Presidente aceita demissão do primeiro-ministro mas mantém Governo

Depois do homicídio de um jornalista que investigava as relações suspeitas entre a elite política eslovaca e a máfia italiana, o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, pediu a demissão.

Robert Fico, durante a conferência de imprensa onde admitiu a possibilidade da sua demissão
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Robert Fico, durante a conferência de imprensa onde admitiu a possibilidade de abandonar o Governo LUSA/JAKUB GAVLAK

O primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, declarou na quarta-feira que admitia apresentar a demissão se o Presidente aceitasse que o resto da coligação continuasse a governar, evitando eleições antecipadas. Na manhã desta quinta-feira, o Presidente aceitou o pedido de Fico e permitirá que o partido escolha o próximo chefe de Governo.

“Se o presidente aceitar, estou pronto a demitir-me amanhã”, tinha dito Fico.

Fico tem estado sob pressão da oposição na sequência do assassínio do jornalista Ján Kuciak, 27 anos, e da sua noiva, Martina Kušnírová — encontrados mortos em casa, em Bratislava, em Fevereiro.

 A polícia eslovaca afirma que o duplo homicídio está “muito provavelmente” relacionado com as investigações de Kuciak sobre os laços da elite política eslovaca à máfia calabresa, a ‘Ndrangheta. O repórter trabalhava num novo artigo quando foi assassinado.

A morte do jornalista e da noiva gerou enormes protestos contra o Governo de Fico, com dezenas de milhares de eslovacos a sair à rua, nas maiores manifestações naquele país desde a queda do comunismo, em 1989.

O partido Most-Híd, pequeno parceiro de coligação de Fico, juntou-se à oposição, aumentando a pressão sobre o chefe do Governo para convocar eleições antecipadas.

OPresidente eslovaco, Andrej Kiska, tinha  sugerido eleições antecipadas ou uma reestruturação urgente do executivo, na sequência da libertação de sete pessoas suspeitas no duplo homicídio. Um deles, um italiano, era próximo de elementos do círculo de Fico — entre eles a assessora do primeiro-ministro, Mária Trošková.

Fico foi recusando a demissão, argumentando que o país podia “mergulhar no caos" se a oposição chegasse ao poder.

O anúncio da disponibilidade para abandonar o Governo surgiu após a demissão do ministro do Interior, Robert Kalinak. “É importante para a manutenção da estabilidade, por isso decidi demitir-me do cargo de vice-primeiro-ministro e de ministro do Interior”, disse Kalinak, citado pela Reuters.

Na quarta-feira, a União Europeia voltou a exigir à Eslováquia que investigasse o duplo homicídio com celeridade. “A nossa prioridade agora deve ser a conclusão de uma investigação independente e minunciosa dos factos, trazendo os responsáveis à justiça”, disse o comissário europeu para a Segurança, Julian King, no Parlamento Europeu.

O caso relançou o debate sobre a liberdade dos meios de comunicação e a ameaça da corrupção e do crime organizado, tanto na Eslováquia quanto noutros países europeus.