Katainen diz que Barroso não fez lobby: "Propus bebermos uma cerveja"

Vice-presidente da Comissão Europeia classifica o encontro em Bruxelas como privado, mas garante que não se falou do Goldman Sachs International, para o qual Barroso trabalha.

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REUTERS/Francois Lenoir

O vice-presidente da Comissão Europeia Jyrki Katainen garante que José Manuel Durão Barroso, o antigo presidente da comissão e actual presidente não-executivo do Goldman Sachs International, não fez lobby durante o encontro que ambos tiveram, em Outubro de 2017, e que nesta terça-feira suscitou intenso debate sobre se Barroso violou as regras – e a promessa de não levar a cabo acções de lobby junto da instituição que dirigiu entre 2004 e 2014. 

"Somos amigos. Conhecemo-nos há bastante tempo", começa por dizer o comissário finlandês, que confirmou por escrito, numa carta divulgada na terça-feira, que se tinha encontrado com Barroso num hotel em Bruxelas. "Eu era primeiro-ministro [da Finlândia] quando [Barroso] era presidente da comissão. Tornámo-nos próximos", disse Katainen em entrevista ao EU Observer.

Katainen , que ainda serviu alguns meses na Comissão Barroso, antes da saída deste do executivo de Bruxelas, prossegue descrevendo que andava a pensar em telefonar ao responsável português pelo lobby do Goldman Sachs International, para se encontrarem na próxima vez que Barroso estivesse em Bruxelas. Mas Barroso antecipou-se: "Na verdade, parece que ele leu os meus pensamentos e telefonou-me, ou mandou-me uma mensagem." O português, segundo Katainen, perguntou: "Estás por Bruxelas? Vamos tomar um café?" O finlandês anuiu. "Propus: vamos tomar uma cerveja".

O encontro entre ambos aconteceu a 25 de Outubro de 2017. E Barroso terá ouvido mais do que falou, segundo o vice-presidente da Comissão Junker. "Se alguém fez lobby, então fui eu. Estive a falar-lhe da nossa ambiciosa agenda para o comércio e para a defesa", insistiu Katainen na mesma entrevista, acrescentando que o resto da conversa andou à volta de "coisas pessoais como a política e a vida".

"É um erro de percepção [dizer] que ele fez lobby. Não fez. Nem sequer estou numa posição que possa ser do interesse do Goldman Sachs". argumenta o comissário, que tutela as pastas do Emprego, Crescimento, Investimento e Competitividade. "Têm de compreender, nós somos amigos. Ele não fez lobby comigo. Não dissemos uma palavra sobre o banco", garante ainda, explicando que optou por deixar registado o encontro ainda que o classifique como privado. "Seja ou não meu amigo, o melhor é fazer o registo."

Uma coligação de agências não-governamentais dedicadas à transparência apresentou uma queixa por má administração junto da Comissão Europeia, na sequência deste encontro. Numa carta enviada pela Aliança para a Transparência do Lobby e a Regulação Ética (ALTER-EU) ao secretário-geral da Comissão Europeia, Alexander Italianer, e divulgada esta terça-feira pelo EU Observer, os activistas pela transparência exigem que o Comité Independente de Ética proceda à revisão do estatuto de lobista de Durão Barroso.