A francesa Audrey Azoulay é a nova directora-geral da UNESCO

A ex-ministra da Cultura francesa bateu pela margem mínima o seu rival do Qatar na quinta e última votação.

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Audrey Azoulay Philippe Wojazer/ REUTERS

A ex-ministra francesa da Cultura Audrey Azoulay tornou-se esta sexta-feira a nova directora-geral da UNESCO, após ter batido o ex-ministro da Cultura qatari Hamad bin Abdulaziz Al-Kawari por 30 votos contra 28 na quinta e derradeira ronda de votos.

Neta de uma judia sefardita e filha de um conselheiro do rei de Marrocos, Azoulay entrou na corrida à última hora, mas acabou por ser escolhida para suceder à búlgara Irina Bokova num momento particularmente difícil da história desta organização das Nações Unidas, com a administração de Donald Trump a anunciar que os Estados Unidos vão abandonar o barco e o governo de Israel a ameaçar seguir o exemplo

O cenário, que ainda ontem parecia francamente plausível, de o próximo director-geral da UNESCO ser um árabe – Hamad bin Abdulaziz Al-Kawari vencera a quarta ronda com 22 votos contra 18 de Azoulay e outros tantos da egípcia Moushira Khattab –, terá contribuído para a decisão dos Estados Unidos, comunicada a Irina Bokova pelo secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson, que acusou a organização de um “enviesamento anti-Israel”.

Mas após ter vencido a candidata egípcia, já esta sexta-feira, numa votação prévia para decidir quem defrontaria o político e diplomata do Qatar no duelo final, Audrey Azoulay, de 45 anos, acabou mesmo por ser eleita directora-geral da UNESCO. Tendo em conta que só apresentou a sua candidatura em Março passado, e que só em Maio, quando foi substituída por Françoise Nyssen nas funções de ministra da Cultura, começou verdadeiramente a fazer campanha, o seu percurso vitorioso não deixa de ser notável, ainda que tenha beneficiado de algumas circunstâncias favoráveis, como o isolamento a que a Arábia Saudita e outros países do Golfo estão a votar o Qatar, descontentes com a sua aproximação ao Irão, e acusando-o de apoiar grupos terroristas. Uma crise que pode bem ter custado alguns votos a Hamad bin Abdulaziz Al-Kawari.

Quando François Hollande anunciou a entrada tardia da França na corrida, lançando a sua ministra da Cultura, a decisão foi sentida como uma provocação no mundo árabe, onde a vitória do experiente político do Qatar era já dada como certa. Já com o governo de Emmanuel Macron em funções, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês chegou mesmo a receber uma petição de meia centena de intelectuais árabes, apelando à desistência de Azoulay. “É a relação estreita da França com o mundo árabe que François Hollande pôs em risco com este presente à Sra. Azoulay”, afirmou então o conhecido escritor egípcio Mohamed Salmawy. 

“Não é a vez dos países árabes, nem é a vez da França, mas a vez da UNESCO, que está numa encruzilhada da sua história e deve preparar-se para o século XXI”, replicou Azoulay, que está decidida a construir consensos e acena com o seu próprio património familiar para mostrar que a convivência entre judeus e árabes é possível.

Para já, espera-a a tarefa de persuadir os Estados Unidos e Israel a reverem a sua posição de deixar a UNESCO. Já em 2011, o reconhecimento da Palestina como Estado-membro da organização levara os governos norte-americano e israelita a cortar o seu financiamento, e a direcção de Irina Bokova daria outros motivos de irritação a ambos os países nos anos seguintes, como a resolução de Outubro de 2016 que condenou expressamente as políticas israelitas relativas ao complexo da Mesquita al-Aqsa, em Jerusalém, ou a recente decisão de incluir a cidade velha de Hebron, na Cisjordânia, na lista de património mundial ao mesmo tempo que a punha na lista do património em risco. 

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