Viajar em timelapse já lhe valeu dois óscares

Um prémio pelo vídeo das auroras boreais da Noruega, outro pela viagem na Patagónia chilena e argentina. Qual será a próxima? Nova Zelândia.

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Joana Gonçalves

Paulo Ferreira, técnico de informática, natural de Gondomar, atravessou a porta dos históricos Raleigh Studios de Hollywood no passado sábado pela segunda vez para participar na cerimónia de entrega dos International Independent Documentary Awards. Voltou a pisar a passadeira vermelha, respondeu a perguntas rápidas de jornalistas, talvez tenha posado para as fotografias, mas ele, que se tornou um fotógrafo profissional especializado na técnica do timelapse, nem valoriza nada disso. Assim que nos passa a famosa estatueta dourada para as mãos prefere confirmar de imediato: sim, é bem mais pesada do que parece. O Óscar deve ser maciço, e o peso é inusitado para quem tenta adivinhá-lo pelo tamanho. 

Desta vez chegou a Los Angeles menos reticente e receoso do que no ano passado. Mesmo assim, havia ainda um nervoso miudinho. Ninguém se habitua a ir buscar óscares a Hollywood, mas foi mesmo isso que Paulo Ferreira foi fazer. No ano passado, quando recebeu uma carta a dizer que o seu filme sobre auroras boreais — Nordlys – the northern lights — tinha sido seleccionado para a competição achou que era brincadeira, e nem contou nada a ninguém. Depois recebeu um email a perguntar se iria à cerimónia porque era ele quem ia ganhar o prémio, e até lhe custou a responder. Ele disse que sim e comprou a viagem, mas esteve até à ultima com receio de “ter feito a viagem em vão, e que, afinal, houvesse um engano e ninguém chamasse o nome”. Mas chamaram. E este ano repetiram a dose, e o prémio de excelência atribuído a Paulo Ferreira deveu-se ao seu mais recente recente trabalho, Patagonia – The Tip of the World (Patagónia, a Ponta do Mundo).

Paulo Ferreira, 48 anos, não trabalha pelos prémios ou para os prémios, mas reconhece que são eles que lhe trouxeram notoriedade. Já anda nesta vida de tentar congelar a natureza em frames há quase dez anos: foi quando começou a levar a máquina fotográfica para as caminhadas que costumava fazer na serra do Alvão, depois de ter experimentado fazer um timelapse na Afurada. “Tinha a câmara fotográfica em cima do tripé, e fazia uma contagem mental, x segundos, um disparo, x segundos, um disparo. Saía de lá com a contagem mental a martelar na cabeça. Era uma coisa de bradar aos céus”, recorda, divertido.

Em dez anos muita coisa mudou, a começar pela própria experiência adquirida por Paulo Ferreira, e a terminar na tecnologia, que mudou tudo. Paulo lembra-se de ter construído a primeira dolly — um equipamento que permite deslocar a câmara, de forma controlada, em torno de três eixos. Hoje tem vários destes equipamentos profissionais, há dez anos construiu a primeira ele próprio, com uma régua de alumínio que encontrou num estirador (uma mesa de desenho).

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Joana Gonçalves

Mas foi sobretudo depois do ano passado que as encomendas para trabalhos começaram a aparecer com maior intensidade. “Nunca imaginei que o que começou por ser um hobby acabasse por chegar à minha área profissional, novamente. Eu trabalho numa empresa de arquitectura e engenharia e agora tenho recebido muitas solicitações para a realização de timelapses de longa duração”, afirma, explicando que tem acompanhado trabalhos de construção de algumas infra-estruturas um pouco por todo o país. “Quando se trata de construções em Lisboa tenho colaboradores que me vão mudar as baterias das máquinas de quinze em quinze dias”, afirma.

Agora o problema de Paulo é outro: encontrar tempo para responder a todas as solicitações. Porque o trabalho no escritório não esmorece — ele é o único técnico de informática de um gabinete em que trabalham mais de 40 pessoas — e as encomendas à empresa unipessoal que criou também estão sempre a chegar. E se no passado era preciso de recorrer ao crowdfunding para financiar as suas expedições (elas ainda estão registadas na plataforma PPL, na qual Paulo Ferreira conseguiu sempre atingir os objectivos), este ano já tem, por exemplo, um patrocinador que lhe financiará a próxima viagem e que vai ser à Nova Zelândia. “À ilha norte e à ilha sul. E desta vez, para além da componente de sustentabilidade e de preocupações ambientais que sempre transportei para os meus vídeos, quero também abordar as questões da cultura dos maori”, avançou.

É nessa viagem que Paulo Ferreira tem vindo a trabalhar todos os dias, usando o mesmo método que tão bem lhe serviu para preparar a viagem à Patagónia chilena e argentina: com muito trabalho de casa, muitas leituras e pesquisas e alguma preparação física. Porque ele mete-se à estrada sozinho. A experiência que teve no ano passado, em que viajou acompanhado por um guia durante três dias, revelou-lhe que é sozinho que deve viajar. “Para além do vídeo, a viagem à Patagónia também resultou num livro de fotografia. E se eu não tive dificuldade nenhuma em descrever com todos os pormenores todos os outros dias das viagens, é desses três dias que eu não tenho memória quase nenhuma. É melhor viajar sozinho”, advoga. A viagem já está marcada. Parte dentro de dois meses.