Crítica

É sempre a mesma galáxia

A primeira coisa de que é preciso dar conta, sobre Star Wars: Os Últimos Jedi: a terrível sensação de claustrofobia — aquela sensação de claustrofobia intensa que só as coisas muito aborrecidas proporcionam.

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Há um limite para a quantidade de diálogos infantis (quando não são as mesmas tiradas de há 40 anos sobre “a Força” e o “lado negro”) que se consegue suportar
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Filmes destes começam a ser incriticáveis, porque entre o “acontecimento”, comercial em primeiro lugar e jornalístico em sequência, e a expectativa dos “fãs”, que esperam por ele como um católico pela missa dominical, sobra pouco espaço, e o espaço que sobra é até um tanto incómodo (é verificar as caixas de comentários), para que se fale do Star Wars: Os Últimos Jedi pelo que ele é — um filme como qualquer outro. A posição mais sensata seria dar palmadinhas nas costas a todos os envolvidos, dar os parabéns aos “fãs”, dizer que isto é tudo muito giro, um belo espectáculo, e continuar sem perder mais tempo nem ter mais chatices.

É uma hipótese que a priori até nos passa pela cabeça, mas sem ver o filme é mais fácil considerá-la. A posteriori, a primeira coisa de que é preciso dar conta é da terrível sensação de claustrofobia — aquela sensação de claustrofobia intensa que só as coisas muito aborrecidas proporcionam — que toma conta do espectador ao fim de meia hora, quando parece que já passou muito mais tempo do que meia hora mas não, foi só meia hora, e portanto ainda faltam mais duas horas.

Há um limite para a quantidade de naves a explodir, de efeitos de CGI espalhafatosos e sem graça, que uma pessoa consegue suportar num período relativamente reduzido de tempo. Mas, sobretudo, há um limite para a quantidade de diálogos infantis e penosamente explicativos (quando não são as mesmas tiradas de há 40 anos sobre “a Força” e o “lado negro” e demais folclore característico os diálogos são um manual de instruções para o espectador, ao género “agora fizemos isto e a seguir vamos fazer aquilo porque entretanto aqueloutro está a acontecer”) que se consegue suportar num período relativamente reduzido de tempo. Mais ainda, para a quantidade de planos filmados e montados de qualquer maneira, sem qualquer espécie de lógica ou razão dramática ou estética, e pior, o que é espantoso num filme de “acção”, completamente cegos à acção propriamente dita (quer dizer, uma coisa com um mínimo de continuum, de duração, causa e consequência). Um exemplo disto? Um momento em que aquilo que até parece que vai respirar, numa luta de sabres de luz entre dois protagonistas (Adam Driver, que depois do Paterson estamos sempre à espera que vá começar a recitar um poema, e Daisy Ridley) e um enxame de stormtroopers, dado em plano geral e com um colorido bastante curioso, quase “musical” (desde logo, o fundo vermelho berrante do cenário).

E quando se pensa que esta cena até pode ter piada que acontece a seguir? Rian Johnson corta para longe dali, porque noutro ponto qualquer da galáxia está a acontecer algum diálogo de extrema importância que é absolutamente imprescindível reproduzir naquele momento. Ora, bolas, escapa-se-nos quase em voz alta. Mas essa interjeição resume, economicamente, o que há a dizer sobre o filme: “ora, bolas”. No resto, parabéns a todos os envolvidos, isto é tudo muito giro, um belo espectáculo — para “fãs”.