Subir na vida sem berço de ouro é mais difícil em Portugal

Quanto maior é a escolaridade do pai, maior é o rendimento do filho, segundo um estudo sobre mobilidade social. Em Portugal, mais de 5% da variação nos rendimentos dos filhos é explicada pela escolaridade dos pais, contra os menos de 2% na União Europeia.

Uma escola pública dissociada do estatuto sócio-económico dos pais pode ajudar a combater a imobilidade social em Portugal
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Uma escola pública dissociada do estatuto sócio-económico dos pais pode ajudar a combater a imobilidade social em Portugal Miguel Manso

Em Portugal é mais difícil subir na vida em comparação com a média dos países da União Europeia (UE). Apesar da evolução dos últimos anos, as principais determinantes na posição social de cada um ainda são o apelido familiar e a escolaridade e a profissão dos pais. O estudo “Mobilidade Social em Portugal”, divulgado ontem à noite pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), mostra até que ponto a mobilidade social entre pais e filhos é menor em Portugal do que no resto da Europa. Um exemplo? Entre os portugueses nascidos na década de 1940, os filhos de pais com ensino superior auferiam em média mais 12.400 euros do que os filhos de pais com apenas o ensino básico. Para os nascidos 30 anos mais tarde, as diferenças mantinham-se, embora reduzidas a 6700 euros anuais.

E, enquanto na UE a percentagem de variação no rendimento dos filhos atribuível à escolaridade dos pais não vai além dos 1,9%, em Portugal o valor sobe para os 5,4%. Dito de outro modo, em Portugal quanto maior é a escolaridade do pai maior é o rendimento familiar do filho. Do mesmo modo, a percentagem de variação no rendimento dos filhos que é explicada pela profissão dos pais é de 9,4% em Portugal, muito acima dos 2.1% da UE.

A boa notícia é que o factor “berço” perdeu algum peso nas décadas mais recentes, sobretudo a partir de 1970, muito por causa da generalização do acesso à escola”, como adiantou ao PÚBLICO a investigadora Teresa Bago d’Uva, investigadora na Universidade de Erasmus em Roterdão, na Holanda, coordenadora deste estudo apresentado e debatido ontem à noite no programa Fronteiras XXI, na RTP3 e que teve como ponto de partida velhas suspeições que a FFMS transformou em perguntas: a educação é chave para subir na vida? Em que medida é que a ocupação dos pais explica a variação total no rendimento dos filhos? O apelido ainda conta para conseguir um bom emprego? Em relação a esta última, Teresa Bago d’Uva confirma que “o estatuto sócio-económico do pai, medido através da sua escolaridade e profissão”, pesam na posição social dos filhos, nomeadamente na geração mais recente analisada, a dos nascidos entre 1970 e 1985. “Entre estes, 57% atingem um nível de escolaridade semelhante ao do seu pai e 51% uma categoria profissional equivalente”, precisa.

Nas décadas anteriores, o determinismo social era maior. Até então, como lembra o economista Pedro Pita Barros, no prefácio do estudo, a mobilidade social (que pode ser descrita como a posição social e económica dos pais não determinar a posição social e económica dos filhos, numa medição assente em aspectos como a escolarização, ocupação profissional e rendimentos) era “tradicionalmente baixa”. Aumentou, “de forma marcada”, a partir de 1970. Foi a década da mudança de regime. E também, como insiste Teresa Bago d'Uva, da generalização do acesso à escola.

Para medirem o grau de mobilidade social não só de pais para filhos mas também para um mesmo indivíduo ou agregado familiar ao longo do tempo (e sabendo a partir de estudos da OCDE que ter um pai com ensino superior leva em média a um salário 20% superior ao dos que nasceram de pais apenas com o secundário), os investigadores focaram-se nas gerações de portugueses nascidas entre 1940 e 1985. No fim, aprofundaram conclusões que já eram conhecidas: é mais fácil subir na vida e descolar do contexto de origem no conjunto da UE do que em Portugal.

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Entre os nascidos entre 1940 e 1949, o nível de escolaridade dos filhos está muito associado ao dos seus pais, ou seja, há pouca mobilidade. “A grande maioria dos filhos com pais do ensino básico não passou do mesmo nível de ensino e quase nenhuns atingiram o ensino superior. E, no outro extremo, apenas uma pequena minoria dos filhos com pais licenciados não passou do básico, sendo que 75% licenciaram-se também.

Se a situação dos filhos cujos pais que detinham um canudo universitário não se alterou substancialmente ao longo do tempo - isto é, mantiveram uma posição privilegiada -, a dos filhos com pais que não passaram do ensino básico melhorou substancialmente. Entre os nascidos na década de 40, 87% dos filhos também não passavam do básico. Já entre os que nasceram entre 1970 e 1985, esta percentagem baixou para os 57%. Apesar desta maior convergência, Portugal continuou aquém da média europeia: 45%.

É uma distância alcandorada sobretudo nos homens. Apenas 33% dos rapazes obtiveram qualificações académicas superiores às dos seus pais (43% na UE). Por outro lado, entre as mulheres portuguesas nascidas na mesma altura, 48% atingiram um nível escolar superior ao dos seus progenitores masculinos.

Voltando ao peso que tem nos rendimentos o facto de se ter nascido de um pai com formação universitária, o estudo esmiuça que, entre os nascidos na década de 40, os filhos de universitários ganham a mais em média 12.400 euros por ano, comparativamente com os filhos de pais que não passaram do básico. Para os nascidos após a década de 70, porém, a diferença aligeirou-se para quase metade: 6700 euros. É com base nesta descida que os autores do estudo concluem que “o privilégio trazido pela escolaridade dos pais em Portugal diminuiu ao longo do tempo”, para logo a seguir lembrarem que o cenário continua a não ser famoso, até porque se aplica “a fatias cada vez maiores da população”. E urge ainda perceber qual foi o impacto da crise, e das consequentes medidas de austeridade, nesta (falta de) mobilidade social.

Quando a pergunta é como é que se combate a estagnação social em Portugal, o que Teresa Bago d’Uva responde é que a solução continua a passar muito pela escola. “Julgamos ser importante a manutenção de um ensino público de qualidade que não esteja associado ao estatuto sócio-económico dos pais”, precisa a investigadora, apontando ainda a necessidade de políticas de combate à pobreza e exclusão social e a promoção da orientação escolar e profissional nas escolas para “colmatar possíveis diferenças no apoio que os pais são capazes de oferecer aos seus próprios filhos”.

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