A longa saga do denário do imperador Galba

Em 1958, uma enxada trouxe à luz do dia um pote de barro com 63 moedas romanas junto ao santuário duriense da Nossa Senhora da Piedade. Uma dessas moedas é de uma raridade e de um valor extraordinário. O que ajuda a explicar a sua saga. Roubado em 1985 em Sanfins do Douro, esse tesouro foi recuperado agora em Espanha, não apenas por obra e graça do acaso, mas sobretudo pela perspicácia de um académico e pela prontidão da Polícia Judiciária.

Há moedas que são feitas e desaparecem depois de cumprir o papel de vil metal, há moedas que se gastam com o tempo. Há as que se perdem para sempre, há muitas que são cunhadas e depois fundidas e novamente cunhadas em ciclos que podem durar séculos. E há o denário do tesouro da Nossa Senhora da Piedade. Nos seus 1950 anos de existência estão registados o drama do imperador Galba, as guerras civis romanas ou um silêncio provavelmente de muitos séculos dentro de um pequeno pote de barro descoberto nas imediações da ermida da santa em 1958. No seu verso e anverso registaram-se também um roubo, uma venda de feira e a gula de um coleccionador. Depois da sua descoberta junto com outras 63 moedas romanas, o seu destino ficaria ainda marcado pelo espanto de um padre arqueólogo, pelo interesse de um académico especialista em circulação monetária “no Noroeste de Hispânia até 192” e por uma operação policial que resgatou este denário de Espanha e o fez regressar a Portugal. Não deve haver muitas moedas com uma história assim, digna de um filme da série B.

O que justificará tanto interesse e tanta agitação em torno desta pequena moeda de prata, que pesa apenas 3,422 gramas? A sua extraordinária raridade. Rui Centeno, o historiador que viu umas 50 mil moedas romanas para fazer a sua tese de doutoramento sobre a circulação monetária romana no Noroeste peninsular até ao final do século II não tem dúvidas em afirmar que a sua “relevância é enorme”. Porque, ao que se sabe, é a única moeda sobrevivente de um período especialmente conturbado da História de Roma — o ano dos quatro imperadores, entre 68 e 69 depois de Cristo. A sua raridade é tão valiosa que “qualquer coleccionador ou qualquer museu gostaria de a ter na sua colecção”, explica Rui Centeno, o principal protagonista desta história de mistério, algum perfume de crime e de muito suspense até ao final feliz.

Tudo começa em Roma nos primeiros meses de 68. A capital do império estava em sobressalto. O exército na Germânia revoltara-se. A terrível guarda pretoriana estava disposta a aliar-se a quem fosse capaz de derrubar Nero. Pressionado por todos os lados, o imperador suicida-se a 9 de Junho. Na primeira linha para lhe suceder estava Sérvio Sulpício Galba, o poderoso governador da Terraconensis — uma grande faixa de território no extremo leste da Península Ibérica. Galba deixa a Ibéria na companhia do governador da Lusitânia, Sálvio Otão, e facilmente toma o poder em Roma. Aí, tentaria mudar a linha de rumo que o Império Romano tinha seguido até então. “Ele era um defensor dos valores da República”, explica Rui Centeno.

A moeda do tesouro de Nossa Senhora da Piedade cunhada na era de Galba revela a devoção do futuro imperador a esses ideais. Se no verso aparece uma efígie de Roma com um elmo, no anverso está escrita a máxima “Libertas Publica SPQR” (SPQR é o acrónimo de “Senado do Povo Romano”). Rui Centeno acredita que a moeda tenha sido cunhada entre Abril e Junho de 68, a data do suicídio de Nero, provavelmente ainda em Terracus, a capital da província que Galba governava. Mas é impossível determinar com total exactidão o lugar e a data em que o denário, uma unidade monetária que, por definição, servia para pagar um dia de trabalho, foi cunhado. Pode ter sido na Gália ou até em Roma. Pode ter acontecido no final de 68 ou nos primeiros dias de 69.

