Portugal é o quinto país que tem mais bebés nascidos com baixo peso

O número de bebés com menos de 2500 gramas nascidos em Portugal cresceu 59% em 25 anos, muito acima da OCDE. Aumento dos partos de bebés prematuros, a idade e doenças maternas são alguns dos factores que ajudam a explicar a situação.

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Nelson Garrido

Portugal é o 5.º país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) com mais bebés nascidos abaixo de 2500 gramas, considerado o limiar de baixo peso. Estes bebés representam 8,9% do total de nascimentos. Só a Indonésia (11,1%), Colômbia (9,5%), Japão (9,5%) e Grécia (9,2%) ultrapassam esta percentagem, de acordo com o relatório Health at a Glance 2017, divulgado nesta sexta-feira. Nesta análise comparam-se dados de 2015, relativos a 42 países.

De acordo com o estudo, um em cada 15 bebés nascidos em 2015, na OCDE, tinha menos de 2500 gramas — o que representa 6,5% de todos os nascimentos (nados-vivos).

Entre 1990 e 2015 registou-se, em quase todos os países, um crescimento do número de bebés com baixo peso, “sobretudo por causa do aumento dos partos prematuros”. Mas em alguns a linha ascendente foi mais acentuada: “Coreia, Espanha, Portugal, Grécia e Japão registaram grandes aumentos (50% ou mais) de nascimentos de bebés de baixo peso desde 1990”, destaca a OCDE. No caso de Portugal o crescimento foi de 59% entre 1990 e 2015 e em Espanha, país vizinho, foi ainda maior: 76%. Globalmente, na OCDE, o aumento foi de 15%.

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Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, aponta alguns factores que justificam o nascimento de bebés de baixo peso, como o aumento dos partos prematuros e doenças maternas.

“A idade materna é cada vez mais avançada e portanto mulheres de 40 anos têm menor probabilidade de fazer o bebé desenvolver-se dentro do útero do que mulheres de 30. Por outro lado, o aumento da idade leva a que haja mais patologia associada à gravidez, nomeadamente hipertensão, diabetes que podem também levar a que tenha de se interromper a gravidez mais cedo por motivos de saúde materna ou crescimento fetal”, começa por explicar o obstetra. Há há outros factores. “Há muitas mulheres que são doentes com insuficiência renal, lúpus, artrite reumatóide e que há 15 anos não engravidariam e agora têm filhos. Esses bebés também têm um crescimento comprometido. O lúpus, por exemplo, está muitas vezes associado a hipertensão na gravidez, que é um factor de restrição de crescimento.”

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Estas são justificações que o relatório da OCDE aponta e do qual fazem parte mais duas que o médico destaca: “O uso de técnicas para assistir o parto, como a indução e a cesariana, aumentaram a taxa de sobrevivência de bebés de baixo peso, o que também pode explicar este crescimento. Há um outro factor a que o relatório faz referência, mas apenas para os Estados Unidos, que é o facto de as mulheres africanas terem mais bebés de baixo peso. Nos últimos 15 anos a taxa de nascimentos em Portugal de mulheres africanas e brasileiras aumentou significativamente e este poderá ser um factor a ponderar.”

A OCDE faz também referência às técnicas de procriação medicamente assistida (PMA), que têm permitido que mulheres mais velhas sejam mães, sendo a idade um factor para a prematuridade. Segundo o último relatório do Conselho Nacional de PMA, apresentado recentemente, em 2015 nasceram em Portugal 2504 crianças como resultado do uso das várias técnicas de PMA, o que representou 2,9% do número total de nascimentos nesse ano.

Demência e envelhecimento

O relatório da OCDE faz ainda uma análise ao envelhecimento da população e à qualidade de saúde da mesma. Um dos indicadores usados é a prevalência de demências. E Portugal também se destaca aqui, ao ter uma das prevalências mais altas: 20 casos em cada mil pessoas, quando a média da OCDE é de 15 por cada mil habitantes. O país só é ultrapassado pela Alemanha, Itália e Japão (este último apresenta o valor mais alto de demência, perto de 25 casos por mil habitantes). No extremo oposto estão o México, a Turquia e a Eslováquia, com menos de nove doentes por mil habitantes.

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O envelhecimento da população tornará a demência mais comum. E os países “com um envelhecimento mais rápido verão esta prevalência mais do que duplicar nos próximos 20 anos”, refere-se. Uma realidade que Portugal poderá enfrentar, tendo em conta que se estima que aqui — tal como no Japão, Espanha, Grécia e Coreia —, cerca de 40% da população terá mais de 65 anos em 2050.

No capítulo dedicado ao envelhecimento, os cuidados prestados aos mais velhos são analisados. “A média da OCDE mostra que 13% das pessoas com mais de 65 anos recebem cuidados de longa duração. Uma percentagem que varia entre os 2% em Portugal e os 6% da Estónia e os mais de 20% de Israel e Suíça”, aponta o estudo. A família e os amigos, os chamados “cuidadores informais”, são a fonte de apoio mais importante.