A Rua de Belomonte é uma gravura. Ou várias

Duas lojas emblemáticas da rua receberam participantes na acção Moving Street, que transformaram em gravuras as impressões recolhidas

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A Escovaria de Belomonte foi um dos pontes de paragem Nelson Garrido
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Os participantes percorreram a rua, em busca de inspiração Nelson Garrido
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Manoel mostra pigmentos e folhas de ouro aos participantes Nelson Garrido
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A velha loja de pigmentos não conseguiu a distinção do Porto de Tradição Nelson Garrido
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Um edifício da rua funcionou como uma espécie de atelier improvisado Nelson Garrido
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Fátima fabrica mais uma escova industrial na Escovaria Nelson Garrido

Rui Rodrigues já está habituado a que lhe entrem pela loja e oficina com máquinas fotográficas apontadas e rostos mais ou menos curiosos. A Escovaria de Belomonte, no coração do centro histórico do Porto, integrou o primeiro lote de estabelecimentos da cidade a ser reconhecido no âmbito do programa de protecção Porto de Tradição e, quem passa, dificilmente deixa de reparar nas vassouras coloridas a adornar a entrada da loja ou no trabalho miudinho que se faz nas traseiras, na oficina. Mas, esta quarta-feira de manhã, o grupo de curiosos que lhe ocupou o espaço era outro – estavam ali para descobrir o que, dali a nada, iriam desenhar e transformar numa gravura. Tudo sem sair da rua.

Eram 18 participantes guiados por Graciela Machado, investigadora do i2ADS – Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), no âmbito do evento internacional de gravura Pure Print, que arrancou no Porto e segue, no próximo mês, para Porto Alegre, no Brasil. Por cá, a acção desenvolvida foi baptizada de Moving Street e centrou-se na Rua do Belomonte. Graciela, que está habituada a percorrer as ruas da cidade, disse que encontrou aqui uma artéria em que ainda existe “capacidade de produção com características locais” e excelentes exemplos que, com as suas especificidades, traduzem o que tem estado a mudar no Porto. A Escovaria como espaço “emblemático, de sobrevivência, resistência e adaptação”. Logo a seguir, a porta fechada para onde se mudou a loja de encadernação Heróica, depois de deixar a Rua das Flores, e que marca os negócios “perdidos”. E um pouco mais à frente, o rés-do-chão onde Manoel Costa, de 73 anos, mantém “o último reduto das antigas drogarias da cidade”, nas palavras de Graciela.

É aqui que os participantes parecem mais entusiasmados. Os frascos de pigmentos, a velha pasta de couro com amostras coloridas de todas essas cores, que o vendedor da casa instalada neste local desde 1948 levava aos clientes, ou as folhas de ouro que Manoel mostra, sempre com palavras animadoras, fazem as delícias de vários jovens que estão ali através da FBAUP ou da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, já que o projecto A Colecção de Desenhos. Escola de Arquitectura do Porto, do Centro de Estudos desta faculdade, e que esteve na génese do programa AsSALTO, foi convidada a juntar-se ao Moving Street. Alexandra Rafael, uma das participantes, estava entusiasmada com o que diz ser uma descoberta “incrível”. “Eu faço gravura e não sabia que havia lojas como estas, onde posso encontrar os materiais, em vez do produto já acabado”, disse.

Enquanto um outro participante se instalava, temporariamente, na loja de Manoel Costa, para tentar perceber se o seu desenho iria nascer ali, Alexandra estava às voltas com o jardim nas traseiras do edifício que o projecto Moving Street usou como uma espécie de “atelier” improvisado. E Dennise Vaccarello, uma galega a fazer o doutoramento na FBAUP, espreitava da varanda de ferro para o desenho deixado pelos paralelos da rua, com a certeza que era aquele traçado que iria estar na base do trabalho a desenvolver ao longo do dia.

Porque, depois da visita, com breves explicações sobre os espaços históricos e eventuais materiais que poderiam usar – os pigmentos do senhor Manoel, a escova de ourivesaria, que Rui Rodrigues explicou ser feita com fio de latão tão fino, que uma máquina não o poderia criar – os participantes foram deixados à solta, para que escolhessem o que, naquela rua, iria ser a base do desenho que seria transformado em gravura. Ao dia de trabalho em Belomonte seguir-se-ia, por isso, a impressão dessas criações nas oficinas da FBAUP e, na sexta-feira, ao final da tarde, todas as obras saídas desta expedição citadina deverão estar expostas na própria Rua de Belomonte, explicou Graciela Machado.

Ainda sem certezas quanto aos locais da exposição, o desejo da investigadora é que as gravuras possam estar disponíveis nos edifícios que foram visitados durante o percurso de quarta-feira. Na oficina com buracos no tecto em madeira da Escovaria de Belomonte, que Rui Rodrigues garante que, qualquer dia, será reabilitada. “Ainda não mexi, porque não sei por onde pegar. Não quero tirar esta traça”, diz o homem que representa já a 3.ª geração da mesma família a tomar conta do negócio de vassouras e escovas. E entre os pigmentos e folhas de ouro da loja escura, poeirenta e com teias de aranha de Manoel Costa, cujo futuro ainda está por definir. voltar

Ele apresentou a candidatura ao programa Porto de Tradição em Setembro do ano passado e garante que, entretanto, não voltou a ter notícias do processo. Num documento de balanço do programa apresentado pela Câmara do Porto em Fevereiro, a loja aparece no lote dos espaços “não reconhecidos nem protegidos e notificados em sede de audiência prévia”. Contudo, a câmara diz que esta informação contém um erro e que, de facto, os proprietários não foram ainda notificados, uma vez que esta avaliação terá, previamente, que ser validada pelo executivo. A esta má notícia, acresce o facto de o edifício, onde ainda vivem quatro pessoas, todas com mais de 80 anos, estar à venda. Falta saber se na próxima gravura da rua, a velha loja ainda lá está.