Reportagem

No Bairro da Torre, a mudança faz-se de lata de tinta e pincel na mão

Através de arte urbana, um bairro problemático de Cascais ganhou nova vida, os moradores sentem-se mais seguros e o investimento na melhoria do espaço público aumentou.

Arquitetura, casa
Foto
Ana Rita Rodrigues

Depois de três edições do Festival Muraliza e de diversas iniciativas da Associação Somos Torre que deram cor e vida a este bairro de Cascais, o Festival Infinito traz o tema "glocal" às paredes brancas e contribui com mais oito obras que aumentam a galeria ao ar livre que tem vindo a crescer nas empenas dos prédios.

Em 2016, os jovens do bairro aperceberam-se de que o vandalização das paredes era cada vez mais comum, mesmo depois de diversas intervenções da câmara municipal e da junta de freguesia que tentavam repor o branco. Através da Associação Somos Torre, jovens como José Avelino, mais conhecido por Zeca e um dos organizadores do festival, arranjaram forma de preservar as paredes através de pinturas.

“Este tipo de iniciativa tenta envolver toda a comunidade, não é só para os jovens nem só para os mais velhos. Procurámos artistas populares cuja arte se enquadra nas mensagens que queremos passar e convidámo-los a criar uma pintura para uma das muitas empenas do bairro”.

De pincel na mão e tinta de várias cores salpicada por todo o rosto e roupas, Mário Belém, um dos convidados da Associação Somos Torre está pronto para dar vida à maior empena do Festival. Conta que pintar na rua é um desafio, mas que “é importante fazer coisas com mensagens positivas, com um registo mais leve e que faça as pessoas sorrir cada vez que cá passam”.

Os moradores vêem com bons olhos a invasão das empenas ao Bairro da Torre pela arte. Para Sandra Marques, uma das habitantes, “um bom ambiente não é só aquilo que temos no interior de casa e os murais aproximam a comunidade. As pessoas tinham medo de passar por aqui a pé ou de trazer os filhos aos parques e agora fazem-no com menos receio. Há tantos prédios cá que precisam de vida, só falta a iniciativa”, remata Sandra.

Mas nem só aos moradores alegra a arte urbana. José Avelino conta que as pinturas tiveram e têm muita influência na forma como as pessoas de fora vêem o bairro. “No início do projecto sentíamo-nos um bocado fechados, toda a gente via a Torre como um bairro problemático e as primeiras iniciativas abriram-nos várias portas.” Desde 2016, o Bairro da Torre passou a ter passadeiras, calçadas arranjadas, espaços verdes, prédios pintados e alguns autocarros a passar nas suas ruas, o que não acontecia antes.

Skran, outros dos artistas convidados, afirma que o mais interessante deste festival é ter a oportunidade de pintar com artistas diferentes que o influenciam de várias formas. Por outro lado, destaca o poder das pinturas como arma social. “Isto é um bairro social, é um sítio mais intenso, as pessoas vivem as coisas de maneiras diferentes, sentimos que estamos a ajudar o bairro e não só a pintar umas figuras”. 

Com um pincel impregnado de tinta roxa, Skran dá os últimos retoques numa pintura de uma mulher de uma tribo da Etiópia. A ideia é passar a mensagem de que, apesar de sermos de raças diferentes ou de não falarmos a mesma língua, todos pertencemos à mesma tribo.

O festival foi criado no âmbito da programação da Capital Europeia da Juventude - Cascais 2018, que financiou todos os materiais necessários às pinturas, desde tintas, pincéis e andaimes, bem como tudo o que seja relacionado com o alojamento e alimentação dos artistas.

Na sexta-feira, o tempo ajudou e Contra, membro do grupo Colectivo Rua, consegue terminar o trabalho de seis dias numa parede sem vida. Conta que trabalhar na mesma tela a seis mãos já lhe sai naturalmente e que esta composição tem três partes.

“A figura de destaque representa um morador do bairro que tem uma mochila de explorador, o bairro é o seu mundo e o mundo é o bairro. As figuras dos prédios simbolizam o bairro e o globo que simboliza o mundo.”

Além destes artistas, o festival conta ainda com a participação de Samina, Tamara, Skran, KAS, o australiano Jimmy C e a dupla de holandeses Telmo & Miel e termina este domingo em festa e música a partir das 17h com o encerramento a coincidir com a festa da comunidade e com uma visita guiada pelas obras acrescentadas este ano.

Texto editado por Ana Fernandes