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O imperador Galba esteve no poder apenas sete meses

Mais tarde não seria porque, ainda em Janeiro desse ano, Galba é assassinado em pleno Fórum Romano pelo ex-aliado Sálvio Otão. A morte do imperador determina de alguma maneira a morte das moedas por ele mandadas cunhar. “Era normal que as moedas em circulação fossem fundidas para dar origem a novas cunhagens”, explica Rui Centeno. As razões que salvaram o denário do tesouro de Sanfins do Douro deste destino são misteriosas. Centeno admite num dos seus artigos que a moeda (e os outros 63 denários) possa ter sido entesourada na era de Tito, entre 79 e 81. Mas, ao certo, ninguém sabe. Sabe-se, sim, que a moeda é um exemplar único do período. Nenhuma das obras fundamentais sobre a numismática ou sobre a emissão ou circulação monetária de Roma a refere.

Um tesouro num pote de barro

Nesta maré de enigmas, também não se sabe se o tesouro guardado num pequeno pote de barro foi depositado originalmente nas jeiras em torno do santuário da Nossa Senhora da Piedade ou se foi para ali transportado anos mais tarde. O que a arqueologia e as memórias antigas de Sanfins do Douro provam é que naquele lugar existiu nos primeiros séculos da era cristã um castro fortificado de onde se podiam controlar os planaltos vizinhos e as encostas que vertem para o Douro e o Pinhão, um dos seus afluentes — ainda hoje o monte onde está o santuário é designado por “castelo” pelos sanfinenses. Joaquim Grácio, professor e estudioso de muitas décadas da memória de Sanfins do Douro, nota que as pedras do castro foram usadas para erguer a ermida. E sublinha que no terreno em volta da ancestral aldeia construída no cimo do monte sempre se encontraram moedas antigas.

“Eu tenho um documento anónimo que descobri numa quinta aqui perto que nos dá conta de um grupo de pedreiros que, quando estavam a construir a capela, descobriram umas moedas e, julgando-se ricos, deixaram a obra por fazer”, afirma Joaquim Grácio. Estávamos em 1646 e a abundância do terreno em moedas antigas prolonga-se nas Memórias Paroquiais de 1758 ou no registo que a publicação Arqueólogo Português faz em 1895 sobre a “obra grande no tempo antigo” que em tempos foi o castro. Em 1958, um grupo de agricultores — que, por encomenda da Comissão de Festas em honra da santa, procedia à limpeza de uma jeira junto ao santuário — viria a confirmar essa longa tradição.

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O raro denário do tempo do imperador Galba encontrado em Sanfins do Douro
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Em Sanfins do Douro, hoje já não há memórias vivas dessa descoberta. Sabe-se que o púcaro de barro apareceu no subsolo, que entre os trabalhadores que o encontraram havia um homem de apelido Aliança, e pouco mais. Nessa época, a veneração à Nossa Senhora da Piedade estava no auge (ainda hoje é uma das principais romarias dos planaltos a norte do Douro), nos terraços em torno da ermida havia jardins, o complexo religioso era guardado por um ermitão e as moedas encontradas só podiam ter um destino: o património da santa, zelosamente guardado pela Comissão de Festas, que “sempre teve muita autonomia em relação à igreja”, diz Joaquim Grácio. Encontrou-se uma mesa, colocou-se-lhe um vidro por cima e as moedas foram expostas à curiosidade pública na Casa dos Milagres de Sanfins.

Talvez esse conjunto de moedas tivesse permanecido longe dos olhares dos cientistas (e dos larápios) se por acaso Manuel Alves Plácido não tivesse entrado na história. Padre na freguesia de Carlão, também no concelho de Alijó, Plácido era um homem baixo, extremamente magro, de olhos esbugalhados e cabelo penteado para trás, que passou uma grande parte da sua vida a estudar a arqueologia local. A descoberta das moedas em Sanfins não lhe podia passar ao lado. A revelação da sua existência aconteceu à custa da análise, do estudo e dos artigos que Manuel Alves Plácido publicou no jornal A Voz de Trás-os-Montes depois de 17 de Maio de 1959, sob o pseudónimo Manuel Sereno. Esses artigos estiveram na base do interesse de Rui Centeno quando chegou a vez de fazer a sua tese de doutoramento.

