anderson.