Há dez anos que não se registavam tantos acidentes dentro das localidades

Fenómeno foi generalizado, mas maior dentro das localidades. Distracção causada pelos smartphones e mais motas em circulação são causas possíveis. Presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa diz que, nas localidades, solução pode passar pela imposição de velocidade máxima de 30km/h em algumas zonas.

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fvl fernando veludo n/factos

Os dados da Autoridade Nacional para a Segurança Rodoviária mostram que entre Janeiro e Novembro de 2008 e o mesmo período de 2017, os acidentes registados dentro das localidades aumentaram 12,5%. O movimento crescente intensificou-se em 2013, quando os acidentes passaram dos 20.809 para os 24.518. As colisões representam 54% destes acidentes. 

Dentro deste universo, no ano passado, registaram-se 4608 casos de atropelamentos, contra 4530 em 2016. No que diz respeito às colisões (7,6%) e os despistes (8,6%) também se verificou um aumento dentro das localidades.

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Segundo José Miguel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), o aumento da sinistralidade está relacionado com a distracção causada pela utilização dos smartphones que se vem a notar desde 2012 e, no último ano, com o aumento do volume de circulação de motociclos. Para o responsável, a mitigação dos riscos do uso de motas pode ser conseguida com uma “melhor formação dos condutores, organização do trânsito, consciencialização e infra-estruturas mais adequadas ao tipo de trânsito”. 

Numa entrevista à Antena 1, a 12 de Janeiro, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, também propunha várias estratégias para a redução destes números. No caso das motas, o ministro dizia que é preciso “repensar” a dispensa de formação para os condutores com carta de ligeiros que querem conduzir motas até 125cm3. Segundo os dados disponibilizados pela ANSR, o maior aumento das vítimas mortais em acidentes de mota verificou-se na categoria dos motociclos, ou seja, os veículos com mais de 50cm3 de cilindrada, sem distinção entre aqueles até 125 cm3 e os de cilindrada superior.     

Já quanto ao número de atropelamentos “absolutamente inaceitável”, Eduardo Cabrita defendeu a imposição de limites de velocidade de 30km/h dentro das localidades. 

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Para José Miguel Trigoso, a “gestão de velocidades no meio urbano é fundamental para garantir a segurança”. O especialista em prevenção rodoviária explica que “não me parece que vamos ter este limite em todas as áreas dentro das localidades”. Há que definir estes limites recorrendo a "critérios objectivos" e promover o seu cumprimento. Se a imposição for generalizada, não se cumpre. Por isso, a PRP vai “em breve” publicar um documento onde elenca os critérios objectivos para a definição da velocidade máxima em cada local.

O bairro de Campo de Ourique é um dos casos onde, pelas suas características, o limite devia ser os 30km/h, exemplifica o presidente da PRP. Mas há muitas outras zonas onde regra ainda podia ser aplicada.

Além do estabelecimento do limite de velocidade, José Miguel Trigoso também sugere que é preciso “tornar o ambiente rodoviário e a travessia de localidades por estradas nacionais mais segura”. Para isso, é preciso inspeccionar as vias e “sujeitar os projectos de alteração de vias a auditorias públicas”, pormenoriza o responsável da PRP.  

Acidentes em localidades já provocam mais mortes

Dentro das localidades, o aumento de acidentes entre 2016 e 2017 foi maior nas estradas municipais. Contudo, a maioria ainda acontece nos arruamentos (80%). Também é nas ruas dentro das cidades que há mais vítimas mortais.

No caso das mortes, o decréscimo que se verificava desde 2013 foi contrariado em 2017. No ano passado, a Autoridade Nacional para a Segurança Rodoviária contabilizou 296 vítimas mortais dentro das localidades. No caso dos acidentes, o número de mortes até ultrapassou os casos registados fora de localidades – pelo menos desde 2008 que o fenómeno não se verificava.  

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Ainda assim, a tendência global em relação às vítimas mortais dentro das localidades é de decréscimo do número de mortes e feridos graves (entre 2008 e 2017) e aumento dos feridos ligeiros. Fora das localidades, a propensão é para o decréscimo em todos os tipos de feridos.

Apesar de a Autoridade Nacional para a Segurança Rodoviária não disponibilizar dados sobre o veículo conduzido pelas vítimas em acidentes dentro e fora das localidades, o maior aumento global ocorreu no caso das vítimas mortais que circulavam em motas. Os números passaram de 72 para 118, entre 2016 e 2017. Quanto aos feridos graves, o aumento também foi maior entre os que circulavam em veículos de duas rodas (dos 460 para os 552).

Já no caso das vítimas que conduziam outro tipo de veículos ou circulavam a pé, o aumento foi menor e nalguns casos até houve diminuição (nos veículos ligeiros e pesados). Ainda assim, em termos absolutos os condutores de ligeiros ainda representam o maior número de vítimas.

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Ao nível europeu, “temos uma taxa de mortes por um milhão de habitantes que é inferior à média da União Europeia fora das localidades, mas dentro a taxa é superior”, detalha José Miguel Trigoso.

Só em Évora e Portalegre os números diminuem

Ao nível dos distritos, os dados da ANSR mostram que o número de acidentes só diminuiu em Évora entre 2016 e 2017, com um decréscimo de 8%, e em Portalegre, com uma diminuição de 4,2%. É também nestes dois territórios que se verificam os números mais baixos de sinistralidade.

Lisboa foi o distrito onde se contaram mais acidentes com vítimas no ano passado (7317). Contudo, foi em Setúbal que se verificou uma maior evolução relativa – 12,6% mais acidentes em 2017 do que em 2016.

Apesar de no Porto se terem registado menos acidentes do que em Lisboa, tanto no ano passado como no ano anterior, foi neste distrito que, em 2017, se contaram mais vítimas mortais. No que respeita aos feridos graves, foi em Santarém que se registou um maior aumento (39,6%).