Dick Haskins (1929-2018): um caso à parte no policial português

António Andrade Albuquerque, mais conhecido por Dick Haskins, o pseudónimo com que assinou duas dúzias de romances policiais ou de espionagem, morreu esta quarta-feira, aos 88 anos. Com livros traduzidos em várias línguas e um estilo ecléctico e original, foi o mais destacado autor policial português dos anos 60 e 70. E gostava de o lembrar.

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Em toda a história da ficção policial portuguesa, não há um caso de sucesso internacional comparável ao de António Andrade Albuquerque, cujos romances, assinados com o pseudónimo Dick Haskins e frequentemente protagonizados, como os de Ellery Queen, por um herói epónimo, criminologista e jornalista, começaram logo no início dos anos 60 a ser traduzidos e publicados por editoras espanholas, alemãs, italianas ou holandesas.

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Em toda a história da ficção policial portuguesa, não há um caso de sucesso internacional comparável ao de António Andrade Albuquerque, cujos romances, assinados com o pseudónimo Dick Haskins e frequentemente protagonizados, como os de Ellery Queen, por um herói epónimo, criminologista e jornalista, começaram logo no início dos anos 60 a ser traduzidos e publicados por editoras espanholas, alemãs, italianas ou holandesas.

Após um intervalo de décadas, o autor, que morreu esta quarta-feira, em Lisboa, aos 88 anos, tinha recentemente voltado a publicar: em 2000 lançara mais um Dick Haskins, A Embaixadora (Asa, 2000), e em 2007 publicara um ambicioso díptico romanesco assinado com o seu nome civil: O Papa que Nunca Existiu e O Expresso de Berlim. O primeiro introduzia um ficcionado papa português que, na sua personalidade e na sua actuação, antecipava estranhamente o actual Papa Francisco. Deixou um inédito pronto a publicar, A Metáfora do Medo.

António Andrade Albuquerque escreveu o seu primeiro livro aos 20 e tal anos e, para um jovem autor português de policiais, pode dizer-se que teve um início de carreira prometedor, já que essa sua obra de estreia, O Sono da Morte, foi publicada em 1958 na prestigiada colecção policial da Empresa Nacional de Publicidade (ENP), o que permitiu que Dick Haskins fosse apresentado ao público rodeado de autores como Agatha Christie, S. S. Van Dine, Ellery Queen, Erle Stanley Gardner ou John Dickson Carr.

Por essa altura estava já a criar, na Ática, a colecção policial Enigma, que usaria para publicar e promover (a intuição publicitária era um dos seus inegáveis talentos) os 20 e tal livros que escreveria até meados dos anos 70, mas também para dar a conhecer ao leitor português alguns relevantes autores americanos, como Hillary Waugh, Ed McBain, cujas histórias da Esquadra 87 terão inspirado a série televisiva Balada de Hill Street, o bem-humorado Donald E. Westlake, ou o excelente Lawrence Block, ao qual a Cotovia dedicaria mais tarde uma colecção precocemente interrompida. Vários livros de Patricia Highsmith tiveram também a sua primeira edição portuguesa nos últimos números desta colecção de bolso, cujas capas, recorrendo muito à colagem, eram da autoria do próprio Andrade Albuquerque. 

Iniciada na Ática, a Enigma passou a ser publicada em meados dos anos 60 pela editora DêAgá, isto é, DH, as iniciais de Dick Haskins. Tendo ainda criado uma colecção gémea dedicada à espionagem – para a qual contribuiria com livros como Lisboa 44 (1966), Processo 327 (1967) ou O Minuto 180 (1967) –, Andrade Albuquerque foi também um grande divulgador do conto policial (arte que praticou ocasionalmente) através dos sucessivos números da sua Antologia Policial Dick Haskins. Editor, tradutor, antólogo e gráfico – não por acaso, vários dos seus livros apresentam desenhos, diagramas ou mesmo, como acontece em Obsessão (1962), reproduções devidamente autorizadas de verdadeiros passaportes portugueses –, António Andrade Albuquerque teria sido sempre uma figura incontornável da história da edição policial portuguesa, mesmo que não tivesse sido também enquanto autor um caso à parte. 

Um enigma

Descontando a ficção policiária de Fernando Pessoa, que só muito tardiamente chegaria a um público mais generalizado, pode dizer-se que desde as novelas sensacionais do frenético Reinaldo Ferreira, vulgo Repórter X, nos anos 20 e 30, que chegaram a ter algum sucesso em Espanha, e até à nova geração de autores que a excelente colecção policial da Caminho revelaria nos anos 80, como Ana Teresa Pereira, são praticamente nenhuns os escritores policiais portugueses que alcançaram um público internacional, ou sequer um significativo reconhecimento crítico doméstico. Natividade Gaspar, que viu alguns dos seus livros dos anos 40 traduzidos para francês, é pouco mais do que uma curiosidade, e no que respeita às décadas seguintes pode bem dizer-se, glosando um dos seus títulos, que Dick Haskins é um enigma no espaço vazio.

