Opinião

João Abel Manta: um problema difícil

Em data duplamente redonda (90 anos de idade do artista, 40 da sua obra-prima, as Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar), uma pergunta: como não temos ainda um local de exposição permanente desta obra?

Num artista com uma muito escassa bibliografia, os quatro ou cinco livros dedicados à obra gráfica de João Abel Manta em 26 anos (contando com o excelente catálogo da exposição de 1992) escondem, na sua aparente e relativa abundância, um número mais frio: nesse mesmo período, houve apenas três exposições dedicadas a essa obra (e volto a contar aqui a que a exibiu na totalidade no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa nesse longínquo ano). Outros números mais recentes: na imprensa nacional dita de “referência”, em particular naquela que (ainda) se especializa nos assuntos culturais, procurei, desde o início do ano, contar com os dedos de uma mão os artigos referentes às duas datas “redondas” – os 90 anos de idade e os 40 da edição das Caricaturas Portuguesas – e sobraram-me os cinco dedos. Ou seja: zero artigos. No momento em que escrevo, não se anuncia qualquer exposição ou “evento” que enquadre esse duplo aniversário, e nada nos materiais informativos do Museu Bordalo (onde reside o espólio do artista) aponta nesse sentido.

Comemorar Manta – o nosso mais importante artista gráfico do último meio século – sempre foi complicado, sobretudo desde o seu “exílio” da intervenção gráfica em jornais, livros e cartazes na década de 1980, e foi-o, sobretudo, porque era evidente que a Manta aborreciam as “comemorações”: longe de ser jubilatória (com raras excepções durante o PREC), a sua melhor obra gráfica parecia movida por uma “raiva anti-comemorativa”, na feliz expressão de José Luís Porfírio. Iniciada no contexto das aspirações frustradas do movimento democrático português no final da II Guerra Mundial e apurada no período crítico entre a queda de Salazar em 1968 e a queda da utopia revolucionária em Novembro de 1975, a obra que Manta terminou abruptamente menos de dez anos depois da Revolução de Abril para se dedicar apenas à pintura exige tudo menos adoração acrítica. À imagem de Portugal num dos seus célebres cartoons do PREC, ela pode ser, para o observador, um “problema difícil”. O facto de o seu autor ter expressamente deixado de querer falar sobre esse imenso portefólio (um livro-entrevista com José Jorge Letria deixou isso claro há poucos anos) só agudiza o problema.

“Bah!” Foi assim que, em 1992, Manta respondeu ao espanto de Fernando Assis Pacheco perante a quantidade de obras na primeira (e única) exposição integral do seu trabalho gráfico. Esse “bah” de desprendimento sincero, de afastamento do que começava a pesar-lhe e a distraí-lo da pintura, ecoa ainda. E este aparente esquecimento, se não do seu 90.º aniversário (algo que um artista tão recatado e privado como ele não desejaria com certeza que se comemorasse publicamente), mas da publicação de um dos mais importantes livros nacionais do último século, pode ser ainda parte desse eco.

Lançado em 1978 pelas edições O Jornal (que tinham já lançado os Cartoons 1969-1975), Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar teve, nestes 40 anos, apenas uma reedição, pela extinta Campo das Letras, em 1998. Ambas as edições se encontram agora apenas pelos alfarrabistas. Concebido e criado num refúgio auto-imposto em Londres, depois da implosão do processo revolucionário de que Manta fora o mais definitivo iconógrafo (pensar visualmente no PREC é impossível sem a associação a um dos seus cartoons ou cartazes), o álbum foi a fria vingança sobre um regime sob o qual vivera desde que nascera, que o prendera, que matara amigos seus e que chegara a levá-lo a tribunal por desenhar um cartoon, acabando por impedi-lo de colaborar com a imprensa. Acima de tudo, foi o exorcismo de um fantasma colectivo chamado Salazar, que abordara já, com a mesura exigida pelos tempos de Censura, no Dinossauro Excelentíssimo de Cardoso Pires, em 1972. Enquanto Londres espera o Jubileu tomada já pela febre do movimento punk (em 1976, os Clash tocam no mesmo ICA onde Manta expõe trabalhos), de Setembro desse ano a Dezembro de 1977 é o nosso sonho febril e absurdo de quatro décadas que o artista analisa quadro a quadro, em painéis rectangulares de cores planas e traço limpo e grosso, delimitados por uma cercadura colorida, correspondente a cada uma das 12 áreas temáticas e, além destas, meia centena de quadros avulsos (num total de 133). De dentro de uma caixa de cartão pardo, o leitor puxará o álbum cuja capa não ostenta qualquer informação para além do desenho de um barco sobre a linha do horizonte, entre um mar e um céu azulíssimos, vistos por entre os “dentes” de um pesado portão metálico que se fecha, que nos fecha: invocadas eram todas as valências do cenógrafo, do designer, do arquitecto que Manta também fora. É um livro único na nossa bibliografia, de dificílima classificação (se cartoon fica curto como termo de definição, há a sensação de que estes quadros estão também acima e além da “caricatura”). Na bibliografia europeia, voa à mesma altura de O Rosto da Classe Dominante ou Ecce Homo de Grosz.

Mário Dionísio preferirá trazer Goya à colação (os Caprichos, mas também os Desastres), Júlio Pomar confessará apropriar-se do perfil deste Salazar mantiano para as suas ilustrações do Burro-em-Pé, como se fosse inútil resistir à poderosa atracção da espectral figura nestas Caricaturas. As reacções são unânimes no espanto pela ambição do projecto e pelo resultado final e duram alguns anos (em 1981, Cardoso Pires será generoso nos elogios numa rara sessão pública com o artista, no Teatro da Comuna; em 1987, Abi Feijó animará estes quadros numa curta-metragem). Depois um hiato de 20 anos até uma discreta segunda edição (já sem a enigmática caixa cartonada). E depois outros 20 de nada.

Já nem discuto o facto (absurdo para mim) de este livro nunca ter sido recomendado no PNL (reforçando o que Manta apontara no seu julgamento de 1973: a nossa atávica iliteracia visual), mas o que creio ser urgente começar a pedir é a possibilidade de uma exposição permanente de toda esta espantosa obra gráfica, testemunho dos nossos mais agitados dias: se Manta não quer falar dela connosco (está no seu pleno direito), ela tem ainda muito a dizer-nos.