Em Pedrógão, o turismo ainda está a recuperar

Ao incêndio seguiu-se uma onda de solidariedade que não se faz sentir em todos os negócios e que acabou por esmorecer na época baixa. Estabelecimentos turísticos ainda se ressentem.

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Adriano Miranda

Após o incêndio de Junho de 2017, multiplicaram-se os apelos de autoridades locais e nacionais para que os portugueses continuassem a visitar os concelhos afectados. Para além das perdas humanas, o fogo destruiu habitações e empresas em sete concelhos do Pinhal Interior Norte. Acabou por afectar também grande parte do que a zona Norte do distrito de Leiria tinha para oferecer como destino turístico: a sua mancha verde. Um ano depois, os apelos surtiram efeito? A resposta não é linear e, ainda que os números sobre o turismo na região estejam por conhecer, a maioria dos agentes locais relata ao PÚBLICO um ano difícil.

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Após o incêndio de Junho de 2017, multiplicaram-se os apelos de autoridades locais e nacionais para que os portugueses continuassem a visitar os concelhos afectados. Para além das perdas humanas, o fogo destruiu habitações e empresas em sete concelhos do Pinhal Interior Norte. Acabou por afectar também grande parte do que a zona Norte do distrito de Leiria tinha para oferecer como destino turístico: a sua mancha verde. Um ano depois, os apelos surtiram efeito? A resposta não é linear e, ainda que os números sobre o turismo na região estejam por conhecer, a maioria dos agentes locais relata ao PÚBLICO um ano difícil.

O dono do restaurante Varanda do Casal, Renato Antunes, conta que o estabelecimento da aldeia de xisto do Casal de S. Simão (Figueiró dos Vinhos) passou por várias fases. “Nas primeiras duas semanas a seguir ao incêndio houve uma quebra muito grande, talvez por receio das pessoas.” Depois, até ao final do Verão, registou-se um aumento considerável, à boleia “de toda aquela vaga de ajuda, de as pessoas virem visitar”. Mas fala também de “algum voyeurismo” que sucedeu ao desastre. Só depois veio a quebra.

Quebra também sentida por unidades de alojamento. No caso de José Costa, que explora o parque de campismo Eventur, em Pedrógão Grande, a perda de clientes foi repentina. Começou logo naquele sábado, 17 de Junho, com a proximidade das chamas, que embora não tenham entrado no complexo andaram lá perto. As marcas ainda são visíveis em parte das encostas que rodeiam a albufeira da barragem de Cabril, onde está instalado o campismo. Nesse dia, o parque ficou vazio. Registou também cancelamentos de reservas que tinha para os meses seguintes. “Sofremos e muito. Aquilo que era expectável que facturássemos caiu na casa de 70%”, afirma. Ao longo do restante Verão, não notou uma recuperação.

Na Praia das Rocas, em Castanheira de Pêra, a situação é diferente, explica a administradora da Prazilândia, a empresa municipal que gere o espaço, Cláudia André. Depois do dia do incêndio, a praia com ondas artificiais a 80 quilómetros do mar esteve fechada durante uma semana. Quando as portas abriram novamente, o número de visitantes voltou ao habitual, assegura. “A partir daí retomou-se a actividade normal, com muita solidariedade por parte dos portugueses, que acorreram e visitaram a praia.”

A Praia das Rocas tinha acabado de vir do seu melhor ano desde que foi inaugurada em 2005, num investimento que custou cerca de cinco milhões de euros aos cofres da autarquia. Em 2016, visitaram a piscina de grandes dimensões 120 mil pessoas. Em 2017, o número caiu para 100 mil, registo que a administradora justifica com a semana de encerramento.

As chamas de Junho não chegaram à Quinta das Mil Flores, na aldeia de Sobreiro, Pedrógão Grande, propriedade de uma condessa franco-americana. Por estes dias até é a chuva tardia que mais vai deixando a marca no roseiral do complexo ajardinado que acolhe mais de 1600 espécies de plantas. Tem espaço também para uma casa de hóspedes, cuja procura ficou bastante aquém das expectativas, conta Annabelle de la Panouse, que já investiu no espaço 600 mil euros desde que iniciou o projecto, em 2008.

O jardim com árvores, arbustos, flores e ervas aromáticas ficou intacto, mas “não há nenhuma alma que o queira visitar”, lamenta. Teve também cancelamentos de reservas agendadas para o Verão e nota agora que os pinheiros e eucaliptos que ajudaram à combustão do fogo estão a regressar à paisagem ao redor de Sobreiro. “O que significa que em dez anos vamos ter isto outra vez. Não é muito encorajador.”

Uma recuperação lenta

“Já no ano passado nos ressentimos um pouco comparativamente ao ano anterior e este ano estamos com quebras bastantes significativas”, introduz o director do Hotel da Montanha, Filipe Mariano. O responsável refere que, em termos de reservas para o mês de Julho deste ano, o estabelecimento de quatro estrelas que fica em Pedrógão Pequeno, já no concelho da Sertã, está com uma quebra de 17% em relação ao ano passado.

No mesmo mês de 2017, a descida tinha sido já de 3%. “O que num hotel com 33 quartos é significativo”, acrescenta. As quebras nas reservas têm como consequência a descida da facturação. Como forma de melhorar a taxa de ocupação, o hotel na margem do rio Zêzere está a baixar os preços.

O edifício também não foi afectado pelas chamas e Filipe Mariano afirma mesmo que o fogo de Outubro passou mais perto que o de Junho. Mas a paisagem não é a mesma. Juntando isso com uma Primavera de 2018 que tardou em fazer-se sentir, as perspectivas não são as mais favoráveis.

José Costa refere que, num parque de campismo com capacidade para 180 pessoas, a taxa de ocupação em Maio e Junho costuma andar na casa dos 30%. “Estamos praticamente a zero. Temos dois clientes.” E prossegue: “Por norma, nesta altura, havia sempre meia dúzia de estrangeiros. Nem esses.”

A quebra que o dono do restaurante Varanda do Casal notou no final da época alta do ano passado tem-se prolongado. Renato Antunes estima que ande na casa dos 20% e ensaia explicações: “Muita gente que tinha aqui casas e terrenos e vinha com frequência para cuidar deixou de ter razões para vir”; “também instituições ou empresas que faziam passeios de turismo pela natureza deixaram também de vir porque há muito terra queimada.”

Por sua vez, Cláudia André faz questão de sublinhar que os acessos à Praia das Rocas são seguros e está optimista em relação a 2018. A meta para este ano é atingir novamente 120 mil visitantes, embora a afluência este ano ainda não tenha sido significativa, muito por causa das temperaturas baixas.

Um ano depois do incêndio, a região está num impasse. Passou o período de maior mediatismo, mas “ainda não chegou a um ponto em que seja atractiva”, avalia Renato Antunes. “Estamos aqui neste limbo, em que é um bocadinho difícil puxar as pessoas.” No entanto, acredita que a situação acabará por melhorar. “Portugal encontra-se com números de turismo cada vez mais altos. As cidades a não conseguir absorver tudo e inevitavelmente vamos voltar ao normal.”