Não que estivesse propriamente sozinho. Surgiram na mesma época vários outros autores que, tal como ele, se socorreram de pseudónimos anglo-saxónicos para ocultar a sua condição de escritores policiais portugueses, receando que os leitores a encarassem como uma contradição nos termos. O estranho W. Strong-Ross, que Pessoa conheceu como Valério de Rajanto e que era já quase septuagenário quando publicou uma fiada de livros vagamente policiais e com um acentuado gosto pelo grotesco, Simon Ganett (António Carlos Pereira da Silva), com o curioso Os Olhos Malvados do Tio Jonathan (1966), ou, entre vários outros, Ross Pynn (José Roussado Pinto) e a sua tentativa de tradução portuguesa do policial negro americano. Mas nenhum deles conseguiu audiência internacional, nem sequer Dinis Machado, que no final dos anos 60 publicou, sob o transparente pseudónimo Dennis McShade, uma brilhante trilogia de policiais irónicos que, em termos de qualidade literária, estão fora do alcance de qualquer dos seus concorrentes domésticos, Haskins incluído.

Mas Andrade Albuquerque também se distingue pelo modo como conjuga, num estilo original, influências variadas, da novela de sensação ao clássico policial dedutivo da tradição britânica, muito presente nos seus primeiros títulos, e ao romance negro americano, com a sua crítica social e a violência da cidade moderna muitas vezes descrita em registo quase lírico. “O Mundo está podre. O Mundo desmembra-se em pedaços, lentamente, à medida que progridem no seu corpo as ramificações do cancro (...) Cada uma das raízes do seu tumor maligno tem um nome: Luxúria, Vaidade, Ambição Desmedida, Indiferença, Desequilíbrio Mental, Preguiça, Soberba, Assassínio (…). Este é o Mundo do Século Vinte, é o meu e o teu Mundo; é o nosso Mundo. Como tu, como um leucócito ou eritrócito [o autor começou por estudar Medicina], nele navego, em veias, artérias e capilares; nele, como tu, procuro sobreviver às tempestades (…)”, escreve nas linhas iniciais de Psíquico (1970).

Os livros de Dick Haskins foram quase todos republicados em diversas colecções portuguesas ao longo dos anos, até que a Asa lançou, já no século XXI, a reedição integral das suas obras. Se este sucesso doméstico é invulgar para um autor de policiais, já a verdadeira dimensão do seu reconhecimento no estrangeiro é hoje difícil de avaliar. Não terá vendido “milhões de exemplares”, como afirmavam por estes dias os seus obituários, e a informação de que foi publicado em 30 países também pode ser um tanto ilusória, mas durante os anos 60 teve um inegável êxito na Alemanha, onde a Goldamnn publicou oito livros seus, que distribuiu também na Áustria e na Suíça.

Vários dos seus títulos saíram também em duas populares colecções espanholas, a Biblioteca Oro, da Molino, e a GP Policíaca, da Plaza & Janés, e a editora italiana Garzani incluiu três Dick Haskins numa colecção que publicava alguns dos principais autores policiais americanos. Dois dos seus livros iniciais – A Sétima Sombra (1959), o livro que inaugurou a colecção Enigma, e O Fio da Meada (1960) – tiveram também edição holandesa. Já o seu impacto no mundo editorial de língua inglesa resumia-se então à publicação de Processo 327 pela editora britânica Howard Baker, com possível distribuição nos Estados Unidos e noutros países anglófonos.

Mas Haskins soube sempre potenciar a popularidade internacional que efectivamente teve. Na contracapa da segunda edição de O Isqueiro de Ouro na Enigma, em 1963, podia ler-se: “As obras de Dick Haskins atingiram recentemente a tiragem internacional de 200.000 exemplares”. E na capa de O Espaço Vazio (1962), um dos seus livros mais invulgares, como aliás se avisa logo a abrir – “O autor crê que a história que ireis ler nunca foi tratada em Literatura Policial, nem lhe consta que exista um caso real idêntico” –, salienta-se que Dick Haskins foi eleito em três anos consecutivos “o melhor autor da colecção”, por acaso dirigida pelo seu criador. E na sua 12.ª Antologia Policial, o mesmo Dick Haskins partilha a capa com Edgar Alan Poe, Agatha Christie, Rex Stout e, resume-se por não caberem todos, “outros dos mais famosos escritores de Literatura Policial”.