Opinião

Luzes e sombras em vésperas do Ano Europeu do Património Cultural

Possa também em Portugal ser este o momento do nosso estremecimento colectivo.

O Ano Europeu do Património Cultural foi oficialmente lançado em Milão, durante o Fórum Europeu da Cultura. Discursos de circunstância, inflamados na sua irreverência de salão, testemunhos de jovens bem-sucedidos e muito fluentes nas técnicas de cativar audiências... E pronto. Nem mais seria de esperar daquele ali. Quando a apresentadora de serviço fez a ingénua pergunta sobre qual a origem profissional da audiência, descobriu-se como nela eram raros os artistas, os autores e bem assim todos os que se consomem, dia-a-dia e por dentro, no acto resistente e criativo de fazerem viver museus, teatros e demais casas de cultura (estariam certamente muito mais ocupados nessa labuta e também se calhar ninguém lhes pagaria para a viagem), e como abundavam os membros das tutelas públicas e os empresários das indústrias criativas. Houve excepções neste quadro, claro. Uma delas a intervenção vigorosa da secretária-geral da Europa Nostra, reclamando que se levantassem os militantes do Ano que está para começar: as três dezenas e meia de representantes de Organizações Não Governamentais do Património e dos Museus, que ali estávamos, cumprindo o nosso dever, mas com o pensamento e o instinto da acção postos noutra galáxia, aquela em que dias antes navegáramos quando a percorremos entre nós e quando fomos informados do primeiro Eurobarómetro sobre temas de Património Cultural, que vale mais do que mil discursos.

Sabíamos já do impacte económico deste sector: mais de 300 mil postos de trabalho directos e quase oito milhões indirectos (criação de até 26,7 empregos indirectos por cada um directo, quando no sector automóvel, por exemplo, essa taxa é de 6,3). Mas faltava-nos o principal, a sua dimensão cidadã, e é disto que trata este Eurobarómetro. Demonstra ele, expressivamente, o apego relativamente aos valores do Património Cultural, de que mais de quatro quintos dos respondentes dizem ter orgulho quanto aos do seu próprio país e mais de dois terços quanto aos de outros países. Dá depois também conta do envolvimento pessoal e cívico nestes domínios: mais de metade dos inquiridos visitaram monumentos, sítios ou museus no último ano — índices muitíssimo superiores aos da frequência da maior parte dos espectáculos de artes performativas. Comprova o poder do Património na promoção do conhecimento e da tolerância mútuas: ele constitui critério de escolha das férias para a maior parte, com especial relevo dos segmentos mais jovens, 72% da faixa compreendida entre 15 e 24 anos (contra 63% das idades acima de 65 anos), sendo que a Internet é já usada por mais de metade na preparação desses circuitos. Assinala-nos os bloqueios que ainda existem, dos quais sobressaem os da falta de tempo e do custo das entradas nos espaços patrimoniais. Aponta-nos enfim o caminho que os cidadãos gostariam ver seguido: ensino dos temas patrimoniais nas escolas (88% dos inquiridos) e maior investimento público em geral, 74%, contra apenas 14% que prefeririam maior investimento privado, o que também diz muito da percepção que se tem da natureza destes bens.

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E Portugal, como surge neste retrato? Bom, sem prejuízo de análise mais aprofundada, tendo em conta nomeadamente as variáveis geracionais e de género, níveis de literacia, inserção profissional, capacidade económica, local de residência, etc., que os dados brutos disponíveis permitem alcançar, poderíamos dizer que detectamos também aqui aquela irritante esquizofrenia que nos esquarteja entre o primeiro mundo, quanto ao discurso proclamatório, e o terceiro mundo, quanto à prática efectiva. Com efeito, e atendendo apenas aos indicadores em que saímos da média, situando-nos nos dois quartis opostos, verificamos que nos destacamos pela positiva quanto a considerar que o Património Cultural representa elemento essencial da identidade nacional e constitui barreira à globalização (à frente de nós apenas os gregos, no primeiro caso, e os malteses, no segundo), que cria emprego e confere qualidade de vida, que deveria ser ensinado nas escolas e mais financiado pelo Estado. Mas depois, em muito maior número de indicadores, ocupamos o fundo das tabelas: somos os últimos, ou dos últimos, em todos os parâmetros relacionados com o envolvimento activo no Património (participação em actividades e movimentos sociais, voluntariado e contribuição em dinheiro ou espécie...), somos os últimos na visita a locais patrimoniais e museus (com alguns progressos relativamente ao Eurobarómetro de 2013 sobre práticas culturais, mas ainda assim novamente os últimos)... mas, pasme-se, somos os primeiros a indicar que não frequentamos esses locais por falta de tempo (pretexto cuja sinceridade se mede por sermos também dos que mais assumem claramente a falta de interesse em tais programas).

Ou seja, estamos na vanguarda no plano do discurso e da reivindicação para que outros façam; e estamos na retaguarda quando se trata de efectivamente fazer. Quem tem culpa de tal estado de coisas? A quem atribuir a vergonha de sermos o povo que menos visita museus ou o que menos considera os bens patrimoniais no planeamento de férias? Às políticas governativas ou autárquicas das últimas décadas, as quais, passado o impulso dado pelo “dia inicial inteiro e limpo” do qual nasceram cerca de 200 Associações de Defesa do Património, se rendem cada vez mais ao mercantilismo (“quem quer cultura, paga”)? Sim, elas pouco ou nada têm ajudado a corrigir este terceiro mundismo quase endémico. Mas não nos iludamos: a culpa mora principalmente em nós, seja este nós “o povo”, sejam os que dele nos consideramos intelectuais e nos encapsulamos prazerosamente nos poucos bares onde todos nos conhecemos, todos (mal)dizemos e pouco fazemos. Poderá a coisa mudar um dia? Diríamos que sim, com o optimismo que a militância associativa e cívica nos manda ter. E talvez a gazua esteja na introdução do ensino para o Património Cultural nas escolas, ambição de 93% dos respondentes portugueses, que neste particular dão cartas.

No imediato, temos então este Ano Europeu, que ficará certamente marcado por centenas ou milhares de iniciativas, que as administrações públicas do Património Cultural se encarregarão de promover ou apenas de parasitar, oferecendo diligentemente plataformas de divulgação. Serão na maior parte ocorrências avulsas e fugazes, que pouco terão de europeu. No plano nacional, a sua validação será feita por coordenadores nomeados pelos governos. No plano da UE e para acções no quadro de programas existentes, as direcções-gerais respectivas sancionarão o que entendam. Mas no plano da cidadania europeia, serão as ONGs reunidas no conselho das “Vozes da Cultura” que asseguram a certificação das actividades propostas — e esperam que as mesmas explorem audaciosamente as quatro linhas estratégicas que verdadeiramente poderão projectar o Ano para além dele mesmo: envolvimento cidadão, sustentabilidade ambiental e social, protecção contra as forças do camartelo e do tráfico, inovação entendida como ciência cidadã. Neste quadro, faremos com que os sinos dobrem em toda a UE, em prol do Património; acenderemos tochas que percorrerão regiões e países, entoaremos em uníssono o Hino à Alegria, promoveremos debates e acções de lóbi... Enfim, não ficaremos parados. Possa também em Portugal ser este o momento do nosso estremecimento colectivo e que dele fique não apenas a fugacidade dos “eventos”, mas alguma potencial semente de futuro. Membro do Comité de Partes Interessadas (“Vozes da Cultura”) do Ano Europeu do Património Cultural, em representação da Aliança Europeia do Conselho Internacional de Museus