Opinião

A tragédia de Artur Reis

Julgado em 1930 e condenado na pena de 25 anos de prisão, Alves Reis arrastou, na sua tragédia, os seus colaboradores e a própria mulher.

Artur Virgílio Alves Reis foi o maior vigarista português do século XX. Nascido em 1896, fez o seu estágio na arte da vigarice em 1916 ao forjar o seu diploma de licenciatura em engenharia na Universidade de Oxford – local que nunca visitara mas que lhe permitiu o seu primeiro emprego em Angola. É certo que o diploma não lhe conferia a qualidade de engenheiro civil mas foi contratado como técnico de engenharia, iniciando assim uma notável carreira que só terminaria na Penitenciária de Lisboa em 1925, de onde saiu em 1945.

Regressado de Angola, Alves Reis, depois de um pequeno percalço que o levou a passar uns meses na prisão pela emissão de cheques sem cobertura, lançou-se na realização da obra que o faria figurar na galeria dos mestres do engano e da decepção.

Em Fevereiro de 1925, falsificando o papel timbrado do Banco de Portugal e a assinatura do governador, encomendou à firma inglesa responsável pela impressão de notas centenas de milhares de notas de 500 escudos que fez transportar para Portugal através dos seus cúmplices: um comerciante holandês, um espião alemão e José Bandeira, um homem de mão português, que o admirava profundamente e nele confiava cegamente. As notas foram trazidas para Portugal em grandes malas, com a protecção de documentos diplomáticos.

Chegadas a Portugal, as notas novas foram postas em circulação de diversas formas, em particular através da compra de divisas no mercado negro que depois eram levadas para o estrangeiro e feitas entrar em Portugal legalmente, através do circuito bancário, como investimentos das firmas do seu sócio holandês. Muito das notas estavam, também, guardadas na casa de um diplomata venezuelano na Avenida da Liberdade, em Lisboa, onde os auxiliares de Alves Reis iam regularmente buscar molhos de notas para as necessidades.

O dinheiro servia para muita coisa: para o pagamento das dívidas de Alves Reis, para investimentos, mas também para viagens e compras de imóveis e bens de luxo. Alves Reis, os seus sócios e amigas viajaram pela Europa e hospedaram-se nos melhores hotéis – em Paris, o Claridge’s era o poiso habitual e o ponto de encontro. As visitas às joalharias para comprar jóias e pratas diversas eram frequentes, para além da compra de automóveis de prestígio.

Afastado dos circuitos da banca tradicional, Alves Reis criou o Banco Angola e Metrópole, para cujos órgãos sociais convidou personalidades prestigiadas, de direita e de esquerda. Como bom vigarista, só ele dominava a totalidade da operação monetária que criara, sendo o conhecimento da mesma parcelar até para os seus sócios e mesmo desconhecida para muitos dos que aceitaram com ele colaborar. Diogo Pacheco de Amorim, reputado professor universitário, colega e amigo de Salazar e de Cerejeira, por exemplo, foi administrador e elaborou o projecto dos estatutos do Angola e Metrópole, sendo recompensado com um serviço de chá em prata. A actriz holandesa Fie Carelsen, e namorada de José Bandeira, recebeu entre outras dádivas uma moderna viatura Renault de 10 cavalos com seis lugares. Segundo constou mais tarde, quando o império de Alves Reis se desmoronou com a sua prisão, Fie, perguntada se não estranhara tanto dinheiro, se não se perguntara de onde vinha, afirmou que “ao princípio, sim, mas depois o dinheiro era tanto que deixámos de perguntar”.

Em Novembro de 1925, as desconfianças levantadas a um funcionário bancário do Porto com a troca de tantas notas novas levaram à descoberta de notas com numeração duplicada e à prisão de Alves Reis e dos seus cúmplices portugueses.

Dentro da prisão, Alves Reis não se calou, protestando com veemência a sua inocência e afirmando – publicou mesmo um livro – que a emissão clandestina das notas era da responsabilidade do Banco de Portugal, o que levou à detenção, por umas horas, do próprio governador do Banco de Portugal.

Julgado em 1930 e condenado na pena de 25 anos de prisão, Alves Reis arrastou, na sua tragédia, os seus colaboradores e a própria mulher. Em tribunal, assumira, por fim, a responsabilidade pelos seus crimes e tentara, sem sucesso, ilibar todos os que com ele tinham vivido aquela extraordinária ficção que criara. Os seus escrúpulos, como a todos os burlões, tinham chegado tarde demais.

(artigo baseado no meu livro “Alves Reis – Uma História Portuguesa”, Oficina do Livro, 2008)