Crítica

Talentos em ascensão no Festival Jovens Músicos

André Gaio Pereira, Prémio Maestro Silva Pereira–Jovem Músico do Ano, impressionou pelos seus dotes virtuosísticos; Inês Badalo, Prémio de Composição SPA/Antena 2, estreou Entropia, uma grata surpresa.

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Coube ao violonista André Gaio Pereira o Prémio Maestro Silva Pereira–Jovem Músico do Ano DR
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Inês Badalo recebeu o Prémio de Composição SPA/Antena 2 DR

Terminou no passado sábado, na Gulbenkian, mais um Festival Jovens Músicos, durante o qual o público pôde tomar contacto com os intérpretes distinguidos nas várias categorias que estiveram a concurso na 31.ª edição do Prémio Jovens Músicos, promovido pela Antena 2. O ambiente de festa e o entusiasmo do público caracterizaram mais uma vez esta iniciativa, coordenada pelo compositor Luís Tinoco e ilustrativa da crescente qualidade técnica e artística que as novas gerações de músicos portugueses atingiram nos último anos.

Entre os solistas laureados — José Miguel Canada (tuba), Luís Duarte Moreira (trompa), Cecília Rodrigues (canto), João Robim (guitarra), Pedro Figueiredo (contrabaixo) e André Gaio Pereira (violino) —, o Prémio Maestro Silva Pereira–Jovem Músico do Ano coube ao último nome da lista. Como tal, André Gaio Pereira assumiu o protagonismo no concerto de encerramento, interpretando com desenvoltura e apurada sensibilidade, face aos ambientes fortemente contrastantes da obra, o exigente Concerto para Violino nº1, de Shostakovich, sob a batuta de Nuno Coelho, premiado em 2016 na categoria de direcção de orquestra e recentemente finalista do Nestlé and Salzburg Festival Young Conductors Award. Com 23 anos, André Pereira frequenta o mestrado em Performance na Royal Academy of Music de Londres e já tinha sido vencedor do Prémio Jovens Músicos em 2010, na categoria de Nível Médio, repetindo agora a proeza no Nível Superior.

No concerto final foi ainda apresentada em primeira audição mundial a obra Entropia, da compositora e guitarrista luso-espanhola Inês Badalo (n. 1989), distinguida com o Prémio de Composição SPA/Antena 2, e o Concerto para Flauta, de Alexandre Delgado, com Nuno Inácio como solista. Também neste caso, o compositor e o flautista foram no passado vencedores do Prémio Jovens Músicos (Delgado, na qualidade de violetista), representando assim as gerações precedentes. Apesar de ser uma obra da fase inicial da carreira de Alexandre Delgado, o Concerto para Flauta ostenta já a distintiva marca pessoal do compositor num diálogo aberto e descomplexado com a herança de tradições musicais do passado. Uma linguagem própria que se caracteriza por uma escrita minuciosa e idiomática para os instrumentos e pelo fino e variado recorte rítmico e dinâmico, mas também por traços de lirismo, como sucede no andamento lento. A teatralidade peculiar ao género do concerto sobressai também na interacção entre solista e orquestra, bem defendida por Nuno Inácio e pela Orquestra Gulbenkian, sob a direcção atenta de Nuno Coelho.

Iniciando-se com uma célula que vai germinando na percussão e nos conduz a um ambiente de aparente desordem, cujos gestos e efeitos musicais convergem depois para um todo orgânico em que as diferentes linhas e texturas parecem encaixar num mecanismo rigorosamente articulado, a obra Entropia, de Inês Badalo, foi uma grata surpresa, não só pelo carácter apelativo ao nível das sonoridades, mas pela arquitectura equilibrada da construção musical e pelo tratamento tímbrico da orquestra. Conforme a própria compositora disse numa entrevista à revista Da Capo, conceitos extramusicais como a pintura e a poesia têm inspirado a sua produção. No caso de Entropia, partiu da ideia da “magnitude física” e da “dicotomia ordem-desordem” que se encontra presente na natureza e também ao longo da obra.

Quanto à prestação de André Gaio Pereira no Concerto nº1, op. 77, de Shostakovich, permitiu apreciar as potencialidades deste instrumentista e a sua versatilidade, já que a obra coloca múltiplos desafios do ponto de vista técnico e expressivo. Concebida como uma espécie de suite, logo no “Nocturno” do 1º andamento pôs em evidência a qualidade de som e do cantabile de André Pereira ao longo de toda a tessitura do violino. O desenfreado Scherzo careceu inicialmente de intervenções mais incisivas da orquestra, mas o solista foi contagiando o conjunto com a sua veemência. Na Passacaille atingiram-se alguns dos momentos mais belos da interpretação e no final da longa cadência, e na festiva Burlesque conclusiva, o violinista impressionou pelos seus dotes virtuosísticos.

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