Entrevista

Lamas do fundo do Tejo serão aspiradas e guardadas em sacos gigantes

José Sardinha, presidente da Empresa Portuguesa das Águas Livres, explicou ao PÚBLICO como se irá processar a operação de limpeza do rio Tejo.

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Ricardo Lopes

José Sardinha, presidente da Empresa Portuguesa das Águas Livres, explica como se irá processar a operação de limpeza dos fundos do rio Tejo, com utilização de sacos de grandes dimensões.

Por que razão estas lamas têm que ser retiradas, junto ao cais fluvial de Vila Velha de Ródão e no Cais do Arneiro, no concelho de Nisa?
Estamos a falar, em diferentes bolsas, de um total de 30 mil metros cúbicos de matéria orgânica. Naturalmente esta elevada concentração orgânica reflectiu-se num consumo de oxigénio fora do normal, levando a um défice de oxigénio na água do rio — com valores elevados de CQO [carência química de oxigénio] e CBO [carência bioquímica de oxigénio] —, pelo que foi decidida a sua remoção.

Como é que isso foi identificado?
Foi feito um batimento do rio. Com mergulhadores, foi identificado que aqui havia uma concentração não usual de matéria orgânica. Desde então a EPAL tem feito análises.

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O que mostram?
Que, de facto, é matéria orgânica e que não tem presença de metais pesados ou de outros contaminantes. Não sendo tóxica, tem, contudo, esta consequência de coerção de oxigénio na massa de água.

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Imagem cedida pelo Ministério do Ambiente

Como vai ser feita a operação de retirada das lamas?
Consiste essencialmente na aspiração de duas bolsas [uma de 12 mil metros cúbicos em frente ao cais fluvial de Vila Velha de Ródão, outra com 5 mil metros cúbicos, no Cais do Arneiro]. Há uma embarcação que há-de ficar parada, ligada a tubagens até ao fundo do rio. As bombas, colocadas na embarcação, vão aspirar as lamas através desses tubos. A partir daí uma tubagem flutuante, flexível, em polietileno, encaminha os sedimentos para terra. É em terra em que é feita a separação da matéria orgânica sólida da água, que no fundo é água do próprio rio.

E em terra?
O terreno vai ser relativamente nivelado e impermeabilizado com uma tela de geotêxtil por baixo, uma geomembrana e novo geotêxtil por cima. E vai ser construída uma bacia de retenção e uma plataforma de betão de 5x5 metros, que no fim será retirada para instalar um sistema de tratamento. Este sistema consiste num tanque, com cerca de sete metros de altura e três de diâmetro onde se vai fazer a floculação das lamas com um reagente — um floculante que se utiliza no tratamento de águas residuais e também no tratamento de água. Isso permite agregar as lamas e fazer uma maior separação, no processo de filtração, que vem a seguir, da matéria sólida da matéria líquida. A partir daquele tanque saem umas tubagens que ligam a vários sistemas de filtração, os geotubes.

Na prática, estes são sacos de grandes dimensões [ver fotografia cedida pelo Ministério do Ambiente], colocados ao lado uns dos outros sobre a tela impermeabilizante. Os sacos, compostos por uma tela filtrante, são cheios com a lama floculada. Os sólidos ficam lá dentro e a água drena para cima da zona impermeabilizada, que termina numa caleira. Essa caleira recolhe a água dos sacos todos e uma tubagem faz o retorno para o rio. A partir daí, os sacos vão secando.

Qual a duração da operação?
Cerca de um ano. Tudo vai depender do Verão, do tempo que as lamas têm para secar. Esperamos que a meio da estação comece a haver sacos em condições de serem removidos. O transporte será feito em galeras estanques.

Qual o destino a partir daí?
Vão-se fazendo análises, mas, ao que tudo indica, sendo lamas de matéria orgânica, o destino natural será a compostagem ou uso em solos agrícolas.

Com que regularidade serão feitas análises?
Praticamente todas as semanas. Depois disso tudo será removido e o terreno será requalificado.

Quantas pessoas estão envolvidas?
Vai variando. Na aspiração e condução na tubagem haverá mergulhadores a monitorizar. E em terra haverá um engenheiro e um operador. Depois, associado a isto, há uma grande equipa de backoffice, nos laboratórios e tratamento de dados.

A escolha deste método foi consensual?
Eu diria que não há outro, é o standard. Para rios, não há outro.