A vez dos larápios

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O historiador Rui Centeno, um dos principais responsáveis pela recuperação de parte das moedas do tesouro de Sanfins do Douro

Apesar do zelo da Comissão de Festas em proteger o seu tesouro monetário, a fragilidade das instalações da Casa dos Milagres cedo se tornou evidente. Quando, a 19 de Outubro de 1983, Rui Centeno foi a Sanfins munido de balanças e de equipamento apropriado para estudar o tesouro, reparou que, das 63 moedas descritas por Manuel Alves Plácido, seis tinham desaparecido — e uma outra moeda romana que não fazia parte do conjunto original apareceu no meio do pecúlio sem que alguém soubesse como ou porquê. O precioso denário de Galba não fez parte do lote roubado, mas este acontecimento seria o prenúncio do que aconteceria dois anos depois. Na noite de 8 para 9 de Setembro de 1985, alguém arrombou a porta da Casa dos Milagres de Sanfins do Douro e surripiou toda a colecção. Num título algo sensacionalista, o jornal O Comércio do Porto notava a 13 de Setembro que “uma das mais valiosas colecções do país” fora roubada em Sanfins.

Na altura, a responsabilidade pela investigação do assalto foi entregue à GNR de Alijó. Que, por falta de evidências ou por pura incapacidade de avançar com o inquérito, rapidamente virou a página à história das moedas. Com o passar do tempo, também os sanfinenses se foram esquecendo das moedas. “As pessoas iam falando”, nota Grácio, mas mais como uma saudade remota de um tesouro perdido do que uma esperança na sua descoberta no futuro. Seria preciso esperar até 2010 para que fosse possível ter uma pequena luz sobre o que terá acontecido nessa noite de 8 para 9 de Setembro de 1985. E para que a esperança na recuperação do tesouro ganhasse alento.

No mundo apaixonado da numismática, é normal haver cumplicidades. A 17 de Fevereiro de 2010, Rui Centeno teve o benefício dessa atitude estimulada pela paixão comum. Um telefonema de um conhecedor alertava-o para o facto de haver uma referência ao denário de Sanfins do Douro nas actas de um congresso de Numismática realizado três anos antes em Cádis, no Sul de Espanha. Num artigo assinado por Jose Compaña Prieto, Iñigo Bobo e Manuel Pina Lafuente, dava-se conta de “um novo denário das Guerras Civis de 68/68”. Os três espanhóis revelavam um total desconhecimento do estudo de Rui Centeno, mas ao analisarem o denário e outras dez moedas que o historiador depressa percebeu fazerem parte do tesouro de Sanfins deixaram no ar uma pista para a sua recuperação.

A realidade, porém, seria bem mais complicada. “Depressa mandei um email para um dos autores, dando conta de que essas moedas já tinham sido estudadas e que tinham sido roubadas em Portugal. Pedi colaboração para que ajudassem as autoridades a encontrar o coleccionador”, conta Rui Centeno. Apesar das insistências, os espanhóis diziam não saber do coleccionador e após algumas trocas de correspondência deixaram que o silêncio se abatesse sobre o assunto. Num artigo entretanto dedicado às moedas e ao seu desaparecimento, Rui Centeno transcrevia partes do estudo dos espanhóis e tornava mais claro o perfil do autor ou autores do roubo e o lugar onde venderam as moedas roubadas.

Na rota dos denários roubados

Ao contarem a história das moedas, os espanhóis notavam que tinham sido compradas “há uns 20 anos em Vitória (no País Basco), nos habituais mercadinhos dominicais de selos e moedas que se realizam na Praça de Espanha desta cidade”. Mais, as moedas foram vendidas por um “imigrante português que disse tê-las encontrado casualmente numa vasilha de cerâmica quando fazia trabalhos agrícolas na proximidade de uma ermida”. A partir desta descrição, tornara-se possível estabelecer um cenário para explicar o que aconteceu: “O roubo foi feito certamente por um emigrante português no final das férias de Verão. A rota pelo País Basco é a que os emigrantes em França normalmente usavam”, diz Rui Centeno. Joaquim Grácio subscreve esta tese. E Pedro Silva, inspector-chefe da Polícia Judiciária do Porto com responsabilidade na investigação dos roubos de bens artísticos e históricos, também.

