Peniscola, Castelló de la Plana, Mar, Shore
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À sombra do castelo de Papa Luna

Peñíscola parece resgatada de um conto de fadas. Para as suas ruas estreitas vão espreitando o mar e o sol, aquecendo as pedras da fortaleza inexpugnável que atrai cineastas e acolheu o ilegítimo Benedicto XIII. O seu clima benigno seduz milhares de turistas.

O mar estendia-se à minha frente, como um tapete azul, numa indolência contagiante, o sol lançava os seus raios tépidos sobre os turistas preguiçando nas areias da praia Norte e, desde esta, avistava-se, imponente, a fortaleza da cidade.

O mar, o sol e a pedra — assim se poderia definir, em três palavras, Peñíscola (Peníscola em valenciano) e uma grande parte da sua história com origens tão remotas.

Estaciono o carro perto do porto de pesca, uma actividade tão associada, a par da agricultura, ao percurso de Peñíscola ao longo dos anos. Um dos mais importantes e mais activos da Comunidade Valenciana, o porto aprisiona mais os olhares ao final de tarde, pelas suas cores e cheiros, marcando o regresso dos pescadores do mar.

Ao cimo avista-se a fortaleza.

E de onde não se avista ela, em Peñíscola, começo a interrogar-me.

A pedra, com a toda a sua força, definindo a paisagem, um recorte perfeito sobre um fundo azul, uma posição estratégica que sempre cativou os diferentes povos muito antes de atrair turistas, gratos pelo clima nesta varanda que se debruça sobre o Mediterrâneo. Acredita-se que Peñíscola deve o seu nascimento às tribos iberas ilercavones, entre os séculos VII e VI a.C., por ela passaram fenícios e cartagineses (há uma lenda que diz que Aníbal viveu aqui vários anos, jurando um ódio eterno aos romanos).

Vista de cima ou de baixo, Peñíscola posiciona-se como uma rainha dos mares. As suas ruas, por vezes tão estreitas, vão serpenteando, subindo, subindo, para desaguarem, de uma forma ou de outra, sem mapa e com muitas pausas, em praças que aos finais de tarde ganham mais vida e se convertem em santuários de tapas y copas. Peñíscola, desejada, como outros enclaves ao longo do Mediterrâneo, pelos povos conquistadores, desempenhou um papel importante no comércio — de tudo um pouco chegava, do porto partia o azeite e o vinho. Os gregos também se sentiram atraídos por este bastião do Mediterrâneo, chamaram-lhe Chersonesos, a península, traduzida mais tarde para o latim pelos romanos (mais um povo seduzido por Peñíscola) para paene ínsula, quase uma ilha.

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Subo as escadas, as copas das palmeiras agitam-se com o vento, mais para cima projectam-se contra o céu azul casas pintadas de branco. Das muralhas, avista-se o mar, as suas vagas dóceis, recantos que são refúgios de jovens apaixonados e árvores delicadas cujos ramos se semelham a braços cruzados sobre o Mediterrâneo.

Mesmo ao lado está o parque da Artillería, um jardim botânico, com alguma vegetação, com fauna autóctone do vizinho parque natural da serra de Irta, um balcão aos pés do qual se estende o mar, tão azul, tão calmo.

Ao fundo, a praia Norte, com os seus hotéis bordejando as areias, o presente numa cidade com passado.

Peñíscola ainda encantou outros povos. Durante cinco séculos, até 1233, os árabes dominaram e defenderam esta sentinela do Mediterrâneo a que chamavam Banaskula.

Subo mais um conjunto de degraus. Peñíscola exige uma razoável condição física. A curta distância, avisto a entrada para o castelo. É sob o domínio muçulmano que se começa a erguer a fortaleza. O castelo, como hoje o conhecemos, foi levantado entre 1294 e 1307, uns anos depois da tomada da cidade (1233) pelos cristãos e consequente (1250) expulsão dos árabes.

Deixo o castelo para mais tarde.

As muralhas em voz baixa

Os turistas entregam-se ao sol, outros, como eu, à descoberta dos recantos de Peñíscola, por entre as muralhas construídas em diferentes períodos da parte antiga, declarada Conjunto Histórico Artístico. Nada melhor do que uma errância por estas ruas e vielas tortuosas que não são mais do que um legado da presença árabe, em busca do silêncio ou das palavras indecifráveis que duas vizinhas trocam desde as suas varandas onde o sol não chega a esta hora.

