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Raquel Correia é médica, copywriter, intrinsecamente curiosa e quase sempre sarcástica

Megafone

Bater a bota com estilo

Muito bem. Ja´ que na~o posso pedir para ser eutanasiada, vou recorrer a uma te´cnica para contornar este obstáculo: sacar do testamento vital. Um documento com um nome pouco sexy, onde posso dar ordens para quando estiver “mais pra la´ que para ca´”

Li numa cartolina sensaborona "Na~o deixem morrer os velhinhos!". Como se, no charme da velhice, entre o comprimido da diabetes e as Tardes da Ju´lia, nos fosse entrar em casa a "brigada anti-velho" e fanar o pe^lo aos grau´dos. De facto a eutana´sia e´ isto: ceifar quem ja´ na~o impressiona com habilidades gaiteiras.

Nos outros casos, como num acidente grave, faz absoluto sentido manter em vida custe o que custar. Por mim falo. Pouco importa se saio de uma dessas sem poder comunicar ou mexer-me. O que importa e´ estar ali a fazer missa de corpo presente e a empatar a vida dos que me sa~o queridos. Quero ficar ali a cristalizar e fossilizar o ma´ximo de tempo possi´vel. Nunca se sabe…

E, claro, em casos de doenc¸a grave e irreversi´vel, e´ importante para mim que me impec¸am de decidir que quero partir enquanto ainda estou airosa e rija (mental e fisicamente). Grata pelo vosso bom senso.

É aqui que entra o testamento vital ou a arte de dar ordens para quando estiver mais morta que viva.

E´ um privile´gio ver pessoas que empunham cartazes debochados. Na~o tenho e´ pacie^ncia para deciso~es bacocas. Como nada ha´ a fazer quanto a isto, vou sacar do papel. Qual papel? O testamento vital. Sim. Uma o´ptima maneira de dar ordens, ser insana e sarca´stica — no fundo o que sou em vida — quando estiver prestes a bater a bota. ????


Trocando por miu´dos, qualquer pessoa com mais de 18 anos, lu´cida — ou seja, preferencialmente sem ser depois de sair da noite ou do Boom ou quando esta´ com tensa~o pre´-menstrual — pode criar Directivas Antecipadas de Vontade (DAV). Sem nomes pomposos: uma lista com o que quer que seja e o que na~o quer que seja feito, quando estiver a resvalar para o limbo.

Eu, por exemplo, quero dar uma de mu´mia egi´pcia. Quero que me banhem em leite de burra, me untem com Barral e encham o meu quarto hospitalar de pec¸as da Vista Alegre, para o pessoal poder palmar alguma coisa de valor enquanto eu finjo que fecho a pestana. Ai de quem tente po^r-me tubos em orifi´cios e me de^ muitas mezinhas para eu ficar ali armada em da´lmata de loic¸a! Juro que volto para vos beliscar a penca!

Na pra´tica, deixar a lista preparada e online. Bem sei que somos pouco organizados mas ter um documento destes e´ ser generoso para quem leva connosco no hospital e, sobretudo, para a fami´lia e amigos!

Na~o quero que me de^ um chilique e ningue´m saiba o que fazer deste mono. Quero facilitar ao ma´ximo a vida aos que por ca´ ficam, que eu, obrigadinha, vou estar tranquila "da vida" a curtir no limbo. Os que ficam, coitados, va~o ter de andar a limpar a pecua´ria onde vivo, a arrumar os meus tarecos e a chorar porque de pertences deixarei pouco mais que livros. Por isso, vou preencher o dito documento e depois vou chatear quem de direito com isto: o me´dico de família ou um nota´rio.

Se nos pro´ximos tempos a morte ou a doenc¸a me baterem a` porta … porque ao que parece na~o acontece so´ aos outros — fica tudo avisado que quero que me de^em todos os medicamentos a` disposic¸a~o para que eu parta apetitosa e de chakra alinhado. Autorizo botox e morfina.

O melhor que posso fazer neste momento, na~o podendo decidir que quero ser fanada, e´ deixar-vos tudo por escrito para que se orientem na minha ause^ncia.