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Verso e anverso das restantes moedas recuperadas pela PJ

A revelação das actas de Cádis seria ainda assim uma etapa crucial do processo que levaria à recuperação das moedas. Centeno suspeita de que a análise e o estudo que os três espanhóis fizeram em concreto sobre o denário de Galba era apenas uma encomenda do seu proprietário para determinar o seu valor de mercado. Por essa lógica, tarde ou cedo a moeda poderia aparecer nos leilões de antiguidades, de arqueologia ou de numismática. No final de Outubro de 2016, a previsão confirmou-se. “Estava a ver um site de leilões de numismática e surge aquela moeda”, conta Centeno. O preço-base de licitação estava fixado em sete mil euros. O leilão ocorreria apenas três semanas depois. Não havia tempo a perder.

Centeno prepara então um pequeno dossier sobre as moedas e pede a intervenção da Polícia Judiciária. A partir daí, o caso ficou nas mãos de Pedro Silva, um inspector com 15 anos de experiência no tráfico de droga e há anos responsável pelo departamento que coordena uma brigada de três homens especialmente treinados para crimes contra o património histórico e artístico. “O caso do furto estava prescrito, não havia nada a fazer. Mas a recuperação do património é uma actividade sempre em aberto”, diz Pedro Silva. De imediato, o inspector acciona o “ponto único de contacto” na sede da Polícia Judiciária, em Lisboa, dando-lhe conta do anúncio do leilão. O “ponto único” é afinal o agente especialmente vocacionado para fazer ligações internacionais em casos como os da recuperação de obras de arte ou património histórico roubado.

Estabelecido o contacto com uma agente em Madrid que assumia as mesmas funções de “ponto único de contacto”, o processo resolve-se rapidamente. “Um dia depois, a moeda tinha sido recuperada”, diz Pedro Silva. “Foi um processo extraordinariamente célere”, sublinha o inspector. Depois, havia apenas que esperar o cumprimento da convenção Unidroit, que regula as relações entre os estados em matéria de recuperação e devolução de bens culturais. Os estudos prévios de Rui Centeno sobre as moedas “marcaram a diferença neste caso”, diz Pedro Silva. A sua origem e propriedade puderam facilmente ser determinadas.

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Correm histórias de outros achados importantes nas terras em redor do santuário da Nossa Senhora da Piedade, em Sanfis do Douro Nelson Garrido

O caso estava prestes a ser resolvido. Para lá do denário de Galba, o coleccionador dispôs-se a entregar outras dez moedas do tesouro. O destino do resto da colecção permanece incerto. O bem essencial, porém, estava recuperado — as outras moedas estavam longe de ser tão valiosas. Os agentes espanhóis trataram então de proceder à sua devolução. O que aconteceria na embaixada de Portugal em Madrid, onde dois agentes da equipa de Pedro Silva se deslocaram. Depois, as peças foram entregues ao Ministério Público para decidir o seu destino. Por iniciativa da Direcção Regional da Cultura do Norte, acabaram por ser depositadas no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, em Braga.

Desfeito o mistério e recuperado o património, anuncia-se agora uma discussão sobre o destino final que as moedas hão-de ter. Fora de questão está a possibilidade de a Comissão de Festas de Sanfins reclamar a sua propriedade porque, como nota Pedro Silva, “a lei diz que tudo o que seja encontrado no subsolo tem de ficar na posse do Estado português”. Perante este cenário, Rui Centeno acredita que o depósito no museu de Braga é a solução ideal. “Têm de ficar num museu. Irem para Lisboa não fazia sentido, pelo que me parece que estão bem no museu D. Diogo de Sousa”, diz o investigador. Em Sanfins, e no Douro, a decisão está longe de ser bem vista. “Claro que em Sanfins não há condições de segurança para as acolher”, considera Joaquim Grácio. “Mas podiam ficar no Museu de Numismática de Vila Real”, diz o estudioso. Ou no Museu do Douro, na Régua, defendem outras personalidades da região.

Fique onde ficar, o denário de Galba regressará a uma existência muito parecida à que teve entre o final do século I e o dia em que uma enxada levantou um pequeno púcaro de barro, já lá vão 60 anos. Ou, olhando ao seu destino nos últimos anos, talvez não.  

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