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As muralhas estão divididas em três zonas, são como estruturas arquitectónicas e militares distintas mas todas elas, em conjunto, contribuíram para tornar este pedaço de terra que entra pelo mar numa fortaleza inexpugnável.

A tarde avança, as pequenas esplanadas que ocupam quase metade da rua ganham uma súbita animação.

- Vamos para Portugal sem pagar. A ver se ficamos bonitos na fotografia.

São três homens, apenas um reage à objectiva apontada, todos eles levantam o copo para um brinde na minha direcção.

E prossigo.

Parte da responsabilidade da fortificação, mandada levantar por Filipe II na segunda metade do século XVI, é do conceituado (na época) arquitecto-engenheiro italiano Juan Bautista Antonelli.

Banhado pelo sol, contra um céu eternamente azul, resplandece o campanário do templo paroquial da Virgem do Socorro, misturando estilos gótico e românico para abrigar um tesouro que inclui, entre outras peças de grande valor histórico e artístico, uma cruz processional de Benedicto XIII, um cálice de Papa Luna e um relicário de Clemente VIII, sucessor daquele.

Não muito longe, ao cimo de umas escadas e já próximo do castelo, outro lugar de culto, a ermida da Virgem de Ermitana, mandada construir pelo governador militar Sancho de Echevarría e com uma forte tradição religiosa que é enfatizada a 8 de Setembro, dia de festa da padroeira da cidade que, segundo reza a lenda, foi conduzida a Peñíscola por São Tiago, escondida numa gruta quando os árabes chegaram e recuperada mal estes partiram.

A constante presença do Mediterrâneo, plantado nos meus olhos de quando em quando, impulsiona-me, a meio da tarde, para o museu do Mar, para perceber a ligação de Peñíscola à pesca. Árvores entroncadas e de ramos curtos exibem-se à frente da fachada branca do edifício, situado sobre o Baluarte do Príncipe e cujo interior presta um tributo às gentes que galgaram essas ondas temíveis ao longo dos séculos.

O sol rompe por entre as janelas e convida, ao fim de pouco tempo, a um regresso às ruas, menos frias, mais acolhedoras do que um museu. Muitos dos caminhos, como que atraídos pelo ruído festivo, já conduzem, mal a tarde ameaça extinguir-se, às praças de les Escaseres e de San Roque, onde a animação se impõe aos murmúrios que lhes cabem durante o dia. 

As sombras avançam sobre as pedras seculares, o sol, não tarda, está a mergulhar e o mar, ainda e sempre dócil, brilha como o ouro. Pelo meio das muralhas, os candeeiros lançam a sua luz fraca sobre o empedrado gasto das ruas.

Não me preocupo muito em encontrar a porta por onde entrei na cidadela. Há outras duas e todas elas, na sua imortalidade de pedra, nos prendem o olhar, pelo menos durante uns momentos. Melhor mesmo é franqueá-las, andar uma página para trás na história, à procura desse passado de Peñíscola, admirá-las como um homem dessa época em que foram construídas.

A primeira, por ser a principal via de acesso até ao século XVIII, escondendo bem próxima toda uma herança silenciosa, é El Portal Fosc. No seu estilo renascentista, a porta, encimada por um escudo comemorativo de Filipe II, abre-se para um imaginário, para o que poderia ser Peñíscola por esses dias.

Há uma outra porta, que muitos definem como a terceira porta da cidade. É a de Santa Maria, edificada em 1754, cumprindo ordens de Fernando VI, desejoso de melhorar os acessos à cidade.

Estou, a esta hora, tão próximo dela, tão cúmplice da atmosfera da praça de Escaseres.

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Peñíscola tem a particularidade de surpreender. Todos.

E chega-se à última porta, a de Sant Pere, mandada construir por um Papa no século XIV, provavelmente sem imaginar que abria um novo acesso por mar, redefinindo a paisagem, as muralhas, mas servido por um cais que se manteve em funções até ao século XVIII, antes de ser soterrado por ordem dos militares.

