Crítica Música

José Salgueiro: nunca é tarde

Na sua tardia estreia como líder, o veterano baterista José Salgueiro apresenta um jazz sólido e inconformado.

José Salgueiro, um <i>sideman</i> que se estreia, aos 56 anos, como líder de um projecto de jazz
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José Salgueiro, um sideman que se estreia, aos 56 anos, como líder de um projecto de jazz ESTELLE VALENTE

José Salgueiro é um baterista veterano da cena jazz nacional, figura omnipresente da música portuguesa nas últimas quatro décadas. Integrou grupos que marcaram a música popular portuguesa, como Trovante, Gaiteiros de Lisboa ou Resistência, e é um nome incontornável na cena jazz, “sideman” de múltiplos projectos e presença regular nos grupos Lokomotiv de Carlos Barretto e El Fad de José Peixoto.

Nesta sua estreia na condição de líder de um projecto jazz, aos 56 anos, Salgueiro mostra que nunca é tarde para se começar. O grupo apresenta uma música muito sólida, que se revela também inconformada. O disco arranca num turbilhão, breve mais enérgico, de seguida o piano deixa cair notas que dão o mote para o tema, que vai crescendo a partir dessa base do piano, com todo o grupo em redor, até à plena exposição do tema, que vai evoluindo depois pelo envolvimento de todo o quinteto — estratégia que foge ao habitual esquema tema-solo-tema. Surpreende e dá o mote para o disco, que nunca se deixa antecipar.

Desde logo, o mérito é das composições originais do baterista, que fornecem a base para intervenção assertiva de cada um dos membros do grupo. No piano, João Paulo Esteves da Silva é um mestre, combina lirismo e sobriedade e vai pincelando cada tema com impecável bom gosto. Na guitarra eléctrica está Mário Delgado, que se serve habilmente dos efeitos electrónicos, acrescentando outras cores. Nos sopros está Guto Lucena (clarinete baixo e sax alto), que intervém com contenção, ao serviço dos temas, sem exibicionismo. No contrabaixo, Cícero Lee marca o tempo com precisão.

Já sabíamos desde há muito que a bateria de Salgueiro é uma máquina de ritmo, mas não se fica por aí; além da irrepreensível marcação, faz questão de acrescentar criatividade, acrescentando deliciosos detalhes dentro de cada tema. Registe-se ainda a agora confirmada qualidade como compositor, que assina um lote de temas desafiantes.

Poderíamos pensar que esta música, trabalhada por músicos experientes, acabaria por se fixar num jazz estancado, previsível. Nada mais errado, o colectivo surpreende: há quebras bruscas, recomeços, voltas inesperadas, apanhando o ouvinte de surpresa, jogando ao gato e ao rato. É bonito ver que a sua estreia um músico veterano surpreende. Oxalá muitos músicos mais jovens fizessem o mesmo.