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Vinte anos depois, os Jogos Sem Fronteiras não lhes saem da cabeça

Poucas horas antes de a gravação da final dos Jogos Sem Fronteiras de 1997 ter início, uma forte chuvada começou a cair em Lisboa. Logo de seguida vieram os relâmpagos. O cenário do programa estava montado junto ao Padrão dos Descobrimentos, mesmo à beira do Tejo. Para evitar eventuais acidentes, a produção decidiu adiar a gravação do programa por algumas horas. As filmagens, que deveriam ter terminado pela meia-noite, prolongaram-se quase até às cinco da manhã. Por essa hora a equipa da Amadora fazia a festa. Tinha conquistado a final dos Jogos Sem Fronteiras, a última que uma equipa portuguesa ganhou. No ano seguinte, Portugal participaria pela última vez. Dois anos depois, em 1999, o programa que marcou gerações de telespectadores na Europa terminava.

Vinte anos (e uns meses) mais tarde, José Lagoas fala deste programa de televisão com um prazer indisfarçável. Os Jogos Sem Fronteiras foram “a cereja no topo do bolo” da sua vida profissional, como professor de Educação Física. Começou como participante, em 1981, pela equipa de Lisboa, que representou o país na final em Belgrado, então capital da Jugoslávia. Na década de 1990 tornou-se treinador da equipa da Amadora e foi nessa posição que teve a possibilidade de segurar a taça conquistada na final de 1997.

A sua história segue em paralelo com a de Rui Pinheiro, também professor de Educação Física. Pinheiro também tentou integrar a equipa lisboeta de 1981 mas ficou pela equipa de demonstração – o grupo que testava os jogos e os executava para que os participantes oficiais entendessem a dinâmica das provas. No entanto, no ano seguinte, recebeu o convite para se tornar o coordenador das equipas dos Jogos Sem Fronteiras. Durante quase 20 anos teve a responsabilidade de percorrer o país e acompanhar as provas de selecção dos jovens que integraram as equipas de cada cidade e pôde testemunhar em primeira mão o entusiasmo que o programa de televisão suscitava nos participantes.

Patrícia Patrão e Rogério Meireles faziam parte dessa geração de jovens que sonhavam com os Jogos Sem Fronteiras. À segunda-feira as famílias juntavam-se em frente à televisão para ver como se portavam as equipas portuguesas a competir numa série de provas lúdicas mas fisicamente exigentes com cidades estrangeiras de nomes esquisitos – tão estranhos quanto Amadora ou Tomar seriam para um telespectador italiano ou húngaro. Patrícia e Rogério, ambos atletas – basquetebolista no caso dela, ginasta no caso dele – não hesitaram assim que souberam da oportunidade de participar. Entraram nas provas de selecção, foram escolhidos, treinaram com José Lagoas, e partiram para Budapeste, na Hungria, onde representaram a sua cidade, a Amadora. Na verdade, chegaram, viram e venceram. Foram das primeiras equipas portuguesas a competir nesse Verão de 1997 e, ainda que estivessem confiantes com o seu resultado, tiveram de aguardar pelas boas notícias.

Durante o Verão, as equipas das várias cidades europeias competiam em eliminatórias e, só no final, a organização conferia todos os resultados e anunciava qual a equipa com a melhor pontuação. Nesse ano, a Amadora tinha sido a melhor e, portanto, iria representar o país na grande final desse ano. A tal final à beira-rio, em Lisboa, que foi temperada por uma chuvada forte, e que terminou com os participantes da Amadora a levantar a taça. A quinta (e última) vitória de uma equipa portuguesa nos Jogos Sem Fronteiras, num total de 15 participações – um resultado que coloca o país no segundo lugar da tabela, apenas superado pela Alemanha, que venceu seis vezes.

Passaram 20 anos mas as memórias de cada um deles não se limitam a estar congeladas nas inúmeras fotografias que guardam escrupulosamente, nos recortes de revista ou mesmo nos apontamentos onde o treinador anotou os desafios de cada prova ou os pontos fortes e fracos dos participantes. É uma lembrança viva, bem-humorada e que unanimemente os leva a considerar que uma transposição para a actualidade poderia fazer sentido. Rui Pinheiro, o seleccionador, afirma categoricamente que “seria mais importante haver Jogos Sem Fronteiras hoje do que era na altura”. “Porque os países não se entendem”, desabafa.