A praça de Escaseres agita-se.

O arco da porta impressiona, nele vê-se o escudo, esculpido por Filibert Bertalla, do Papa Luna, teimosamente Benedicto XIII. No castelo de Peñíscola viveu Benedicto XIII, aliás Papa Luna, os últimos anos da sua vida.

O castelo do Papa

A manhã desponta, com uma luz bonita, o mar é de um azul profundo, polvilhado de velas brancas que quase não se agitam. Dentro de algumas horas quero partir, a tempo de descobrir as luzes douradas do pôr do sol sobre o delta do Ebro. E o castelo, pergunto.

Décadas depois da partida dos árabes, a Ordem dos Templários começou a erguer uma estrutura onde antes reinava uma atalaia.

Por qualquer razão, o castelo, coroando a cidade antiga, é conhecido por Templário-Pontíficio.

Muito do que se vê ainda hoje foi levantado entre 1294 e 1307 pelos Templários. Quando olharam para ele, esses homens enigmáticos da Ordem lembraram-se da Terra Santa, do que construíram nessa região. Declarado Monumento Histórico-Artístico desde 1931, o castelo, situado 64 metros acima do nível do mar e ocupando um perímetro de 230 metros, atrai anualmente mais de 300 mil visitantes, um foco que não é apenas turístico mas também cultural — com a realização de, entre outros, o Festival de Música Antiga e Barroca, durante a primeira quinzena de Agosto, o ciclo de concertos de música clássica, ocupando quase todo o mês de Setembro, o Festival de Teatro Clássico, entre Julho e Agosto, e de 1988 até 2008, altura em que foi suspenso devido a dificuldades financeiras (implicava um orçamento de 700 mil euros e tornava-se difícil competir com o de Málaga), o Festival de Cinema de Comédia, uma área à qual Peñíscola e os seus habitantes estão tão intimamente ligados.

Num passado recente, algumas cenas da Guerra dos Tronos tiveram como cenário a fortaleza mas, já em 1956, Luís García Berlanga, cineasta valenciano falecido em 2010, escolhia a cidade para a rodagem de Calabuch (e mais tarde também o Paris-Tombuctu), transformando um pequeno pueblo de pescadores numa verdadeira potência turística — e mais cosmopolita ainda quando o castelo e as praias do município acolheram as gravações de El Cid, o mítico filme (1961) de Anthony Mann que teve como protagonistas Charlton Heston e Sophia Loren.

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Sousa Ribeiro

No interior dos muros do castelo viveu, até aos seus últimos dias, já com 94 anos, Papa Luna, preservando a ideia de ser papa, o papa Benedicto XIII (quando, legitimamente, este apenas reinou entre 1724 e 1730). Por essa época, a igreja vivia tempos conturbados, fraquejava perante o poder civil e político. O Cisma do Ocidente — a ele se refere a luta pelo poder religioso entre Roma e Avignon, criando a ideia de um papa e de um antipapa. Papa Luna, nascido Pedro Martínez de Luna e Pérez de Gotor em Illueca, na província de Saragoça, em 1328, no seio de uma aristocrática família aragonesa, fez carreira militar antes de ser guiado pelos caminhos da fé.

O jogo de luzes e de sombras nas pedras do castelo desvia a atenção da história. A sobriedade do pátio de Armas, luminoso às primeiras horas da manhã, conduz de novo a minha imaginação para a existência de Papa Luna nesta fortaleza.

Em Roma, Clemente VII, Roberto de Genebra, é eleito e, da sua corte, em Avignon, faz parte o aragonês. Com a morte de Clemente VII, Papa Luna é nomeado sucessor e, mais tarde, sem alguma vez renunciar ao cargo, torna-se vítima da hostilidade da coroa francesa ao ponto de ter de procurar exílio, primeiro em Nápoles, depois em Barcelona e, finalmente, no início da década de 20 do século XIV, em Peñíscola, onde renovou o castelo até o transformar em sede papal, palácio residencial e biblioteca pontífica.

Papa Luna e o cinema deram um forte contributo para tornar a cidade mais mediática. Mas o mar e o sol e as pedras já lá estavam. À medida dos sonhos dos turistas.