Minorias protestantes em Portugal formam um puzzle em contínuo crescimento

São mais homens do que mulheres, têm menos de 35 anos, pouca escolaridade e concentram-se na Grande Lisboa, em Setúbal e no Algarve. Eis um retrato a la minuta das minorias protestantes que começaram a ganhar corpo em Portugal no século XIX, por influência inglesa.

Foto
As neopentecostais Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Maná são herdeiras da reforma do século XVI são ainda Paulo Pimenta

Calculando-se que congreguem quase 5% dos que em Portugal se declaram religiosos, as igrejas protestantes em Portugal subdividem-se num intrincado puzzle de peças que nem sempre encaixam umas nas outras. “É uma minoria muito plural, com fronteiras pouco claras”, introduz o historiador Luis Aguiar Santos. A socióloga Helena Vilaça mediu-lhes ainda assim o pulso e, num trabalho sobre as novas paisagens religiosas em Portugal que publicou em 2013, conta que 62% dos protestantes se concentram na Área Metropolitana de Lisboa.

Entre os crentes, mais de metade tem menos de 35 anos. E, além do congregarem mais homens do que mulheres, estes grupos são menos escolarizados do que os católicos: apenas 7,9% chegaram à universidade. A explicação para tudo isto é simples: o crescimento destas igrejas em Portugal fez-se ao compasso da entrada de novos imigrantes, sobretudo os provenientes do Brasil e dos países africanos de língua oficial portuguesa, o que, já agora, ajuda também a perceber o seu peso no Algarve, onde se concentram mais de 14% dos que professam o cristianismo reformado.

Reconstituir o puzzle da presença protestante em Portugal é um exercício muitíssimo arriscado, desde logo porque aquela se compõe “de uma minoria muito plural de igrejas que, em muitos casos, não se reconhecem entre si como representantes de um protestantismo puro e que se vêem como concorrentes”, explica Luís Aguiar Santos, que foi um dos co-autores da História Religiosa de Portugal (Circulo de Leitores, 2000-2002). Isto ocorre, acrescenta, porque “a realidade protestante em Portugal é feita historicamente de muitas camadas”.

Na camada mais antiga, inscrevem-se os metodistas, os presbiterianos e os lusitanos. Agregados desde 1971 no Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic), representam o protestantismo de raiz europeia, de tendência ecuménica. “Dentro do protestantismo em Portugal, são um grupo minoritário”, situa o antropólogo Alfredo Teixeira, coordenador do último grande estudo sobre Identidades Religiosas em Portugal, datado de 2011.  

Nas camadas mais recentes, convivem as muito mais efusivas e representativas igrejas pentecostais, cujas principais denominações se agrupam sob o mesmo chapéu da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) e que vão dos baptistas aos membros das Assembleias de Deus, passando pela Igreja dos Irmãos, também chamados de darbistas.

Fora do mainstream protestante

Mas a presença religiosa de raiz protestante não se esgota aqui. Herdeiras da reforma do século XVI são ainda as neopentecostais Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e Igreja Maná que comungam da chamada teologia da prosperidade. São grupos mais recentes e, comparativamente com as igrejas mais antigas, mostram-se “mais aguerridos e com uma cultura de maior tensão com o meio”, aponta Aguiar Santos. Helena Vilaça acrescenta-lhes um terceiro denominador comum: “A secularização das normas de conduta e o recurso a todos os meios de comunicação social como factor imprescindível à difusão da mensagem”.

Nem uma nem outra se reclamam como parte da constelação protestante; são, aliás, excluídas pelas duas principais famílias protestantes representadas pelo Copic e pela AEP. “Há uma rejeição clara de alguns rituais como os que na IURD se fazem para expulsar os demónios ou as forças maléficas. Para um protestante histórico, e mesmo para alguns evangélicos, isso é tido quase como um paganismo, como algo que foi trazido de um catolicismo mais popular e menos esclarecido”, explica Luís Aguiar Santos. O antropólogo Alfredo Teixeira confirma que “aquela relação muito directa entre salvação e sucesso social, traduzível em aspectos como enriquecimento, bem-estar e saúde, incomoda as outras igrejas”. 

Para complicar este exercício, os especialistas chamam ainda ao universo protestante o grupo nada negligenciável das Testemunhas de Jeová, que representa 1,3% da população portuguesa que se diz cristã, e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (os chamados mórmons), além dos Adventistas do Sétimo Dia. “Todas estas igrejas, de tipo milenarista ou apocalíptico, que não se consideram protestantes, são derivadíssimas do protestantismo”, afiança Luís Aguiar Santos. Para Alfredo Teixeira, estes grupos estão “na periferia do protestantismo”: “Não fazendo parte do mainstream protestante, emergem no mesmo contexto de pluralização religiosa." O que as faz separa é o facto de se organizarem em torno da perspectiva de um fim do mundo iminente.

