Opinião

O que podemos aprender com as galinhas

As sociedades não se tornam mais fortes se escolhermos os melhores e esmagarmos o resto. Parece meio doido, mas é isso que nos mostram as galinhas e os escaravelhos.

Duas coisas importantes para esta história: uma galinha vive entre três a cinco anos e põe qualquer coisa como 267 ovos em cada ano.

Há décadas que William M. Muir, professor de genética na Universidade de Purdue, no Indiana, EUA, diz que “podemos aprender muito com os animais” — o que, em si, não tem nada de novo. Interessante foi ver, agora, como a experiência das galinhas que Muir fez nos anos 1990 continua actual e acaba de ser citada numa audiência no Congresso norte-americano onde se discutiu o bem-estar dos animais e a bioética na agricultura.

Mas o mais interessante de tudo é a ligação que o investigador faz entre as galinhas e aquilo a que ele chama a “situação humana” e como passa das capoeiras para as empresas.

Desde que deixou de ser vista como uma ideia estapafúrdia e passou a ser mainstream, para não dizer lendária, a experiência das galinhas gerou um efeito padrão. Sempre que é descrita, há alguém que diz “isso é a minha empresa” ou “isso é a minha vida”. Arriscando ser pobre e mal-agradecida para a ciência, a experiência das galinhas foi transformada em show de auto-ajuda. Uma vez que muitas pessoas no mundo precisam de ajuda, isso não é nada mau.

William Muir queria estudar a produtividade e usou galinhas porque é fácil medir os resultados: conta-se os ovos que elas põem. O professor queria saber o que poderia tornar as galinhas mais produtivas, ou seja, pô-las a pôr mais ovos. Por outras palavras, estudou a produtividade a partir do ponto de vista da competição.

Na altura, muitos colegas riram-se do projecto e o seu orientador de tese avisou-o de que estava a pôr em risco um lugar permanente na universidade.

Esta foi a experiência: Muir organizou dois grupos de nove galinhas e colocou-os em duas capoeiras distintas. Numa ficaram nove galinhas escolhidas a dedo por serem muito produtivas, uma espécie de super-galinhas. De tempos a tempos, fazia-se o balanço dos ovos postos e substituíam-se as galinhas menos produtivas por novas super-galinhas. Na outra capoeira ficaram nove galinhas banais, que comeram, beberam e puserem ovos sem intervenção humana. E assim foi durante seis gerações.

O que aconteceu no fim da experiência? Na capoeira das galinhas banais estava tudo sereno e a produção aumentara 160%. Na capoeira das super-galinhas o cenário era mais triste. Só havia três vivas. As outras estavam mortas, assassinadas à bicada e depenadas pelas mais fortes, as mais “super” do clube das supergalinhas, que, ocupadas a lutar, já quase já não punham ovos.

A conclusão do professor é tão simples quanto a experiência: as galinhas mais produtivas tiveram sucesso porque esmagaram as outras. Começaram por impedir que fossem produtivas e, através de métodos agressivos e disfuncionais — os adjectivos são do professor Muir — acabaram por as matar.

É a partir daqui, e da ideia de que o modelo das super-galinhas domina o mundo há demasiado tempo, que algumas pessoas usam a experiência de Muir para alertar para o preço que estamos a pagar por uma produtividade gerada com base no esmagamento da produtividade do outro. E para a necessidade de repensar a forma como organizamos o trabalho no século XXI. No capitalismo, diz o professor americano, os grupos (ou empresas) onde não há cooperação entre os colegas vão desaparecer.

Muir, já agora, não tem nada contra o capitalismo. Pelo contrário. Em apenas 20 anos, recebeu 12 milhões de dólares em financiamento do governo e de empresas privadas para investigar o bem-estar e a vida em grupo dos animais.

Em entrevistas, o professor já explicou que não ficou “nada surpreendido” com o resultado da sua experiência das galinhas porque já tinha visto o mesmo acontecer com escaravelhos. Também eles permitem concluir que as sociedades não se tornam mais fortes se simplesmente escolhermos os melhores e esmagarmos o resto.