A jornalista que quis contar as histórias do vinho português

Ana Sofia Fonseca é a realizadora de Setembro A Vida Inteira, o documentário que vai apresentar o lado mais intimista do vinho português. A estreia em Portugal está marcada para Março de 2018.

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Miguel Manso
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Frame do documentário Setembro a Vida Inteira DR
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O universo de histórias de Ana Sofia Fonseca, jornalista de profissão, sempre foi muito diverso. Das reportagens sobre direitos humanos aos livros publicados sobre vinho, a vertente mais documental do trabalho nunca saiu verdadeiramente de cena, fosse qual fosse o tema. Talvez por isso o documentário Setembro A Vida Inteira  apareça de uma forma tão natural no percurso desta jornalista, agora também realizadora. O filme, que vai estrear-se a 11 de Novembro no Most (The International Wine & Cava Film Festival), em Barcelona, apenas chegará a Portugal no próximo ano. Até lá, fica a certeza de que “as vidas das pessoas” vão ser o “passaporte para o universo do vinho” neste documentário.

“A riqueza do mundo é a diversidade. Eu gosto de contar histórias sejam elas de onde forem”, diz Ana Sofia Fonseca à Fugas. Apesar de negar estar “presa” a determinadas áreas, o lado mais intimista e humano nas reportagens levou-a criar uma imagem de marca enquanto jornalista. “Não consigo estar fechada num tema. Gosto de ser repórter para poder experienciar, descobrir e dar voz a diferentes realidades”, explica. No entanto, em 2003, seria difícil imaginar a então jornalista de 20 anos, em início de carreira, a escrever histórias sobre vinho — “Começou totalmente por acaso”.

Acabada de sair da universidade, Ana Sofia Fonseca “escapou” ao baile de finalistas para viajar, nesse mesmo dia, com uma amiga fotógrafa para o Quénia. A missão parecia simples: encontrar histórias. A profecia cumpriu-se. Chegada a Portugal, a recém-licenciada em Comunicação Social, “com vontade de mudar o mundo”, vinha com duas histórias na mala de viagem: uma sobre mutilação genital feminina e outra sobre um grupo de prostitutas imunes ao vírus do VIH. Convencer alguma empresa de comunicação social a publicar as reportagens foi a tarefa mais difícil. “Não conhecia ninguém e não sabia o que havia de fazer com aquilo”, recorda a jornalista.

O tempo revelou-se o seu melhor amigo. Esperou alguns meses e, mais tarde, teve reuniões com a revista do semanário Expresso — hoje trabalha na SIC — e, mais tarde, com a extinta revista mensal Grande Reportagem. Esta última aceitou a proposta de Ana Sofia Fonseca e decidiu publicar as histórias. “Aos 20 anos era o meu sítio de sonho, eu queria escrever naquela revista”, diz à Fugas, confessando que, ao final de cada mês, ia todos os dias ao quiosque para saber se já tinham recebido a Grande Reportagem. “Quando vi aquilo publicado, foi uma sensação muito forte. Não sei se boa ou má, mas muito intensa”, relembra.

Foi nos direitos humanos que se apoiou, muitas vezes, para contar as histórias a que queria dar voz. Mas certo dia quis o destino trocar-lhe as voltas. “Fui convidada para participar numa colecção de livros, em que cada um era uma reportagem. Levei as minhas ideias relacionadas com direitos humanos e, mais propriamente, sobre direitos das mulheres. Não sei como, saí da reunião a querer escrever um livro sobre o Barca Velha [vinho]”, conta Ana Sofia.

Descobriu histórias de amores, crimes e intrigas sobre aquele tão conhecido vinho português. E a partir desse momento o seu faro jornalístico nunca mais se desligou. Para escrever o livro Barca Velha, Histórias de um vinho - Desde 1952, publicado em 2012, passou longas temporadas no Douro e conversou com muitas pessoas. Uma delas foi Maria Luísa Olazabal, da Quinta do Vale do Meão, a quem Ana Sofia Fonseca convenceu a ir ao próprio sótão de casa, onde a entrevistada não entrava há muitos anos. “Cheio de pó, cheio de teias de aranha, com umas entradas de luz incríveis. Ela [Maria Luísa] a dizer-me: ‘Olhe para isto tudo’. Desde vestidos das netas e das filhas de D. Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, até à retrete de campanha, aquilo era um museu vivo.” Naquele momento, a jornalista pensou: “Isto é a imagem de um filme”. Ali nasceu o documentário Setembro A Vida Inteira.

Passaram mais uns anos e em Setembro de 2015 começou a rodagem. Será escusado dizer que a casa da família Olazabal foi um dos pontos de passagem do filme. A esta juntaram-se mais sete famílias vinícolas, mas também entrevistados muito diferentes entre si: os monges da Cartuxa — nas suas caves repousam alguns dos vinhos da Fundação Eugénio de Almeida —, grupos de reclusos que cuidam de cepas entre Setúbal e o Alentejo e Dirk Niepoort, empresário vinícola e figura de renome no sector. “Não é um filme sobre vinho, é um filme com vidas dentro, com intimidade”, explica a realizadora.

Ana Sofia Fonseca não quis cair na redundância de falar apenas com os responsáveis de alguns vinhos portugueses — por achar demasiado redutor e também injusto. Da mesma forma, pretendeu desmistificar o cliché visual de alguém a “colocar o nariz num copo de vinho”. “O vinho não existiria sem quem trabalha na adega e na vinha”, acrescenta. O nome do documentário pareceu-lhe o mais apropriado, porque para aquelas pessoas “o mês de Setembro comanda a vida”, ou, como diz o dito popular, “a vida conta-se pelas vindimas”.

A jornalista que nunca pensou em trabalhar em televisão ou fazer documentários afirma que não fez um filme para o sector. “Ficaria muito triste se o filme fosse visto apenas por gente ligada ao vinho.” Da vontade de saber mais sobre um copo de vinho (a terra, as histórias, as pessoas), Ana Sofia quis levar o documentário a bom porto, esperando que os espectadores sejam tão diversos quanto as histórias que conta em imagens, palavras e sons em Setembro A Vida Inteira. “Como disse muitas vezes na rodagem: ‘Aqui a alquimia [do vinho] são as histórias’”, conclui.