Influência inglesa

Nada desta presença protestante em Portugal resulta de uma dissidência religiosa endógena. “O impacto da reforma protestante no século XVI foi nulo em Portugal”, recua Luís Aguiar Santos, para lembrar que “a sua influência fez-se sentir sobretudo a partir do século XIX através dos ingleses” que residiam no país. A Sociedade Bíblica, que tinha sido fundada em Inglaterra no início do século para traduzir a bíblia em todas as línguas, estabelece uma agência em Portugal em 1864. Apesar de o Código Penal penalizar então os actos de proselitismo, Luis Aguiar Santos não se lembra de qualquer caso de condenação judicial de protestantes. As primeiras igrejas nacionais, as do chamado protestantismo histórico, começam então a implantar-se nas áreas de maior presença britânica: Lisboa e Porto.

Mas é de 1974 em diante que a liberdade política resultante do 25 de Abril permite “uma enorme ampliação do espectro religioso”, escreve Teresa Líbano Monteiro, no seu estudo sobre dinâmica social e religião. As Testemunhas de Jeová, que atravessaram o Estado Novo sob proscrição, reivindicaram o direito de exercer livremente a sua actividade. Em meados dos anos 80, a IURD começa a reforçar a sua presença, num crescendo que teve o seu apogeu na tentativa falhada de compra do Coliseu do Porto, em 1995.

Recuando algumas décadas, Alfredo Teixeira nota que o crescimento do protestantismo se deu pela multiplicação das “igrejas evangélicas de recorte pentecostal”. E estas continuam a crescer, tanto na América Latina como nas sociedades europeias, "nas bolsas do catolicismo tradicional”, atenta.

A disseminação destas igrejas obedece ao princípio da divisão celular. “Uma igreja que se constitui num lugar pode dar lugar a outras, às vezes com nomes diferentes, numa lógica de aliança ou de dissidência entre pastores”. Sem nenhuma instância sinodal ou organizativa, “algumas  nascem num núcleo familiar: é o pastor, a mulher e os seus filhos. Mas depois começam a chegar outros familiares, colegas de trabalho…”. E isto alicerça-se, diz Teixeira, “numa dinâmica de angariação de novos membros sem qualquer paralelo na Igreja Católica”.

Por tudo isto, fazer a georreferenciação destas igrejas é tarefa impossível com os actuais instrumentos de medição: “Ligamos para locais registados como comunidades religiosas e aparece-nos uma garagem de automóveis. O facto de não precisarem de locais de culto próprio, com uma arquitectura específica, não ajuda. Alugam o que está disponível ou é mais barato e rapidamente mudam de lugar.”

A referência mais recente que o PÚBLICO encontrou recua a 2010. Nesse ano, a investigadora Teresa Líbano Monteiro contava 1065 templos protestantes/evangélicos, sem contar com os 122 dos Adventistas do Sétimo Dia, os 84 das Testemunhas de Jeová, os 49 da Igreja Maná e os 64 templos mórmons. Pouco depois, o estudo coordenado por Alfredo Teixeira revelaria que “62% dos que se identificaram como protestantes e evangélicos estão na Grande Lisboa e na Península de Setúbal”. E, em 2013, Helena Vilaça apontava ainda uma concentração de 14,4% de protestantes/evangélicos no Algarve. “A região é foco de atracção de mão-de-obra imigrante para a construção de complexos turísticos e induz a fixação de residentes estrangeiros”, explicava então.

Erosão católica vai continuar

Quanto à origem, 60% dos protestantes-evangélicos nasceram em Portugal. E cerca de metade dos que vieram de outro lugar é originária do Brasil ou de países africanos de língua portuguesa, segundo Vilaça. A relevância da imigração nestes grupos mede-se no claro predomínio de homens sobre as mulheres – no catolicismo é o oposto. E enquanto a pertença católica aumenta com a idade dos inquiridos, mais de 63,7% dos protestantes evangélicos situam-se na faixa etária com menos de 35 anos, sendo que 20,3% são trabalhadores não qualificados e 26,1% repartem-se entre o pessoal dos serviços e vendedores. 

“Não devemos parar na evidência de que é um grupo minoritário na sociedade portuguesa”, alerta Teixeira, antecipando um agravamento da erosão do hegemonismo católico. A dúvida deste investigador é se a ágil disseminação destas igrejas no espaço português jogará contra a sua posteridade no tempo. “Alterando-se os quadros de vulnerabilidade das pessoas onde estas igrejas se estendem, oferecendo experiências de integração e suporte existencial, não consigo perceber se terão capacidade de subsistir”, questiona. Resta-lhe, porém, uma certeza: “No inquérito de 2011, quase 80% dos portugueses declararam-se católicos e hoje nenhuma sociedade é 80% do que quer que seja."