Crítica

Diálogos com Sena e Sophia

Ficarmos a ver e a ouvir pessoas que lêem, e isso, as palavras no momento da sua formulação, são todo o “acontecimento”.

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Uma beleza que nos apanha de uma forma próxima do transe
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A correspondência é entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner, trocada essencialmente durante o período do exílio californiano do escrito. São essas cartas, que formam um diálogo continuado ao longo de anos, que estão na raiz de Correspondências e que lhe servem de motivo estrutural. Sem dúvida que o filme de Rita Azevedo Gomes é sobre essa correspondência, sobre o relacionamento entre Sena e Sofia, sobre uma relação construída de forma quase etérea (quer dizer, sem “presença”, e num ritmo e num tempo que hoje parecem anacrónicos, quando as formas de comunicação, mesmo a escrita, têm uma velocidade absurdamente instantânea). Sobre as personalidades, pessoais e artísticas, de um e de outro, sobre o tempo em que viveram, sobre os ecos do que era Portugal nesse tempo (e não esquecendo, convém, que havia uma motivação política para o exílio de Sena). Ou ainda, já que acima se falou de “presença” para a negar, sobre a presença real e efectiva de Sena e Sophia, sobretudo quando os vemos aparecer, em fragmentos colhidos em imagens de arquivo.

Ao mesmo tempo, e recusando sempre qualquer “cânone” do filme epistolar (nenhum dos correspondentes é posto na forma de “personagem”, a lógica não é a dum diálogo em ping pong, e se o filme está cheio de mise en scène nunca é o teor das cartas a ser “encenado”), é um filme que é muito mais do que só isto, que parece cheio de segredos e ligações a outros universos — mesmo quando esses outros universos são para ser encontrados dentro da obra de Rita Azevedo Gomes (um dos seus filmes, Frágil como o Mundo, tem mote num poema de Sophia, e quando esse poema aparece em Correspondências a ligação estabelece-se, com uma clareza misteriosa). Pode-se dizer que é um “filme-arquivo”, que “colecciona”, que junta, que organiza, elementos de natureza díspar. Em todo o caso, muito mais do que só o espólio da correspondência entre os dois escritores. Pessoas, por exemplo, actores, não-actores, cineastas, técnicos, escritores… o rol de participantes forma um elenco “de luxo”, e mesmo se não há personagens no sentido convencional do termo, se há longas cenas em que ninguém parece ter “nada de especial” para fazer, nenhuma presença é indiferente, pressente-se sempre um rigor (mise en scène, como dissemos) nos movimentos, nos gestos, no espaço a ocupar no plano, que cria e instala um peso próprio, fundamental no ritmo do filme e na sua maneira de viver dentro dum ambiente que parece ao mesmo tempo muito distante e muito próximo, muito “elevado” e coreografado mas também muito “natural” e muito quotidiano. Algumas cenas — por exemplo a preparação de refeições, os planos de frigideiras ao lume, de peixes a serem amanhados — eivadas dessa conotação com a naturalidade doméstica parecem reforçar isso, essa alternância entre os espaços de uma realidade sem mais e a presença da escrita (e dos mundos e das evocações que ela carrega) no meio dela, numa tensão que é a origem de boa parte da energia do filme. Mas, ainda voltando à ideia do “arquivo”, vozes, por exemplo: Correspondências é um filme sobre a leitura talvez ainda mais do que sobre a escrita, e é frequente convocar-nos para ficarmos apenas a ver e a ouvir pessoas que lêem, e isso, as palavras no momento da sua formulação por aquela pessoa concreta na sua dicção concreta, serem todo o “acontecimento”. Frequentemente, também, isso é da ordem do encantatório, retomando aquela coisa primitiva (ou talvez apenas muito da infância) que é ficarmos suspensos das palavras e das histórias ditas e contadas por outros.

Por cima disto tudo, Correspondências parece estar sempre a explodir em possibilidades de filmes diferentes, como se o “arquivo” fosse também o de um cinema imaginário. Não são só os espaços (embora tanto possamos estar numa cozinha como numa caverna enfiada nuns penhascos sobre o mar), é a própria superfície da imagem, sempre a variar cores e texturas, da limpidez do digital à rugosidade do “super 8”, e sempre alternar o que foi expressamente registado para o filme com imagens que vêm doutros lados. Isto proporciona um universo poético, descontínuo, elíptico, de uma beleza que nos apanha de uma forma próxima do transe. O fundo lírico de Rita Azevedo Gomes talvez procure essencialmente essa ideia de beleza e respectiva materialização, já presente nos seus filmes anteriores. Em Correspondências, não há um plano em que ela não apareça, fulgurante.